sábado, 21 de novembro de 2020

O resgate de Tocqueville

O desprezo pelo cristianismo, tão comum em meios “progressistas”, representa um perigoso afastamento dos pilares norte-americanos 

Rodrigo Constantino 

Enquanto a eleição presidencial norte-americana segue sendo questionada judicialmente pelos republicanos, a nação continua dividida, e Joe Biden fez um discurso em prol da união. As palavras são positivas, mas os atos, nem tanto. Afinal, seu Partido Democrata tem sido responsável por segregar o povo, demonizar os adversários e eleitores de Trump, e nem sequer consegue condenar abertamente movimentos radicais e violentos como Antifa e Black Lives Matter. 

Além disso, a política de identidade tem jogado mais lenha na fogueira da divisão, o ataque ao legado dos “pais fundadores” é frequente e ideias socialistas vão ganhando força dentro da base democrata. O partido que hoje tem Bernie Sanders, Kamala Harris, Alexandra Ocasio-Cortez e Ilhan Omar seria irreconhecível para um JFK, católico, anticomunista e defensor de menos impostos. O tecido social da América está esgarçado, e Trump é bem mais sintoma do que causa. 

Nesse contexto, talvez seja útil resgatar a análise daquele que foi o observador mais arguto das peculiaridades norte-americanas que fizeram dos Estados Unidos uma grande potência democrática. Alexis de Tocqueville foi conhecer in loco a realidade do país e se encantou com muitas características excepcionais, que criavam certo abismo em relação à realidade europeia, em especial àquela francesa, de seu país natal.


Tocqueville escreveu seu clássico A Democracia na América buscando contribuir para a preservação da liberdade na França durante a conturbada transição da aristocracia para a democracia. Apesar do tempo transcorrido, o livro continua atual e válido em vários aspectos. Tocqueville reconhece a importância do caráter nacional norte-americano para a liberdade existente no país, e dá crédito aos religiosos puritanos pela moldagem desse caráter. 

Entre as observações que fez sobre o país, consta a extraordinária capacidade das associações voluntárias no dia a dia da vida norte-americana, como uma força social muito mais potente e extensiva que o Estado. Se os franceses se voltavam para o Estado, e os ingleses para a aristocracia, os norte-americanos formavam livres associações uns com os outros quando precisavam de alguma coisa. 

Os norte-americanos praticavam o autogoverno, em síntese. Não dependiam do governo, mas se organizavam para alcançar os próprios objetivos. Ele concluiu que a lei da associação é a primeira lei da democracia: “Entre as leis que governam as sociedades humanas, há uma que parece ser mais precisa e clara do que todas as outras. Se os homens devem continuar a civilizar-se ou tornar-se civilizados, a arte de associação deve crescer e melhorar, na mesma proporção em que aumentam as condições de igualdade”. 

O socialismo procura igualdade na restrição e na servidão

A igualdade de que falava Tocqueville não tem nenhum elo com a igualdade pregada pela esquerda democrata hoje, voltada para resultados iguais, independentemente do mérito ou valor gerado. Tocqueville deixou isso bem claro numa passagem conhecida: “Democracia e socialismo não têm nada em comum além de uma palavra: igualdade. Mas note a diferença: enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura igualdade na restrição e na servidão”. 

Os norte-americanos imaginam, segundo observou Tocqueville, que está em seu próprio interesse fazer contribuições para o bem-estar comum e o bem público. O futuro deles e de seus filhos se beneficia disso. O bem público está assim associado ao próprio interesse de cada um, ao dever moral de quem se sente parte de um todo. Não é preciso falar em altruísmo, pois a própria busca da satisfação dos interesses particulares já leva um povo mais avançado culturalmente a cuidar dos bens comuns. O norte-americano sente que a coisa pública é sua também, é de todos. 

Tocqueville explica melhor seu ponto sobre o respeito do cidadão às leis: “Ele obedece à sociedade não porque seja inferior aos que a dirigem ou menos capaz de governar a si mesmo do que outro homem; ele obedece à sociedade porque a união com seus semelhantes lhe parece útil e porque sabe que essa união não pode existir sem um poder de controle”. 

Mas essa postura, para Tocqueville, era derivada de valores e costumes que a religião ajudava a preservar. A importância que Tocqueville deu ao fator religioso, especialmente o protestante, no sucesso relativo dos Estados Unidos foi enorme. Conforme resume Michael Novak em seu The Universal Hunger for Liberty, seriam basicamente cinco os aspectos mundanos da utilidade religiosa: restrição aos vícios e ganhos na paz social; ideias fixas, estáveis e gerais sobre as dinâmicas da vida; o foco na questão de igualdade perante a lei; uma nova concepção de moralidade como uma relação pessoal com Deus, e, portanto, um motivo para agir de forma correta mesmo quando ninguém está observando; e, por meio da elevada honra dedicada ao laço do matrimônio, uma regulação tranquila das regras no casamento e em casa. Uma rede de confiança inspirada pela fidelidade, alimentada dentro do lar familiar e criando filhos felizes, isso aumentaria as chances de sucesso de um governo republicano. 

Para Tocqueville, a religião vê na liberdade civil um nobre exercício das faculdades do homem. Ela vê no mundo político um campo liberado pelo Criador para os esforços do intelecto. A liberdade, por sua vez, vê na religião a companheira de suas lutas e seus triunfos. Considera a religião como salvaguarda dos costumes e os costumes como garantia das leis e de sua própria durabilidade. 

A aristocracia artificial, a nobreza por nascimento, era algo incompatível com a realidade democrática norte-americana, e Tocqueville celebrava isso. O “homem comum” tinha um valor bem superior ao que ele notava na Europa, e o ceticismo para com a classe governante era um antídoto contra tiranias. Tocqueville certamente demonstraria preocupação com a “tirania dos especialistas” na era moderna, com a arrogância dos “homens da ciência” que desejam agir como “engenheiros sociais”. Ele constatou: “O império moral da maioria se baseia na ideia de que há mais esclarecimento e sabedoria em muitos homens reunidos do que em um só, mais sabedoria no número do que na escolha dos legisladores. Esta é a teoria da igualdade aplicada ao intelecto”. 

O que fez da América uma grande potência livre vem sendo abandonado faz tempo, em especial pela esquerda democrata. Obama, em seus discursos, diminuía a importância do empreendedor na criação de riqueza, apelando para um coletivismo incompatível com a meritocracia individual. A tentativa de apagar o passado e rejeitar as tradições herdadas é outra postura antagônica àquilo que Tocqueville enxergava como crucial para a manutenção do tecido social. O desprezo pelo cristianismo, tão comum em meios “progressistas”, representa um perigoso afastamento dos pilares norte-americanos. 

Em suma, seria ótimo se os democratas realmente desejassem maior união. Mas para tanto seria necessário abandonar boa parte da retórica atual, eivada de um sentimento de arrogância elitista e ressentimento tóxico contra os “deploráveis”. Os democratas teriam também de depositar maior confiança no cidadão, no indivíduo, e menos no papel estatal como locomotiva do progresso e da “justiça social”. Tais crenças parecem bem mais próximas da mentalidade francesa aristocrática dos tempos de Tocqueville do que com aquilo que fez da América um caso excepcional de sucesso. Os democratas precisam resgatar Tocqueville se querem mesmo resgatar a América! 

Título e Texto: Rodrigo Constantino, revista Oeste, nº 35, 20-11-2020

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