segunda-feira, 1 de maio de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Resíduos de combustão

Aparecido Raimundo de Souza

1
QUANDO OLHEI com mais acuidade para a moça que acabara de subir e cruzar a catraca dentro do coletivo, e que depois de pagar a passagem, viera se sentar de frente para mim (naqueles bancos que frenteiam testa com testa), não pude deixar de olhar para seu corpo escultural, suas pernas longas e bem feitas (metidas num vestidinho azul ligeiramente curto e sensual), que deixava tudo à mostra, exceto o que havia debaixo dele, ou, mais precisamente, entremeado no espaço compreendido entre a extensão das coxas e a barriguinha.

2
Com essa visão interrompida do paraíso ali tão perto, tão ao alcance das minhas mãos nervosas, imaginei, em pensamentos libidinosos, esse pedaço de mau caminho totalmente despido daquele pedacinho de pano que resguardava o mais delicioso de todo o conjunto. A sua nudez. De repente, ela me encarou. Sustentei o olhar, e percebi que toda a animação de seus olhos fora substituída por um ímpeto interno de súbita preocupação.   

3
Notei que, ato contínuo, ela colocara a mão esquerda espalmada no rosto, tampando parcialmente um dos lados da face. Esse gesto me chamou mais ainda a atenção, e, nesse instante, eu vi, ou melhor, me deparei com o que deveria permanecer oculto. Escondido num omisso que ninguém tinha o direito de explorar, ou de bisbilhotar. Um ponto que ela não queria mostrar por se sentir menosprezada, humilhada, envergonhada.

4
Esse lado da boca era errado, inexato, torto, o que deformava sua formosura, sua brandura, seu deleite, e colocava um tremor mórbido em seus lábios. Os olhos de um azul muito claro pareciam extremamente tristes e melancólicos. O aleijo, talvez de nascença, ou quem sabe causado por alguma enfermidade mal curada, sobressaía, reacionário. Um acidente abominável, insuportável e odioso, sabe lá, deixara uma sequela nefasta, execrável, virulenta. Uma lesão censurável que ela não conseguira engolir. E isso visivelmente manifesto constrangia, sobremaneira, aquela boneca impecavelmente linda.

5
Obcecada pelo pejo de um sentimento de desagrado, horrorizada pelo ato de não se sentir à vontade, deduzi que ela não se prezava feliz, embora o albor da sua juventude dissesse exatamente o contrário. O tempo todo da viagem, quase duas horas e meia, ela seguiu de perfil resguardado. Deduzi que as inflexões do tempo eram como dentes afiados de uma serra descontrolada, despedaçando a sua vida ao meio. Me pus, num instante imaginoso, em lugar dela, e me vi dissociado, desunido, rachado, metadeado, como na pele de um assistente de um mágico relapso e javardo. 

6
Vez em quando a deusa trocava de mão, sempre escondendo a cicatriz malvada, antipática, ominosa, que lhe tirava o viço e a diminuía na dor e na agonia, o que evidentemente a levava a se conceber feia, ou talvez, por essa razão, excluída das pessoas ao seu redor. Que desdita! Olhei para ela não com pena ou consternado, com ternura paterna. Com um carinho especial. Tão linda e perfeita, tão perfeita e linda, porém atormentada, no âmago da sua insatisfação, por uma deformidade inverossímil.

7
Todos nós temos pequenos aleijos, alguns visíveis, outros nem tanto. Todavia, quero crer, não importa onde a nossa dor esteja manifesta, onde nossa desgraça se faça presente. O fato de sabermos que alguma anormalidade, por menor que seja, tira o nosso verdor, mancha a nossa exuberância, nessa hora o punhal maldito faz questão de se tornar pontual e deselegantemente assíduo.

8
E, como tal, lança a seu bel prazer, o talho, a amputação da angústia e, ao fazê-lo, aflige a nossa alma, apavora e fustiga o nosso espírito e tira, sobretudo, a nossa sensibilidade, mandando para longe o nosso desejo mais veemente de sermos felizes na melhor forma de expressão que a palavra consegue traduzir. 

9
Quando ela se levantou e apertou o botãozinho do sinal de parada, me senti violado no âmago da alma. Se pudesse, me transformaria num daqueles caçadores de bengala. Sem pensar nas consequências, com uma zarabatana, eu assopraria, em seu pescoço, ou a altura do coração, um daqueles dardos com tranquilizantes.

10
E quando ela caísse, desacordada, estonteada, eu a seguraria em meus braços e a levaria para um lugar distante, aonde pudesse tê-la sempre perto de mim e da solidão imensa que ficou faceira e pujante, sentada, intransigente, em seu lugar.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do sitio “Shangri-Lá”. 1-5-2017

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