segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A normalização do PS

Com Sócrates, o PS normalizou o abuso do poder, com António Costa o pior governo que já tivemos. Agora o PS normaliza o espantalho do Chega para que não se pergunte: o que falhou em Portugal?

Helena Matos 

Esta semana Fernando Medina admitiu a ilegalização do Chega. Para a semana outro alguém se chegará à frente com uma proposta ainda mais radical. Tem de ser, não é? O país-palco montado pelo PS está a desmoronar-se à frente dos nossos olhos. E não, não é apenas por culpa do COVID. Ou nem sequer é por culpa do COVID, pois a pandemia, tal como aconteceu com os incêndios em 2017, apenas expôs a mediocridade que, sob a capa da propaganda, se instalou no nosso quotidiano: muito antes sequer de se ouvir falar de COVID, em vários hospitais as chefias demitiam-se e as urgências, algumas delas pediátricas, fechavam porque o SNS não conseguia contratar médicos. 

O espantalho da normalização do Chega faz falta para que não contemplemos o que o PS normalizou. O poder socialista normalizou em Portugal a clivagem entre o que se faz e o que se diz; entre o que se anuncia e o que se concretiza; entre o que se defende e o que se realiza. 

Mas sob o manto da propaganda a vida fica cada vez mais dura. Bruta, até. Não por acaso os concursos de admissão à PSP vão ficando de tal forma vazios que se prevê alterar os critérios de admissão. Ou seja, torná-los mais fáceis. Desautorizados pelos superiores, os agentes da PSP estão transformados em sacos de pancada nas ruas. Mas falar disso pode parecer mal aos senhores Medinas deste mundo, não é? 

Anunciam-se programas de milhões de apoio aos afetados pelas medidas de confinamento, mas depois, ao lerem-se as entrelinhas, percebe-se, como aconteceu aos donos dos restaurantes, que pouco ou nada receberão, pois, as contas ao prejuízo são feitas em função dos valores de 2020 e não de 2019. (Quantas manifestações com cartazes “Governo assassino” já se teriam feito desde março de 2020 caso o executivo fosse de direita? Assim estamos diante de uma fatalidade que acontece por nossa culpa.) 

Somos convocados para nos indignarmos com a violência policial nos EUA de Trump ou no Brasil de Bolsonaro, mas nunca responsabilizamos qualquer um dos nossos governantes pela tortura e morte do cidadão ucraniano Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa. 

Rasgam-se as vestes pelo Estado Social, mas o que temos é um estado fiscal. (Querem comparar a capacidade de tratar e recolher dados do ministério da Saúde com o das Finanças?) 

Dizem-nos para cumprir as determinações das autoridades, mas as autoridades desdizem-se sistematicamente: a 7 de novembro, as autoridades garantiam que 68 por cento dos contágios de COVID aconteciam em meio familiar. A 20 de Novembro os 68 por cento passaram a 10. Dúvidas? Claro que não. Críticas? Ainda menos. As únicas autoridades que se podem criticar são as da Suécia. 

Revivemos com horror a passividade dos cidadãos perante os abusos perpetrados em ditaduras passadas mas vivemos com distanciamento a presente tomada desse mesmo estado pela nomenklatura socialista: Vítor Caldeira o presidente do Tribunal de Contas não foi reconduzido; Ana Carla Mendes de Almeida ficou em primeiro lugar no concurso para o cargo de Procurador de Portugal na Europa mas  a classificação de nada lhe serviu pois o Governo optou pelo segundo classificado; da PGR foi afastada a antiga Procuradora-Geral, Joana Marques Vidal, já a sua sucessora parece mais apostada em conseguir criar mecanismos de controlo político da investigação criminal do que em promover essas investigações. 

Organizam-se sessões de flagelamento mediático porque se questionou o número de beneficiários de RSI nos Açores, mas não se denunciam as políticas de promoção da subsidiodependência por parte dos socialistas naquela região autônoma. 

Dizem-nos que somos todos iguais e descobrimos que alguns são mais iguais que outros. Quais? Aqueles de quem o PS depende. Para aprovar o orçamento, por exemplo. 

Longe vão os tempos do mantra da descrispação, do anúncio dos milagres e em que o primeiro-ministro encerrava os assuntos declarando-se ou não surpreendido: “Costa surpreendido” ou “Costa não ficaria surpreendido” tornaram-se tópicos da informação nacional. Só este ano o primeiro-ministro já nos informou de coisas tão díspares quanto “não está surpreendido com a aprovação da eutanásia” (21 de fevereiro), que “ninguém vai ficar surpreendido” com a passagem de Centeno para o Banco de Portugal (25 de junho); que está “muito surpreendido” com transmissão comunitária do vírus  (9 de novembro) ou que  ficaria “muito surpreendido” com o Natal sem estado de emergência (21 de novembro). 

Mas agora a surpresa pode ser outra. Antes que o país se surpreenda e pergunte, por exemplo, como foi possível não nos termos preparado melhor para a segunda vaga — a sério que o reforço das equipas de rastreadores está a ser feito agora em novembro? — há que criar um inimigo público. O Chega cumpre esse papel na perfeição. 

Os socialistas precisam que nos indignemos com o que definem como normalização do Chega para que ninguém os confronte com aquilo que eles normalizaram: os abusos do poder de Sócrates. A mediocridade dos governos de António Costa. Agora o PS precisa de normalizar o espantalho do Chega para que não se lhes pergunte: como foi possível prometer tanto e realizar tão pouco? 

Título e Texto: Helena Matos, Observador, 22-11-2020

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