terça-feira, 23 de março de 2021

[Aparecido rasga o verbo] De repente, um parque de diversões

Aparecido Raimundo de Souza 

O FÁBIO DE ABREU era tão pequeno e diminuto, tão desmedrado e franzino, igualmente apoucado e curto, que media, sem tirar, nem pôr, um metro. Nem mais, nem menos. Um metro! Nascera, em face de uma deficiência de crescimento, conhecida como nanismo. Todavia, apesar desta característica meio que irregular, o garoto seguiu a sua vida normal. 

Deslanchou para adiante, como se tudo para ele fosse a coisa mais natural do mundo. E isto não deixava de ser verdade. Apesar de ser alvo constante de gozações, de pilhérias e chacotas, não deu importância ao fato. Se superou, persistiu com veemência ferrenha e sobreviveu. Achava até engraçado, em casa, seus pais o tratarem carinhosamente de ‘nosso eterno bebezinho’.  

Lado paralelo, o que tinha o sujeito de conciso e compactado, em vista de ter nascido com o advento da estatura baixíssima, possuía, em abundância, a magnanimidade da boniteza e o encantamento airoso dos espíritos fortes e robustos.  

Se tornara um 'garoto-homem', ou 'homem-garoto' bem feito de corpo. Apesar dos braços e pernas tolhidos e impedidos de se desenvolverem, no geral, outros detalhes bastante significativos suplantaram e acabaram vencendo brilhantemente a sua desdita.  

A pele, por exemplo, se fortalecera morena e charmosa. Os cabelos, pretos e sedosos, sempre cortados à militar, davam a ele um quê de seriedade e compenetração. No rosto, os olhos calmos, envoltos por uma cor inimitável, terminavam magistralmente no remato da boca bem torneada, com a aparição de uma arcada dentária muito branca e perfeita.  

Mesmo sério, um sorriso largo e radiante se formava obstinado e permanente. Em complemento, à voz alta e bem tonalizada, trazia à memoração o apresentador de televisão, Celso Portiolli.  

Para completar, familiarizava à sua transparência e à sua compleição atlética e forte, a de uma pessoa de espírito alegre e exultante. No conjunto, engalanando mais ainda o seu visual, aspectava uma barriga tanquinho, encimada pelos ombros largos, o que lhe permitiam desenhar, numa espécie de mosaico único, um ser perfeito, e que dava lugar, mesmo norte, para os que o contemplassem, se portassem maravilhados.  

Em resumo, Fábio de Abreu poderia ser semelhançado a um príncipe dos contos de fadas dos tempos modernos, evidentemente não perdendo, em nada aos fantásticos anões da Branca de Neve. 

Sua aparência alimentava, mesmo fluxo, a libido das mulheres curiosas, notadamente acirrava a imaginação das meninas que desabrochavam para as carícias do desconhecido, tipo aquelas beldades que compunham a patotinha do belo sexo da sua sala de aula.  

Todas as recatadas, sem exceção, queriam tê-lo nos braços. A sua classe, ou melhor dizendo, a escola, em peso, fora despertada por uma febre de bisbilhoteirices mórbidas, em graus pra lá de galopantes e portanto, quase impossíveis de serem contidas.  

A ala das mais ‘avançadinhas’, queria ter com ele um encontro íntimo, evidentemente para desvendar, à quatro paredes, como seria o seu desempenho na hora de fazer tudo aquilo que o amor deixava implicitamente manifesto.  

O mais engraçado, senão hilário. Apesar dos vinte anos completos, Fábio de Abreu seguia na linhagem dos puros de coração e de alma transparente, abrandado e cálido, como as águas intocáveis de uma nascente ainda não descoberta.  

Por conta, o que mais aumentava, nas moças um impulso tresloucado, seguido de uma aspiração lúbrica, se constituia, não no seu porte físico de quase uma criança, mas o fato de ser virgem e nunca ter vivido uma experiência sexual de cabo à rabo.  

Este fato inusitado colocava, em azáfama intensa, a polvorosidade de todas as moças, não só as da sua convivência diária, em sala de aula, como incrivelmente, do resto da escola, inclusive de uma de suas professoras, a de Português, a esfuziante e tentadora Maria Clara. Para complicar a situação, o jovem 'grande-pequeno', se tornara o gênio da turma.  

Para tudo, contavam com ele. Nada seguia adiante —, fosse uma festinha ou encontro para debater uma matéria considerada difícil —, participar de trabalhos em grupo... Se ele não estivesse presente, a coisa não rolava.  

Como todo rapaz macho pra burro, o belo exemplar possuía uma paixão doentia e avassaladora pela Lulu Santinha, filha única do doutor Baromeu, por azar do garoto, o diretor da escola. Do gostar da donzela, em relação a estes sentimentos, brotava um respaldo insano e sem restrição de seu consentimento e inclinação.  

O doutor Baromeu, ao contrário dos demais pais e mães, nutria um ódio tremendamente horroroso, monstruoso e fora de propósito pelo popular mancebo. Bastava vê-lo pelos corredores, na biblioteca, no banheiro, na sala de jogos, ou no espaço da informática, a sua ira subia à cabeça de forma aterradora.  

Em companhia da sua filha, então, o doutor Baromeu pouco faltava para ter um treco e rodar a baiana. Vivia tendo pesadelos impiedosos e lancinantes. Nestes mais de cinquenta tons de cinzas-escuros, imaginava, com seus botões, uma maneira rápida e rasteira de colocar, em pauta, um sumiço permanente na criatura.  

De preferência, logicamente, que o desaparecimento do infeliz não desse com os finalmentes nos seus costados, tampouco despertassem suspeitas, que levassem à polícia ao conluio da sua  honrada figura de docente e coordenador geral de educação média e superior daquele estabelecimento de ensino.  

Daria a vida, é bem verdade, para tirar, de vez, do caminho da sua consanguínea aquele traste inconveniente. Se houvesse uma maneira sutil, sumiria com o sujeitinho metido a galã de televisão, que nem corpo de homem de verdade chegara a desenvolver, mas que, por algum motivo desconhecido para ele, deixava a galera feminina (nela incluída, claro, a sua preciosidade de apenas quinze anos), em polvorosa.  

Hora do intervalo, estavam os alunos na recreação, entre eles, Fábio e Lulu Santinha bebendo refrigerante e comendo sanduíches no amplo balcão da cantina. De repente, passos à retaguarda. Não outro, senão o sisudo e indigesto diretor, doutor Baromeu, entrando em cena. 

Lulu Santinha, apavorada, porém bastante espirituosa e de pensamento rápido, teve uma ideia espetaculosa. 
— Fabinho, entra aqui, depressa!. — gritou a moça, em desespero, ao tempo em que suspendia o seu lindo e impecável longo preto rodado, à semelhança de um balão. — Anda, gatinho. Aproveita que não tem ninguém olhando. O meu pai vem vindo. Vai... Vai... Vaiiiiii...

Fabinho, bem mandado, esperto e arisco, não esperou uma segunda ordem da sua princesa. Se abaixou, ligeiro e mergulhou, de cabeça, se escondendo, por entre as pernas da sua doce amada, acondicionando, ainda, neste imprevisto, diversos outros atrativos que lhe oferecia, às mãos beijadas, a sua doce e querida salvadora. Passou ali, o coitadinho, escondidinho, silencioso e quieto, sem dar um pio, por quase meia hora. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 23-3-2021

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