sábado, 10 de outubro de 2020

[As danações de Carina] Para o ‘Pingo’, meu cachorro do sorriso eterno


Carina Bratt 

Sempre aquela cumplicidade do amor incondicional e absoluto, permeado de um pleno ilimitado e declaradamente patente e visível, desmedido e franco nos envolvia de forma inexplicável. Acontecesse o que acontecesse, a cena do ‘até breve’, se repetia incansavelmente. 

Se fazia presente nas nossas manhãs, sempre nas nossas manhãs à hora do café posto. Notadamente na hora em que eu me colocava sentada no tapete da sala, na linha da sua altura e lhe depositava um beijo barulhento na ponta do nariz gelado. Era um ritual bonito, porém, desapiedado e insensível, quase perverso. 

Todavia, servia para deixar transparente e vulnerável, um amor perene e vasto, uma magia incalculável, que não pedia nada em troca. Nada. Simplesmente vinha à tona, e me implorava, num silêncio descomedido, que eu fosse um tiquinho assim mais boazinha e desse um pouquinho só de ‘mais atenção’. 

Toda vez que eu saia para os afazeres do trabalho, logo depois de tomado o desjejum, ele sabia que eu só regressaria bem tarde, depois que a noite tivesse transformado o bonito do céu azul, num manto escuro cheio de estrelas, como se tudo, lá no alto, fosse tomado por estrelas à imitação de sardas na pele da noite. 

Quando eu ‘me ia’ embora, deixava com ele os meus medos e os meus assombros num amontoado de lágrimas. Nessa hora, ele me pedia, com gestos leves, para levar dentro de mim, a quenturinha de se seu carinho junto com o meu. Enfim saída para o corredor, de vez, tomava o rumo dos elevadores, atarefada, sempre atarantada por causa dos horários cheios de compromissos. 

Deixava também com ele, a contragosto, uma despedida triste e enfadonha, tão pesada que o ‘seu eu’ quase não suportava aguentar. E ele, em retribuição canina, se mostrava forte e corajoso; me lambia das mãos à alma, me acarinhava em pedaços poucos. 

Me absolvia o cheiro do perfume usado e apesar da sua pequenez, se agigantava dentro da minha cabeça com uma ternura infinda. Me desenhava um manifesto complexo de boas coisas que durava até a hora que eu voltava para o nosso aconchego. 

Por assim, quando eu saia do elevador e metia a chave na porta, marcando definitivamente o retorno, ele se abria em mil sorrisos. Se fundava em mimos, me transmitindo a sua alegria ímpar que fluía com uma intensidade louca de dentro de seu âmago em festa. A mesma euforia se fazia bela, quando descíamos para nossos passeios. 

Não havia coleiras cingindo seu pescoço. Ele caminhava ao meu lado, obediente, como um cãozinho de guarda, o rostinho altivo, olhinhos arregalados, os passos calmos e quietos, alegres e sem barulho de encontro ao frio e áspero do cimento, prestando atenção em tudo ao seu entorno. Saltitava, de quando em vez, e se enamorava abertamente, no momento em que via chegado o ponto nevrálgico das suas 'aliviações' mais prementes. 

Só aí fugia de perto de mim. Na verdade, voava até ele e, sem despregar os olhos da minha pessoa, despejava calmamente as suas necessidades fisiológicas num poste alto e de feições sisudas. Vivia esta criaturinha de emoções intensas, enquanto eu construía um mundo ilusório ao meu redor. 

O meu desvairo maior, todavia, voltava a se renovar, de novo, ao sairmos para outro passeio, desta feita, para o mercado, com breves paradas, ora na farmácia, ora na pracinha, ou no calçadão da praia... O fato é que ele nunca desistia de me fazer feliz. 

Se desconjuntava, inteiro, em doçuras e blandícias, mostrando a todo minuto, com seu pedacinho de vida, que podia transformar a minha estrada criando nela dimensões que eu mesma não conseguia, sequer, medir o tamanho da excelsitude a ser seguida. 

Até que... Ontem, sexta-feira, a morte chegou, sorrateira. Veio assim, do nada, e se aproximou numa hora inesperada. Eu não estava em casa. Ao chegar, e topar com ele estirado ao lado da porta, me desfiz em choro profundo, convulso, me descabelei, quis morrer e ir junto. Corri, ao celular, liguei para a doutora Vilma, a veterinária minha amiga, mas ela, quando o examinou, diagnosticou que nada mais poderia ser feito: ‘Ataque fulminante do coração’. 

Eu nem sabia que os cachorrinhos sofriam do coração. Imagine! O Pingo, o meu Pingo se foi. Partiu. Eu queria seguir junto com ele, não tinha como. Dentro de mim, acredito piamente, uma parte tenha se desprendido, de roldão. Para o Pingo, quero acreditar nessa hipótese, a morte, se fez bonita, alegre, solta, livre e leve, como um pássaro de asas grandes, que pousou na varanda. 

Com seu bico o acarinhou ao ritmo compassado de uma existência que, enquanto terrena, só me fez bem e deixou, para sempre, boas lembranças, recordações imorredouras para serem absolvidas enquanto eu vida tiver. Pingo, o meu cachorro, achou que viveu demais, e de repente, assumiu o inverossímil inaudito, me legando um reflexo de vida etéreo, que sempre se repetirá toda vez que me olhar no espelho. 

Em contrapartida, o mutismo que ficou atrelado à taciturnidade do calado que permanecerá por aqui, abraçado com a ausência desvairada e febril em todas as dependências do apartamento, me permitirá que eu siga em frente. Que continue em estado de graça constante dos seus momentos, vivenciando uma dor forte. 

Penso, cá com meus botões, uma comoção isenta, claro, de coisas nefastas, como foi, sem dúvida alguma, o abrupto de uma pessoinha que morreu de overdose em face de possuir um coração imenso demais e, que por conta deste infausto, não soube suportar o inexplicável da sua doença. Talvez, quem sabe, a loucura desta ausência, sempre se fará aqui, agora, renovada, pulsante, letal, amiga, sobretudo amiga, e companheira, dentro de minha louca imaginação. 

Título e Texto: Carina Bratt, de Conceição da Barra, no Espírito Santo, ES, 10-10-2020

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