sábado, 21 de novembro de 2020

A imprensa morre no escuro

A atividade que já foi chamada de “quarto poder” escorrega perigosamente para a irrelevância

Dagomir Marquezi 

Segundo o The New York Times, assim foi o ano de 2020 no Brasil: 

9 de janeiro — “Guerra cultural”, cada vez mais acirrada por culpa de Jair Bolsonaro, tira do ar série da Netflix em que Jesus é mostrado como homossexual. 

17 de janeiro — Secretário da Cultura de Jair Bolsonaro “evoca propaganda nazista”. 

21 de janeiro — Glenn Greenwald, então editor do site The Intercept Brasil, é “perseguido” por denunciar o ministro da Justiça, Sergio Moro. Moro havia prendido o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o intuito de “deixar o caminho aberto” para eleição de Jair Bolsonaro. 

5 de fevereiro — Jair Bolsonaro “compara índios a animais num zoo” e nomeia ex-missionário para tratar da questão. 

26 de fevereiro — Carnaval do Rio se torna um “grito de resistência” contra o “autoritarismo” de Jair Bolsonaro. 

1º de abril — “Isolado e desafiador”, Jair Bolsonaro despreza a ameaça do coronavírus. 

19 de abril — Jair Bolsonaro se move agressivamente para abrir a Amazônia para o desenvolvimento comercial, ameaçando um “etnocídio” dos indígenas. 

24 de abril — Sergio Moro (que agora se tornou “a face da luta contra a corrupção”) renuncia ao Ministério da Justiça e o “isolado” Jair Bolsonaro é acusado de “minar um pilar-chave da democracia”. 

1º de maio — Jair Bolsonaro, abalado por uma “torrente de investigações” contra sua família, luta pela sobrevivência “apelando para velhos militares”. 

18 de maio — O Rio de Janeiro tem recorde de mortes causadas por policiais. 

6 de junho — Incentivada por Jair Bolsonaro, a destruição da floresta amazônica se acelera. 

10 de junho — Investidores “abandonam o Brasil”. Jair Bolsonaro ameaça “chamar os militares” para desmontar a democracia brasileira. 

1º de julho — Augusto, cão adotado pela família Bolsonaro, é devolvido a seu tutor, que agradece. 

19 de julho — Funcionários do governo Bolsonaro podem ter espalhado a covid-19 a populações indígenas. 

28 de agosto — Jair Bolsonaro ameaça socar a boca de repórter que questiona o envolvimento de sua família com corrupção. 

4 de setembro — Destruição do Pantanal atinge escala inédita sob o governo Jair Bolsonaro. 

10 de novembro — Jair Bolsonaro põe vidas em perigo ao politizar o programa de vacinação contra o coronavírus. 

Sou assinante do The New York Times desde 2011. Não pretendo de jeito algum cancelar a assinatura. O NYT realizou a melhor adaptação ao meio digital entre todos os grandes jornais. A seção de ciências é leitura obrigatória. Seu precioso arquivo oferece ao assinante tudo o que foi publicado desde a primeira edição, em 1851. 

Nesse fabuloso acervo é possível verificar que o Brasil já foi tratado com objetividade factual pelo NYT. A cobertura sobre nosso país durante a 2ª Guerra é especialmente interessante. Mas o que era jornalismo de qualidade virou hoje uma piada repetitiva e sem graça. 

A cobertura atual do The New York Times sobre nosso país é realizada basicamente por um colombiano e duas brasileiras. Esse trio não se pergunta: o que está acontecendo hoje no Brasil que vale a pena colocar nas páginas do jornal mais importante do mundo? Eles procuram outra coisa: o que podemos fazer hoje para envenenar a imagem do presidente que esses idiotas resolveram eleger? 

Segundo os correspondentes do The New York Times, o único fato positivo ocorrido em 2020 no Brasil foi a adoção de um cachorro chamado Augusto pela família presidencial. O verdadeiro tutor pediu a devolução de Augusto e agradeceu aos Bolsonaro por cuidar do cão. Nesse único momento de julho, a cobertura se tornou quase humana e equilibrada. 

Mas acabou aí. As outras notícias se referem a destruição “proposital” de reservas naturais, autoritarismo desenfreado, ameaça de golpe militar, fanatismo fascista, “etnocídio”, “genocídio”, incompetência, violência policial fora de controle, corrupção, ignorância. E todas as matérias apontam para um culpado por tudo isso: o presidente, eleito por 57.797.466 votos.

