quinta-feira, 4 de março de 2021

Luiz Carlos Molion: “O alarmismo sobre a Amazônia não tem base científica”

A visão catastrofista sobre a destruição da Amazônia e o seu suposto papel na dinâmica do clima global não têm fundamento científico, e não passam de instrumentos neocolonialistas, com o objetivo de preservar a região como uma vasta reserva de recursos naturais para usufruto futuro dos países desenvolvidos. A denúncia é do meteorologista e climatologista Luiz Carlos Baldicero Molion [foto], que, há mais de quatro décadas, estuda as mudanças climáticas e a Amazônia, sendo um duro crítico do alarmismo criado em torno das mudanças climáticas e das acusações de que o Brasil estaria sendo negligente em preservar a região.

Foto: PRC

Com formação em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Molion detém um doutorado em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin (EUA) e um pós-doutorado em Hidrologia de Florestas pelo Instituto de Hidrologia de Wallingford (Reino Unido), sendo aposentado como pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e professor associado de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Nos últimos anos, tem se dedicado a proferir palestras sobre tais assuntos em todo o País. Em um raro intervalo de descanso entre elas, concedeu ao Alerta Científico e Ambiental a entrevista a seguir. 

Alerta C&A – O Sr. estuda os fenômenos climáticos e as suas interações com os biomas brasileiros, com ênfase na Amazônia, há mais de três décadas. Em todo esse período, temos assistido a uma escalada de pressões políticas internacionais contra o Brasil, infelizmente, com muito apoio interno, baseadas na premissa de que o País estaria proporcionando uma devastação do bioma, o que, de acordo com esta visão, acarretaria um grande impacto no clima global. Estes argumentos têm procedência? 

Luiz Carlos Molion – Não. O Bioma Amazônia constitui 5,5 milhões de km2, enquanto a superfície do planeta Terra é de 510 milhões de km2 e seus oceanos ocupam 361 milhões de km2 dessa superfície. Portanto, o Bioma Amazônia corresponde a 1% da superfície da Terra e a 1,5% de seus oceanos. Em princípio, o desmatamento total da Amazônia – que é praticamente impossível de ocorrer – não afetaria o clima global, por ser a região de pequenas proporções em face da área oceânica (71%), que é um dos principais controladores do clima global. Essas pressões são baseadas em resultados obtidos por Modelos de Clima Global (MCG), que são falhos, não conseguem reproduzir o clima atual e, particularmente, o ciclo hidrológico, que é fundamental para a existência do Bioma Amazônia. Existe um debate acirrado na comunidade científica quanto à fidelidade dos resultados dos MCG nos testes de sensibilidade e quanto à sua utilidade em prognosticar climas futuros. Portanto, os resultados de simulação do desmatamento da Amazônia pelos MCG são altamente questionáveis e não merecem confiança. Uma curiosidade, apenas. Em geral, os melhores MCG têm um total de cerca de 64.000 pontos de grade representando a superfície do planeta, dos quais apenas cerca de 500  pontos (0,8%) estão na Amazônia. É intrigante, sob o ponto de vista físico, que apenas 0,8% dos pontos de grade tenham influência notória nas temperaturas e a chuvas globais resultantes das simulações dos MCG. 

ACA – Grandes potências, como os EUA e a França, parecem dispostas a colocar a Amazônia no centro da sua agenda diplomática, política e econômica com o Brasil. O presidente Emmanuel Macron acaba de enviar à União Europeia uma lista de requisitos ambientais para a concretização do acordo comercial com o Mercosul, cujos itens equivalem a um autêntico ultimato. O presidente Joe Biden já anunciou a intenção de pressionar fortemente o Brasil quanto à agenda internacional de “proteção” da Amazônia, de acordo com os critérios estabelecidos pelos interesses políticos e econômicos por detrás dela.  Ao seu ver, como o País deveria responder a essas pressões? 

LCM – Pragmaticamente, o Brasil já tem respondido, em parte, a essas pressões ao longo dos anos. A taxa de desmatamento anual já esteve muito mais alta no passado. De acordo com os dados do INPE/MCTI, em 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, chegou a 29.059 km2 e, a 25.396 km2 e 27.772 km2, em 2003 e 2004, respectivamente, durante o governo Luís Inácio Lula da Silva. Segundo a mesma fonte, entre 01 de agosto de 2019 e 31 de julho de 2020, a área desmatada foi de 11.088 km2. Em minha opinião, este número ainda é muito alto e se devem envidar todos os esforços para reduzi-lo ou mesmo zerá-lo. O problema é que os principais consumidores da madeira retirada ilegalmente são os próprios países desenvolvidos. São eles que deveriam tomar a iniciativa de proibir a comercialização dessa madeira. Isto é, não havendo clientes, não haverá desmatamento.

Por outro lado, esses países já não possuem mais recursos naturais e, para eles, a Amazônia, não só por sua fantástica biodiversidade, como também por sua riqueza em recursos minerais, tem sido vista como uma “reserva” para o futuro e deve ser considerada “patrimônio da humanidade”, não podendo ser desenvolvida ou administrada pelos países amazônicos, que, segundo essa visão, não teriam capacidade para preservá-la.

A meu ver, se não há evidências físicas de que o desmatamento possa provocar uma catástrofe global, a preocupação estrangeira/internacional parece não visar a conservação do meio ambiente amazônico, e sim impedir o desenvolvimento socioeconômico da região. E “acordos” como o de Paris, em 2015, que obrigam à redução das emissões de dióxido de carbono (CO2), são instrumentos tipicamente neocolonialistas, pois 80% dos países do mundo, incluído o Brasil, ainda são subdesenvolvidos.

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