domingo, 3 de janeiro de 2021

O “plano” de vacinação, o plano da propaganda e o plano inclinado

O país desceu a tais abismos de descaramento que se torna muito difícil distingui-lo de uma rábula de revista. A única diferença é que o público da revista tinha noção das circunstâncias e ria

Alberto Gonçalves

O “Diário de Notícias”, que passou os últimos tempos escondido num “site” que ninguém visitava, ressuscitou em papel. Fazia falta. Manifestamente, cinco estações televisivas, duas ou três rádios, duas ou três revistas e diversos diários e semanários não chegavam para exaltar a competência e a integridade do governo, cujas proezas exigem cobertura vasta, ou pelo menos proporcional aos subsídios distribuídos.

Logo na primeira edição da sua nova encarnação, o “DN” promete. E cumpre. Artigos de “opinião” de atuais ministros e ex-ministros. Artigos de “opinião” de admiradores dos atuais ministros e ex-ministros. Uma fascinante entrevista com a comissária europeia Elisa Ferreira. E, claro, uma sondagem que mostra o apoio dos portugueses à ação governamental contra a Covid: “nota positiva”, dizia a manchete, com a palavra “positiva” aumentada até quase transbordar da página. O dr. Costa publicou logo um “tweet” a confessar a “grande felicidade” que sentiu ao segurar o fresquíssimo “DN”. E o “DN” publicou uma notícia a dar conta do “tweet” do dr. Costa.

Parece anedota. E é. O país desceu a tais abismos de descaramento que se torna muito difícil distingui-lo de uma rábula de revista. A única diferença é que o público da revista tinha noção das circunstâncias e ria. Hoje, os portugueses não notam que estão perante um espetáculo de burlesco, e levam o espetáculo a sério. E levam a sério os protagonistas do espetáculo. E levam a sério o “DN”. E respondem a sério às sondagens do “DN”. E, incrível e maravilhosamente, gostam a sério do que lhes calhou em sorte. Daqui a três semanas, uma parte significativa do eleitorado reelegerá o prof. Marcelo com larga folga. Se amanhã houvesse “legislativas”, o PS ganharia sem problemas. Depois de tudo e apesar de tudo. O desempenho do prof. Marcelo e do dr. Costa nestes cinco anos devia levá-los a perder em popularidade para “Tino” de Rans, Gungunhana ou um edredão às riscas. Misteriosamente, não levou, e a supressão da oposição, dos “media” e, em suma, do escrutínio “formal” não esgota as explicações.

Para lembrar um exemplo recente, nenhuma pessoa saudável carece de ajuda partidária ou jornalística para perceber o carácer repulsivo e insultuoso da encenação alusiva às vacinas. Que eu saiba, não houve lugar no Ocidente em que membros do governo se plantassem na chegada da primeira remessa e, em seguida, na administração da primeira dose. Exceto por cá, escusado dizer, onde a ministra da Saúde e uns penduricalhos anexos prendaram ambos os “momentos históricos” com a sua inestimável, e assaz útil, presença, para cúmulo sem particular “distanciamento social” ou moral. Em países comuns, o processo de vacinação requer organização, rapidez e eficácia. Aqui, basta a dona Marta, umas câmaras de tv e uma audiência de pasmados incapazes de separar o que é informação do que é propaganda e uma radical ausência de vergonha.

Em 2021, os pasmados terão 365 dias para continuar a ignorar a propaganda, as negociatas, as restrições, as humilhações, as mentiras, as fraudes, as mortes por Covid, as mortes pela “estratégia” de “combate” à Covid, as falências, o empobrecimento e a firmeza com que Portugal caminha para os fundilhos dos fundilhos da Europa, material e simbolicamente. Porém, se eu fosse a eles, aos pasmados, aproveitaria o ano para ignorar uma questão em particular: o sucesso do nosso “plano” de vacinação. A coisa já começou bem, com as aparições da dona Marta, a facilidade com que toda a gente descobriu o local “secreto” de armazenamento das vacinas, o debate entre PSP e GNR sobre a força habilitada para escoltar uns frasquinhos e a mensagem no telemóvel a esclarecer-nos de que seremos vacinados na 3ª fase que é logo após a 2ª. Daqui em diante, a coisa irá melhorar.

Por mim, tenciono ocupar 7% do meu ócio a visitar a página ourworldindata.org/covid-vaccinations. É rica em dados e será bilionária a exibir, com números, factos e tabelas, a dimensão do atraso pátrio e a dimensão da burla perpetrada pelos senhores que mandam nisto. Até ver, Portugal vacinou 16 mil cidadãos, contra perto de 3 milhões nos EUA e um milhão no Reino Unido. Qualitativamente, temos 0,16% da população vacinada, contra 0,84% nos EUA e 1,47% no Reino Unido – e 11,55% em Israel. Por enquanto, nada de grave ou especial. Mas é um aperitivo. E um forte indício que, à medida que 2021 avança, avançará, também neste critério, o fosso que nos separa da civilização, e ficarão ainda mais nítidas a inaptidão e a desonestidade dos caipiras que nos pastoreiam. Como o critério é claro e a página permite comparações imediatas, prevejo diversão prolongada. E depressão profunda. Ou seja, a minha decisão de Ano Novo é contemplar, através de vacinas e percentagens, o desastre para que nos lançaram, nas vacinas, nas percentagens e no resto.

Infelizmente – ou felizmente, sei lá! – não serei acompanhado por boa parte das vítimas do desastre, leia-se os pasmados, demasiado ocupados a fugir da realidade, a acompanhar as conferências da DGS, a cumprir as ordens que perpassam pelo cocuruto do dr. Costa, a votar no prof. Marcelo, a aplaudir sucessivos estados de emergência, a ser tratados como animais e a ler no “DN” acerca destes delírios e outros evangelhos do poder vigente. Estou a brincar: nem os pasmados leem o “DN”.

