terça-feira, 30 de março de 2021

[Aparecido rasga o verbo] O capim dos pastos

Aparecido Raimundo de Souza

SEU BARNABÉ
, o avô da pequena Lucinha, sentado na sua velha e surrada cadeira de balanço, brinca com a neta. Olhando bem dentro dos olhinhos da pequena criança recém chegada da rua, com a mãe, canta, sorridente:
— 'Serra, serra, serrador
Serra o papo do vovô
O vovô não tem caminha
Vai dormir lá na cozinha...
Serra, serra, serrador
Serra o papo do vovô
O vovô não tem colchão 
Vai dormir no chão...'.

Em meio a esta 'serração' toda, a lindinha, de apenas sete meses, acomodada no colo do avô, ora ia para trás, ora vinha para frente, sorrindo. Neste balanço envolvente, ensaia gritinhos ininteligíveis. Na verdade ‘gunguna’, numa demonstração de sintonia indescritível, como se a cantoria e a voz da criatura que lhe acautelava pelos bracinhos frágeis, a fizesse viajar num mundo encantado. Um mundo que só se fazia maravilhado, porque o avô recitava, numa vozinha cheia de ternura, como se segurasse, em suas mãos enrugadas um objeto raro e de valor inestimável. Neste interregno, vem da cozinha, meio que apressada, a Carminha, mãe da pequerrucha. Sem mais nem menos, começa a implicar com seu velho sogro:
— Seu Barnabé, não deveria cantar esta música para a minha filha.

O 'sogro-avô', sem entender, faz uma breve parada. Encara a nora e seu rosto, embora perfeito, naquele dado instante, fechado numa carranca medonha. Sem perder a pose da tranquilidade, pergunta:
— Por que não, Carminha? Esta pérola faz parte das canções infantis feitas para princesas iguais a esta bela e simpática mocinha...
Carminha vocifera, o semblante ainda mais carregado e hostil:
— Mamãe nunca cantou esta porcaria para mim...
— E como sabe? Acaso se lembra do seu tempo de colo?
— Não, claro que não. Mas tenho quase certeza que ela não me embalava com uma bobeira igual a esta. Era só o que me faltava...

Seu Barnabé finge se enfurecer com estas palavras. Dá o troco, à altura, sem perder a linha da serenidade:
— Carminha —, eu que o diga: ‘era só o que me faltava’. Saiba que no meu tempo, mamãe (que Deus a tenha) me distraia com estas e outras musiquinhas apropriadas para os recém chegados ao mundo com a idade da Lucinha. Por acaso a minha querida nora se recorda de alguma coisa mais agradável e, que no fundo, possa distrair a minha neta?
— Claro: ‘se esta rua, se esta rua fosse minha... Cai, cai, balão... Boi, boi, boi da cara preta...’.
— Nada a ver. Criei meus dois filhos e meus três netos e, agora, a Lucinha, cantando para eles 'serra, serra serrador...'.

— Pois saiba o senhor que esta música, que eu considero nojenta e imprópria, não tem nada a ver com o mundo dos infantes.
— Você, é a primeira das minhas noras que se insurge contrariamente. Olhe como a Lucinha se abre numa satisfação interativa que nem eu, com toda a minha longa experiência nas costas, saberia descrever.
Sem ligar para os reclames de Lucinha, seu Barnabé insiste na sua canção preferida para embalar a miudinha:
— 'Serra, serra, serrador,
serra o papo do vovô.
O vovô é tão legal
vai dormir lá no quintal...'.

Carminha fuzila o ancião com os olhos cheios de raiva. Grita uma série de palavras impróprias. Seu Barnabé, faz ouvidos de mercador, dissimulando não ter ouvido absolutamente nada. Segue com a sua voz paciente, como se nada tivesse acontecendo:

— 'Serra, serra, serrador
Serra o papo do vovô
O vovô não tem dinheiro
Vai dormir no galinheiro...'.
Diante do sorriso de pouco caso do vetusto, a cachopa se enfurece:
— Por favor, seu Barnabé. Que palhaçada! Me dá cá a minha filha...
— O que você tem contra o 'serra serra, serrador', do papo do vovô?