Esse simplismo militante é ofensivo a quem vive nosso cotidiano. O problema seria o mesmo se o The New York Times pagasse para que os três correspondentes falassem invariavelmente bem de Jair Bolsonaro em suas páginas e exaltassem a contínua perfeição de suas medidas. Seria outra mentira, outro desrespeito a seus leitores brasileiros. O que o NYT faz com relação ao Brasil parece tirado do manual de redação de J. Jonah Jameson. 

Jameson é o editor do Clarim Diário, o (fictício) jornal nova-iorquino criado pelo genial Stan Lee para as histórias do Homem-Aranha. Nos editoriais de J. J. Jameson, não importa o que o Aranha faça pela cidade — combater supervilões, evitar assaltos, ajudar idosos a atravessar a avenida; ele deve ser combatido sem trégua. “Nós não podemos permitir que essa ameaça mascarada tome a lei nas próprias mãos”, escreve Jameson assim que o novo super-herói surge para o público. “Ele é má influência para nossa juventude. Crianças podem tentar imitar seus feitos fantásticos! Pense no que pode acontecer se elas transformarem em herói esse monstro desumano, fora da lei. Não podemos permitir isso! Não há lugar para essa criatura perigosa em nossa cidade!” 

É mais simples e fácil cultivar um Judas maligno para ser malhado sem parar

Assim como J. J. Jameson, os correspondentes do The New York Times no Brasil usam o jornalismo para pôr em prática uma agenda preconcebida. Com isso, desmoralizam a própria atividade. Jornalismo implica uma relação de cumplicidade entre os editores e seus leitores. Por princípio, os jornais publicam fatos. E os leitores devem acreditar no que leem. Quando o trio do NYT escreve histórias distorcidas para cumprir sua agenda ideológica, o próprio conceito de imprensa fica abalado. A confiança se quebra. “A democracia acaba na escuridão”, é o lema do (cada vez mais esquerdista) The Washington Post. Boa parte da “grande” imprensa (incluindo o Post) está apagando as luzes. 

Mesmo jornais considerados “de direita”, como Wall Street Journal e The Times (de Londres), parecem também enxergar o Brasil como um permanente circo de horrores comandado por um lunático. Nenhum deles procura explicar o comportamento de nosso Congresso, os malabarismos diários do Supremo Tribunal Federal, o poder paralisante das corporações estatais, a dificuldade para privatizar gigantescos cabides de emprego, a abismal qualidade de nossa educação, a luta para simplificar o hospício de nossa burocracia, o heroísmo de nossos empreendedores, as experiências ambientais de sucesso. Nada disso. É mais simples e fácil cultivar um Judas maligno para ser malhado sem parar. 

Jornalistas espertos não deveriam escrever fantasias juvenis tão simplistas. Os fatos podem complicar a narrativa. Aconteceu na edição do último dia 16, quando o trio do NYT tentou explicar por que o monstro sanguinário que eles pintam há dois anos chegou ao ponto mais alto de sua popularidade desde a posse, em janeiro de 2019. Na matéria, o trio parece atarantado em busca de respostas para o fenômeno. Um cientista político tenta explicar: “Não acho que Bolsonaro seja um grande pensador estratégico, mas ele tem demonstrado um tipo de inteligência, uma habilidade para capturar o clima da população a qualquer momento e agir do modo certo. Ele não é bobo”. Nem nós, os leitores do The New York Times

Assim como a parte da mídia brasileira que ganhou o apelido de “extrema imprensa”, os correspondentes do NYT e de outros órgãos estrangeiros (BBC, Deutsche WelleEl País etc.) oferecem um universo paralelo cheio de mártires e tragédias que só se concretizam em suas fábulas ideológicas. Com isso, degradam uma atividade que já foi chamada de “quarto poder”. Mas que escorrega perigosamente para a irrelevância. 

É uma crise. Mas jamais o fim do jornalismo. Pelo contrário, estamos vivendo o início de uma era muito mais democrática da imprensa, apesar dos censores “progressistas” ocasionais. Assim como os táxis se metamorfosearam no Uber, as redes de TV estão disputando espaço com serviços de streaming e as fintechs dão um baile nos bancos tradicionais, o jornalismo está se reinventando, com o poder libertador da tecnologia digital. A Revista Oeste é só um exemplo dessa nova realidade. 

Título e Texto: Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direito dos animais e tecnologia. Revista Oeste, nº 35, 20-11-2020

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