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 2-1-2021

6 comentários:

  1. Sempre Mais do MESMO3 de janeiro de 2021 11:00

    ILUSÃO AUTOILUSÓRIA - 02-01-2021
    --
    Os torcedores apenas se irmanam na algazarra em mútuo apoio como se as glórias do time fossem glórias suas. As virtudes oferecidas devem ser fáceis de emular para facilmente manipular frustrados consigo ante o que ambicionam e do que são capazes: qto mais frustrado, mais vaidoso e ansioso pela opinião alheia.

    A vaidade inconformada tenta subjugar a realidade através da histeria verborrágica e de ostentações visuais alucinadas. Assim desejam doentiamente que as APARÊNCIAS forjadas substituam a ESSÊNCIA da realidade, transmutando esse desejo incontrolável em crença.

    Como as APARÊNCIAS são captadas pelos 5 sentidos (audição, visão, tato, paladar e olfato) o humano imagina, deseja ou crê que impressionando os sentidos consegue fraudar a realidade. Faz sentido os estelionatários revelarem uma "realidade aparente" nas propostas aos tolos ansiosos por "bons negócios". O criminoso também tenta inocentar-se relatando sua inocência ao mentir sobre os fatos. Sim a mentira é impressionar os sentidos alheios com falsos fatos (audição/visão).

    Contudo o que chamo de SEXTO SENTIDO é exatamente o "sentido" que JULGA aquilo que é captado pelos outros 5 e conclui sobre se é APARÊNCIA ou ESSÊNCIA, as impressões captadas.

    Assim, pelo sexto sentido, descobre-se as ilusões de ótica, os golpes dos estelionatários, a culpa e dolo dos criminosos e as ilusões em geral. Afinal, a ilusão somente é apreendida pelos 5 sentidos, devendo ser analisada pelo sexto sentido.

    Um elefante bramindo no lavabo, no vigésimo andar, não pode ser um elefante real. Quem julga isso é a inteligência, o sexto sentido, que logo conclui ser a reprodução de uma gravação do bramido. A contradição elimina a possibilidade de realidade. Afinal a VERDADE É UMA SÓ.

    Estranhamente e infelizmente na realidade "A CONTRADIÇÃO MOVE O MUNDO", exatamente porque o DESEJO IMODERADO se TRANSFORMA EM CRENÇA e, esta, nada julga.
    ...por isso CRENÇA NÃO É CONHECIMENTO.

    "A crença não faz o fato. Não basta crer para que exista; é preciso descobrir para crer; é preciso existir para ser descoberto, é preciso ser descoberto para que se saiba, é preciso saber para conseguir ... É preciso pensar e julgar!"

    ...mas a crença é tão mais confortável do que o conhecimento que é mais valorizada do que este. Afinal com um sexto sentido deficiente prefere-se as aparências confortáveis e o que com elas se consegue são apenas mais aparências que acabam, também, por serem negadas quando refletem a essência, ou realidade.

    O ódio à realidade move o mundo!

    Quanto mais frustrado com a realidade, mais o indivíduo a nega e mais fabrica aparências convenientes para transmitir aos demais. Afinal convencer os outros pode ser um bom argumento para tentar convencer a si mesmo, se não apenas enganar aos demais em busca de APROVAÇÃO no BANDO. ...Afinal o animal fraco precisa pertencer a um grupo. Então ser bem aceito é desejo instintivo. Logo, cabe iludir o grupo igualmente ansioso por ilusão confortável: algo no mesmo sentido das "profecias autorealizáveis" de que Popper falou. Algo como "ilusão autoilusória".

    ResponderExcluir
  2. EU NÃO ENTENDI O COMENTÁRIO DO "Sempre Mais do MESMO" , É CONTRA,A FAVOR OU MUITO ANTES PELO CONTRÁRIO?
    EU DE MINHA PARTE SOU FAVORÁVEL A OPÇÃO DA CIÊNCIA QUE RECOMENDA VACINAR-SE
    ASSIM QUE POSSÍVEL.
    NA PIOR DAS HIPÓTESES PARA TER MINHA CONSCIÊNCIA TRANQUILA, TENTAREI PRESERVAR MINHA VIDA,E PRINCIPALMENTE RESPEITAR AS VIDAS DAS PESSOAS AO MEU REDOR.
    SE A VACINA NÃO FOR SOLUÇÃO EFICIENTE, MORREREMOS TODOS E TANTO FAZ VACINAR OU NÃO, ENTÃO MELHOR SER PRÓ-ATIVO!

    ResponderExcluir
  3. Sempre Mais do MESMO4 de janeiro de 2021 11:48

    Pelo que vejo não me surpreendo minimamente por você não ter entendido nada.
    Pelo que vejo eu me surpreenderia se você tivesse entendido alguma coisa do que que comentei. Mesmo que fosse apenas o contexto ou assunto.
    ...quer dizer que sem vacina todos morrerão devido o virus? ...rsrs ...nem ouso expor observações em contrário. É evidentemente desnecessário.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. PERFEITO, ENTENDIDO ,QUANDO ME FALTAM ARGUMENTOS ,EU FAÇO O MESMO!

      Excluir
  4. Enquanto isso, septuagenário ainda não tomou a vacina antigripal, adiada três vezes pelo Centro de Saúde. Sem data prevista para a aplicação.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vacina contra a gripe agendada para amanhã, quarta-feira, 6 de janeiro de 2021.

      Excluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-