domingo, 4 de outubro de 2020

[As danações de Carina] Sem pé nem cabeça

Carina Bratt 


 

Vinha sem pressa de nada. Caminhava a passos lerdos, de tartaruga. Se aproximava devagar, quase parando, como se fosse o dono do tempo. Quando acordou do seu marasmo, já era a hora da Lua. 

Aliás, ela ia alta, linda, cheia de charme, vestida no seu fulgurante esplendor. A verdadeira dona, deusa do pedaço. Inigualável. 

Em breves semitons de azul e verde, ela surgiu, como pingos de prata se sobrepondo ao hálito antropófago da noite. 

Aportado como um barco cansado que navegou por mares de águas distantes, ele simplesmente se esparramou preguiçosamente no acaso da calçada. 

De contrapeso, ficou procurando palavras certas, para justificar a sua permanência. Tanto fantasiou, tanto devaneou, que virou... Tanto visionou que virou corpo celeste, emissor de luz própria. Em outro modo de dizer, se fez Estrela. 

Como tal, em astro transformado, se sentiu na obrigação de brilhar. E cintilou, luziu a mais não poder. Flamejou de tal forma que, por excesso de resplandecência, fez sumir do mapa os oceanos, escondeu o dia, maquiou as horas, destruiu os minutos e os outros seres cultivadores de esperanças, como os loucos e, igualmente os desvairados. 

Mandou para o ralo as demais esferas que moravam nos recônditos do infinito. Entretanto, apesar desta loucura toda, ficou com um desejo enorme querendo, a qualquer preço, voltar a ser homem. Homem feito, para receber agraciados e homenagens, palmas e honrarias. 

Seria (a seu pensar), o único homem estrela do mundo, de maneira que vestiu a sua melhor roupagem e desceu literalmente do mais alto céu. 

Aconteceu, todavia, um imprevisto não programado. Seu fulgor ofuscava as pessoas e elas ou fugiam dele —, assustadas —, ou o atacavam com o que encontrassem à mão: paus, pedras, latas velhas, garrafas plásticas, pedaços de móveis... 

Decepcionado, ele regressou correndo para o insondável do Espaço e jurou vingança: uma vingança feroz, braba, irritante e nervosa. Iria brilhar ainda mais. 

Afogaria a todos, sem exceção, com a sua força de brilho intenso. Foi quando, num repente, a manhã pintou inesperadamente no pedaço e floriu altaneira, trazendo consigo outro futuro. 

Um futuro novo, que não estava preparado, e o sol lhe confiscou sem mais delonga, a caixinha das surpresas e, junto, de roldão, levou a imaginação. 

Era chegada a hora da Lua. E ela ia alta, navegada por horas sem conta e sem amarras. Sem nós ou qualquer outro tipo de algema conhecida. A Lua ia alta. Muito, muito alta. No contrafluxo, ainda perdido no acaso da calçada enorme... 

Ele, porém, não entrega os pontos. Se ama, se adora, se gosta indeciso e o faz entre um tango argentino e um trago de aguardente. A noite comprida pousa, desdentada, na vastidão do quintal da sua cabeça. E então, o inesperado... O espelho do tempo se quebra em mil estilhaços estilhaços que não se juntam. 

Título e Texto: Carina Bratt, de Sertãozinho, Ribeirão Preto, interior de São Paulo. 4-10-2020

Anteriores:
Quase
Como sair da depressão ‘depressinha?!’
Anestino
O músico, o piano, a multidão e nada mais
Na solidão da quarentena, descobri ter sérios poemas mentais
Obsessão pacífica
Triangulação passiva

Um comentário:


  1. MB!
    Um texto sensivel ,poético!
    Poético e com licenças que a poesia permite e incentiva ,começando como "Caminhava a passos lerdos, de tartaruga."

    ResponderExcluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-