domingo, 24 de novembro de 2019

[As danações de Carina] Chuva

Carina Bratt

Sobre a poesia do cantor e compositor português, Jorge Fernando.
Momento musical, cantora Mariza.

“As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade”.


Vendo a chuva cair a bom despejar pelos vidros da minha janela, aproveito e ligo o som baixinho. De repente, o CD com a voz maviosa de Mariza, invade meu quarto e me vem falar numa interpretação inimitável e inigualável de uma outra chuva.

Nessa hora, um vento forte desloca as cortinas e desequilibra fazendo voar para longe uma folha de caderno onde eu escrevia uma carta para mim mesma…

Não me assusto. Estou ligada na voz de Mariza e nos versos compostos por Jorge Fernando. A cantora, investida em sua melhor aura de fascínio, me tira do chão. Me leva a passear por rincões desconhecidos dentro de minha própria neurastenia.  

“As coisas vulgares que há na vida da gente”, ou seja, as coisas medíocres, levianas, vulgarizadas   e banais, não deixam saudade. Não deixam se as colocarmos de lado e esquecermos que um dia vieram atrapalhar, estorvar, ou atarantar nosso dia a dia.


Somente as lembranças gostosas e elegantes, saborosas, e garbosas, as dádivas macias e quentes, as eternas… Essas sim, pairam acima da gravidade do momento… Nos reanima. Nos refloresce.

Aquelas doideiras momentâneas que não doem e não machucam e não nos fazem sofrer. Essas preciosidades fluidas da maciez das entranhas, que nos fazem sorrir. E voltar ao passado. Esses instantes são irrepetíveis.

E eis-me aqui a retornar ao presente. Lembra, essa espécie de magia, o vai e vem de um balanço de parquinho, onde crianças brincam e pulam e nos permitem regredir por tempos que não voltam… E também não somem de vez.

Todavia, resquícios que nos mantém vivas e pulsante de uma vontade de viver que inebria o âmago atarantado.

Esses brindes são imorredouros. Há gente, pessoas, coisas, atos, fatos que ficam na história da gente. E outras, milhares delas de “quem nem o nome lembramos ouvir”.

Seja como for, são emoções diferenciadas, inquietações que dão vida à saudade, notadamente à nostalgia que trazemos e enfurnamos dentro do coração.

A maior delas, a que tive contigo e por bobeira, por nada, por banalidade, por descuido, por desatenção, acabei por perder.  Entendo que “há gente que fica na história da vida da gente”; minha mãe, meu pai, meus avós, meus tios, os amigos de verdade. Esses são ad aeternum.

E outras “que nem o nome sequer lembramos ouvir”, são passageiras, como a vida, o vento… O cobrador de ônibus que não respondeu ao nosso olá, o namorado sem noção que não retornou as nossas mensagens e ligações.

Tem igualmente a amiga descontrolada que nos mandou plantar coquinho, o chefe que nos fez uma desfeita, o cara medíocre que de dentro de seu carro nos xingou no trânsito…

Enfim… Coisas outras tornadas lugares onde seus mais intrínsecos desejos e ambições foram expostos e se quedaram satisfeitos.

Há dias que marcam a alma a ferro e fogo e gruda em nós e não nos deixa em paz. A saudade do dia em que você me deixou, pegou as coisas e foi embora, nunca consegui esquecer. Nem superar.

Para marcar meu íntimo, fazer se esvair em lágrimas meu eu em frangalhos, a chuva... A chuva torrencial e fria… Cortante como as suas palavras de adeus amortalharam meus derradeiros resquícios de esperança de reconciliação: “Não voltarei mais. Me esqueça…”.  

A chuva, nesse momento tão nosso, “molhava-me o rosto gelado” e cansado, assim como “as ruas que a cidade tinha eu percorrera” tantas vezes, indo ou vindo vindo ou indo, em passos lentos, lerdos, indefinidos…

Num choro veemente e frenético, convulse e desassossegado de “moça perdida, eu gritava à cidade”, vociferava, protestava a plenos pulmões, mas ninguém… Vivalma me ouvia.  

E “o fogo do amor”, o fogo ardente, intenso, apaixonado, combusto e irrequieto que você alentava, de repente, num segundo inconsequente, esfriou, inclinou, desanimou, moderou em meu ser, me deixou vazia, oca, perdida, sem rumo ou direção. Protestei, reclamei. Nenhuma esperança me socorreu.

Só a chuva torrencial me escutou, me deu guarida, me acolheu e calou meus anseios, meus medos… Meus dissabores. Lavou meus horizontes fazendo com que visse um novo horizonte à frente.

E agora, tanto tempo depois, tantos anos passados, outra chuva, nova chuva, meu Deus!, a mesma chuva amiga, talvez, quem sabe, aquela do dia fatídico em que você me deixou e foi embora e sequer olhou para trás.

Essa chuva, me bate à janela, como naquele dia… E me traz de volta a saudade, a saudade medonha, intransigente, fazendo sombras elípticas sobre os móveis do meu pequeno aposento. Sombras ingratas, infelizes, melancólicas que ficou de tudo…

Sobretudo, as sombras de você. Ouço, ainda, a Mariza, rodando no compartimento do CD. Me concentro na sua voz, me perco no seu talento… Viajo… Voo… Me desprego… Me entorpeço…

“A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera…”.


Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo, Capital. 24-11-2019

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