Levada por uma onda de ódio mais visível, a mãe de primeira viagem tenta justificar a sua maldade insana:
— Lembra alguém com um objeto monstruoso decapitando pessoas. Pior, trás à minha mente aquele filme asqueroso, onde um maluco, não me lembro o nome do personagem central, fazendo uso de uma máscara de pele humana, dava cabo de um punhado de inocentes. Acho, se não me falha a memória, mandou para a vala, uns trinta e poucos indivíduos...
— Bobagem, minha querida nora. Este filme, ao qual se refere, se chama “O massacre da Serra elétrica’. Remonta dos idos de 1974. Fez muito sucesso quando de seu lançamento. Para a minha querida e simpática esposa de meu filho ter uma ideia, quando apareceu, pela primeira vez na televisão, a minha bisa (que Deus também a tenha!), andava para baixo e para cima, montada num Romi-Isetta.

— Montada no quê?
— Num Romi-Isetta.
— Nunca ouvi falar...
— Realmente não é do seu tempo.
— Desculpe. Me passa a Lucinha. Está na hora de eu dar a mamadeira dela.
Sem atender ao pedido da nora chata, o velho Barnabé volta a explicar a história do exótico veículo:

— O Romi-Isetta, querida nora minha, foi o primeiro carro de passeio fabricado aqui no Brasil. Isto se deu nos idos de 1956. Acho que, pela sua idade, ainda nem estava morando na barriga da sua mãe... Tampouco saído do saco escrotal de seu pai...

O veterano pausa a explicação para compor novamente as palavras do ‘serra serra serrador’, intervalando o que começara a contar. Sua entonação melodiosa e firme, volta ao clássico, enquanto a netinha se abre, inteira, numa felicidade radiosa e próspera:

— 'Serra serra, serrador, serra o papo do vovô...' Continuando, Carminha, eu trabalhava, nesta época, como gerente numa loja da Companhia Distribuidora Brasileira Comércio e Indústria, cuja matriz ficava na Rua Marquês de Itu, 133 no centro aqui de São Paulo. E foi dessa loja que partiu no dia cinco de setembro de 1956, uma caravana composta pelos primeiros dezesseis carros de passeio produzido no país...

Faz uma breve estancada proposital. Sem deixar de se comprazer com o contentamento da doce netinha, inicia, de novo, a musiquinha que ela tanto ama:
— 'Serra serra, serrador, serra o papo do vovô...'.
De repente, interrompe e:
—... Este evento, me lembro como se fosse hoje, foi feito em etapas. Eu participei da primeira. Os dezesseis automóveis deixaram a Marquês de Itu e seguiram pela Rego Freitas, Largo do Arouche, rua do Arouche, praça da República, avenida São Luiz, viaduto Nove de julho, rua Maria Paula, avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rua Treze de Maio, até desembocar no Palácio Episcopal...

De novo, faz uma nova quebrada na cantoria e encara a nora. Ela desvia o rosto para o outro lado:
— 'Serra serra, serrador, serra o papo do vovô...'.
E retorna, ato contínuo, com a explanação:
— Nessa época, o Centro ainda era o coração e o cérebro de São Paulo. No Palácio Episcopal, na Bela Vista, o cardeal D Carlos Carmello Motta abençoou a ilustre frota, como lhe falei, dos dezesseis Romi-Isettas. Ainda tenho na memória as palavras daquele Santo Homem: ‘Invoco a proteção de Deus para esta iniciativa, que visa a dar ao Brasil mais um forte apoio para sua independência econômica’.

Tomando fôlego, regressa e emenda à velha canção dos seus tempos de menino:
— 'Serra serra, serrador, serra o papo do vovô...'.
Soltando fogo pelas ventas, Carminha, num gesto de violência, passa as mão na menina e a arranca, com certa brutalidade, dos braços de seu sogro. Lucinha começa a chorar e faz manha, querendo voltar ao aconchego do colo do assazonado. Carminha, todavia, sem ligar para os protestos da pequena, toma o rumo do corredor comprido em direção à cozinha. Grunhe, à voz alta:
— O que tem a ver esta droga de Romi não sei lá das contas com o 'serra serra, serrador?'. Velho maluco... Deveria estar num hospício. Imbecil!
Logo a seguir, sai de cena, sumindo de vez, com a menininha em pranto sentido.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. Do Sítio Shangri-La, em Pequiá, divisa do Espírito Santo com Minas Gerais. 30-3-2021

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