domingo, 29 de novembro de 2020

[O espectador portuguez] Quem é André Ventura?

Manuel Rezende 

Não faço mínima ideia. Juro-vos que estou completamente sem palavras. Já escrevo para este jornal há alguns anos e nunca me tinha acontecido isto. Ou, seja, decidir-me a escrever sobre uma figura pública e não saber o que dizer. 

A verdade é que eu nunca quis saber de André Ventura [foto]. Nem mesmo quando fui convidado a ser Conselheiro da Região Norte para a Juventude, do Chega. Convite esse que aceitei porque me daria a hipótese de fazer o que sempre gostei de fazer: formação de quadros, dinamização cultural e social, criar contatos. 

A Juventude Chega, através da Lista Futuro, foi um projeto ambicioso para uma Direita com metas políticas realistas, Ação e Criatividade. Foi a própria estrutura interna do Chega que repeliu e boicotou esta Lista – como tal, assim que o projeto acabou, o partido deixou de me interessar. 

Aliás, desde que o Chega começou o leitor já leu, aqui neste espaço, várias críticas ao desempenho irregular e frustrante deste partido. Às vezes faz ter saudades do PNR. 

Contudo, as eleições presidenciais aproximam-se e alguns leitores já me perguntaram em quem é que eu penso dessa fraude chamada Marcelo, por isso vamos agora falar de André Ventura. 

E então?

Voltamos ao mesmo – quem é André Ventura? Não faço a mais pequena ideia. Acho que ninguém sabe. 

Ventura acorda à segunda-feira a criticar o Papa por ser muito liberal, para fechar a semana à sexta-feira a criticar Salazar por ter sido muito conservador. Entretanto, lá no para meio da semana, faz questão de arrancar uma “selfie” ao homem que já várias vezes defendeu a obediência ao primeiro e a honra do segundo: Jaime Nogueira Pinto. 

Em tempos, Ventura escreveu uma tese em defesa do humanismo – agora marcha intrépido e impetuoso pelo aumento das penas e para pôr na ordem a população cigana em desobediência às regras do ‘estado de emergência’. 

Falando em ‘estado de emergência’, de manhã o Chega não quer saber da manifestação contra o ‘estado de emergência’ e ao início da tarde está já Ventura no meio dos protestos. 

Que mais podemos dizer? Ventura já tinha se abstido na votação para impor o ‘estado de emergência’, mas passadas umas horas veio a público arrepender-se… E que dizer da consciência histórica do líder do Chega? 

Numa hora está farto de Salazar, noutra está a pedir um voto de pesar pelas vítimas nacionalistas dos massacres comunistas na guerra civil espanhola. 

Ventura é mesmo assim, deixa-nos com a cabeça a mil por hora. Num momento é contra a acumulação de cargos, no outro está a acumular cargos. 

Num momento é antissistema, no outro está em diálogo com o PSD. É impossível julgar um homem com tantas opiniões diferentes. 

Sobre a entrevista à Lusa

A infame entrevista à Lusa foi interpretada de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Sinceramente, acho que foram todos muito duros com Ventura.  

Ventura tem todo o direito a não querer ser saudosista de Salazar. Eu também não quero. Acho que dar-se ao trabalho de retirar, da sala onde se deu a entrevista, os livros de Salazar, para depois esticar-se todo para o criticar, era escusado. Ventura não tem de se preocupar com Salazar – na história de Portugal, Ventura é uma mosquinha comparado à presença de Salazar. 

Quanto às suas opiniões confusas sobre o aborto e o casamento homossexuak, ele que não se preocupe. Eu, enquanto católico, estou mais que habituado a opiniões confusas por parte daqueles que deviam chefiar a minha comunidade. 

E agora, em quem votar?

Ventura não é antissistema, tem o pensamento e as leituras de um jotinha. Contudo, leva às costas a maior e melhor direita portuguesa – aquela que não é do PSD nem do CDS, nem sabe o que é Direita, mas é composta por gente boa e trabalhadora e que ama o seu país. 

Se estas pessoas confiam em Ventura, eu também confio. E seja o que Deus quiser. 

Título e Texto: Manuel Rezende, O Diabo, nº 2290, 20-11-2020
Digitação: JP, 29-11-2020


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