terça-feira, 16 de março de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Vizinhos

Aparecido Raimundo de Souza

BATERAM NA PORTA COM INSISTÊNCIA
. Alexandro largou o jornal que estava lendo e correu atender, pensando ser o próximo paciente que chegara mais cedo. Quando abriu, deu com uma jovem simpática com um molho de chaves na mão. Parecia apavorada.
— Pois não?
— Desculpe o incômodo. O senhor me ajudaria a abrir a minha porta? É esta aqui, na frente da sua.
— O que há com ela?
— Acho que a chave emperrou. Não gira nem para um lado nem para outro. Como pode ouvir, o telefone, lá dentro, está se esgoelando...

— Não sabia que tinha uma vizinha tão simpática porta com porta ao meu consultório.
— Agora já sabe.
— Posso experimentar?
— À vontade. A chave é esta.
— Você trabalha aqui? Claro, que pergunta mais idiota! Se não trabalhasse por que haveria de querer entrar?
Risos:
— Sou secretária do Murilo.
— Quem é o Murilo?
— Meu patrão.

— O que ele faz, exatamente?
— É contador. E o senhor?
— O senhor está no céu. Sentado à mão direita de Deus Pai, Todo Poderoso.
— A moça deu uma gargalhada que se fez ouvir por todo o corredor.
— Tá legal: o que você faz?
— Assim está bem melhor: sou dentista. Mandei fazer uma placa de acrílico, mas o rapaz está custando para me entregar.

Enquanto Alexandro respondia e cuidava de tentar rodar a chave, a linda jóvem aproveitou para dar uma esticada no pescoço e vasculhar a recepção do jovem odontólogo.
— Você não tem secretária?
— Tenho.
— E onde ela está?
— Escondida debaixo da mesa. Desculpe a brincadeira. No almoço, pelo menos assim espero!
— Espera?
— É. Daqui a meia hora vem um paciente chato. Nunca se atrasa. Se Clarinha não chegar a tempo, juro que aperto o pescoço dela até a dentadura que usa sair toda da boca, apesar dos fenômenos físicos da adesão à gengiva. Desculpe. Não me disse seu nome!
— Regina. E o seu?

— Alexandro. Por acaso você tem um lápis ai dentro da sua bolsa?
— Para que você quer um lápis?
— Para anotar seu nome, telefone, WhatsApp, e endereço. Prometo fazer uma visita e mandar mensagens de cortesias depois.
— Engraçadinho! Abra a porta e lhe darei um cartãozinho.
Alexandro encarou Regina bem dentro dos olhos. Ela, tímida, desviou o olhar.
— O lápis, por favor.
— Está sobre a minha mesa, ai dentro. Abra e lhe...
—... Quero o lápis para esfregar a ponta dele no bocal da chave.
— Esfregar a ponta do lápis no bocal da chave? É outra gracinha sua?

— Não é nenhuma gracinha. Vi num filme do James Bond, o 007.
— Deu certo?
— Pelo menos com ele funcionou.
Regina abriu a bolsa. Achou um cotoco do que um dia fora um lápis.
— Serve?
— É o que veremos a seguir.
Alexandre esfregou a ponta do grafite no local onde a chave encaixava no orifício da fechadura. Voltou a insistir para ver se o miolo girava. Na terceira tentativa, deu resultado.
— Pronto, dona Regina. Aí está. Acabei de escancarar a sua porta.

— Minha mãe vive falando que os dentistas trabalham nas bocas.
— Não entendi a piada.
— A minha mãe vive dizendo que os dentistas trabalham nas bocas, ou seja, eles deixam seus pacientes com as bocas escancaradas. E é verdade. A prova ai está. Você acabou de descerrar a boquinha escondida da minha entrada. Digo, da porta do escritório onde eu trabalho. Nem sei como agradecer.
— Eu sei...
— Como?
— Almoce comigo amanhã.
— Não posso...

— Casada?
— Enrolada.
— Enrolada? Tão nova!
— Impressão sua. Tenho vinte e quatro.
— Quantos anos você dá para mim?
— Trinta.
— Quase na mosca: trinta e dois.
— Não parece...
— Você também não aparenta o que disse ter.
— Mais?

— Se não tivesse falado, jogaria nos dezenove.
— Agradeço a sua generosidade. Fiquei, agora, literalmente de boca aberta, digo pasma.
Mais risos de ambos os lados:
— E então? Almoçamos?
— Não posso. Meu ma... Meu namorado é ciumento.
— Eu não ligo.
— Ele liga.

Tanto Alexandre insistiu que Regina acabou aquiescendo. Marcaram dia seguinte, ali mesmo no consultório dele. Pediriam duas refeições num restaurante próximo e refrigerantes.

— É só abrir a sua porta e pular para dentro da minha.
— E Clara, a sua secretária?
— Ela não tem nada a ver com a minha vida particular. Trago e recebo quem eu quero...
— Então suponho que vocês não tem um caso?
— Não. Nosso ‘caso’, como você rotulou é só profissional. E você mais o Murilo: rola em batom à bigode?
— Nada a ver. Uma perguntinha básica. Se eu for almoçar com você, ai dentro, isto não quer dizer que aceitarei... A Clarinha não ficará deslocada com a gente, quero dizer, comigo, por perto?
— Não se preocupe. Meu plano é dispensá-la mais cedo. A que horas você está livre?
— Ao meio dia. E você?

— Não tenho um horário determinado. Onze e meia, meio dia, neste horário está bom para mim. Falarei para a Clarinha sair às onze horas em ponto e tirar o resto do dia livre. Estamos combinados, então?
— Se é assim, combinados.
— Até amanhã, às doze.
— Até. Mais uma vez, obrigada pela ajuda...

Regina entrou em sua recepção e dispunha a se trancar encerrando o bate papo. Alexandre, igualmente, se posicionou prestes a sumir no seu quadrado. Lembrou do pedaço de lápis amputado que usara para desobstruir a brecha do caminho da chave. Deu, em cheio, com a Regina sorrindo para ele. Era uma alegria terna, dentro de um sorriso franco, que iluminou todo o seu rosto de homem solitário.

— Seu projeto de lápis. Quase me esquecia... Não o perca. Pode precisar outras vezes.
Regina se abriu, de novo e inteira, numa delicadeza contagiante:
— Obrigada mais uma vez por ter me ajudado. Não sei o que faria se não tivesse me prestado socorro. Beijos.
— Beijos pra você com sabor de chocolate.
— Nossa, você adivinhou... Adoro chocolates.

Em seguida, cada um com a sua felicidade exposta, se fechou em seu mundinho particular, voltando, ambos, a se ocuparem com seus afazeres.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 16-3-2021

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