quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

[Foco no fosso] Água do bebedouro

Haroldo Barboza

Nos países de baixa instrução, o smartphone é usado (perto de) 5% para assuntos úteis e 95% para amenidades (e metade delas de mau gosto).

Para governantes que assumem cargos com pouco entusiasmo para trabalhar (projetar, executar e fiscalizar) em prol do povo (mesmo os que não votaram nele) e arrecadar “por fora” uma quantia dez ou vinte vezes maior que seu salário, este é o cenário que eles apreciam e desejam que seja mantido por dezenas de anos (já visando atender seus sucessores mais chegados).

Por isto estes governantes produzem factoides semanais para alimentar este perfil popular. Patrocinam eventos onde artistas e cantores se encarregarão de distrair a “boiada” (eles chamam de “massa”).

Eventualmente alguma obra mal gerenciada (95% delas) geram problemas antes do previsto. Eles tentam e torcem para que qualquer fatalidade só se apresente depois de uns dez anos após ser entregue como “legado”.

Em surgindo as falhas (grotescas) antes da hora (tipo queda de ciclovia montada para durar até três anos depois das “olimpiadas” de 2016), eles vão criando atalhos de fuga, tipo colocar a culpa em alguma entidade: gestor anterior, São Pedro, tremores no Chile, falta de cuidados da população, dilatação acima da média por culpa do “El Ninho”. Ah, ah, ah.

E o povo já domesticado, sem saber como usar corretamente a arma que possui nas mãos, fica resmungando com seu smart enquanto a novela da tv não começa.

Para ilustrar melhor esta tese, faremos uma comparação grotesca usando um fato que HOJE ainda está na “moda”: a qualidade da água servida (com vestígios de fezes) pela CEDAE (RJ).

CENA 1 (num país que valoriza seus impostos).
Milhares de usuários (da água e do smart) combinariam uma vigília diante das casas dos responsáveis com faixas de protestos e garrafas de água contaminada derramadas nas portas destas casas. A vigília seria permanente. A cada seis horas, centenas de eleitores trocariam de “turno” para manter o incômodo aos governantes. Devidamente filmado e exposto em todos os jornais e tvs do país e vizinhos do continente. Em menos de três dias o plano de restabelecimento da normalidade é exibido e acionado. A fatura virá com desconto pelos dias do mau serviço prestado. Em dez dias tudo se normaliza. O Diretor de águas pede desculpas e sabe que no próximo “acidente” será expurgado da vida pública.

CENA 2 (exatamente no RJ).
Menos de vinte pessoas exibem suas torneiras e vasilhas contaminadas e fazem uma “passeata” no quarteirão do bairro. Talvez queimem quatro ou seis pneus velhos para atrapalhar a vida de quem está passando na área no momento. A “passeata” dispersa rapidamente quando um vizinho grita da janela:

- A cantora Juquete vai tirar o biquíni na praia diante da TV!

Um rapaz sentado na mesa do boteco improvisa um sambinha com o refrão:

“A CEDAE nos dava água pura no tempo do Lacerda;
Hoje ela entra na caixa, trazendo boa merda!”.

O repórter que cobria o evento sobre a contaminação da água é trocado pelo que cobre o ensaio da escola de samba do bairro. E o povão na quadra de ensaio sorve copos da cerveja achando que está livre da “desenteria” que transita no bebedouro da escola de seus filhos.
Título e Texto: Haroldo Barboza, 12-2-2020

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