sexta-feira, 5 de março de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Em boca fechada... Não entra mosca...

Aparecido Raimundo de Souza

OS DOIS FUNCIONÁRIOS
da Empresa Funga&Fungador procuram registros de empregados que, por algum motivo inexplicável, sumiram da folha enviada à Receita Federal, porém, figuram ativos e recebendo seus salários. Zé Perneta e Eurico estão tendo sérias dificuldades em colocar, em dia, alguns destes papeis que devem ser entregues, imediatamente ao contador da firma, em face da fiscalização que prometeu voltar e aplicar uma multa milionária:

Zé Perneta:
— Eurico, vamos mudar a forma de buscar quem procuramos. Que tal nos enveredarmos pelos nomes das mulheres? Você se lembra, por exemplo, do nome da esposa do Besouro?
Eurico:
— Besoura, ora bolas...
Zé Perneta: 
— Fala sério, cara. Não estou falando do besouro inseto, faço mensão à fêmea do cidadão.

Eurico:
— Clotilda. 
Zé Perneta: 
— Não. Clotilda é a companheira do Sebastião Dentuço. 
Eurico: 
— Lembrei. Risolina. Risolina Dentuça.
Zé Perneta:
— Eurico, Risolina é a cara metade do Berto Cara de Leão.
Eurico:
— Negativo, Zé Perneta. Do Berto Cara de Leão é a Sofia.
Zé Perneta:
— Pelo amor de Deus, Eurico. Não brinca. Me ajuda ai...
Eurico:
— Está dando uma de Datena?

Zé Perneta: 
— Não captei a sua mensagem... 
Eurico: 
— O Datena é que fala ‘Me ajuda ai’. É o jargão dele. 
Zé Perneta: 
— É o quê? 
Eurico: 
— O jargão, seu Mané. Jargão. Uma espécie de chamativo tipo assim, marca registrada do apresentador. O Luciano, do ‘Caldeirão’, não fala ‘Loucura, loucura, loucura...?’. O Nelson Rubens, não usa o ‘Ok, Ok’”?. Voltando ao nome das senhoras consortes dos funcionários. Lembrei do nome da cônjuge do Besouro: Cáspita. 
Zé Perneta: 
— Estou sentindo que você está levando nosso papo na sacanagem. Eurico, a Cáspita é a dona do coração do Teobaldo Muribeca.

Eurico: 
— Sei disso não. Ele então trocou... 
Zé Perneta: 
— Como assim, trocou? Olha a ficha com o nome da mulher dele aqui! 
Eurico: 
— Outro dia, ele me apresentou à Silvana. Ele disse: Eurico, esta aqui é a minha princesa Silvana. 

Zé Perneta: 
— Eurico, se liga. Silvana é a filha dele. Teobaldo Muribeca tem uma filha de dezessete anos com a Cáspita. Princesa é o apelido carinhoso do rebento do casal. Também chamo a minha filhota de princesa. O que estou precisando saber é o nome da mulher do Besouro. Puxe pela memória. Alias... Lembrei... Um!... Você não saia da casa da criatura. Andou até dormindo por lá. É ou não é verdade?

Eurico: 
— Cuidado com o que você fala, Zé Perneta. As paredes têm ouvidos. Se este papo vaza, vão falar que tenho, ou tive um enrola bigode à batom com a dona Bianca. 
Zé Perneta: 
— Então é verdade o que comentam à lingua miúda, aqui dentro da fábrica. Bem que eu desconfiava! Agora tenho certeza. Você teve, ou pior, ainda deve ter, um caso com a Bianca, do Besouro. Viu como você, rapidinho, se lembrou do nome da dita cuja? Eu sabia, eu sabia... Estava embaixo dos meus olhos, o tempo todo, mas eu, burro igual um quadrúpede, me neguei a acreditar. O Besouro, cá entre nós, já é feio de natureza, ainda com um par de chifres no meio da testa... 
Eurico: 
— Zé Perneta, você pirou de vez? Bebeu água podre? Fumou um cigarrinho do demônio? Vamos cuidar do que interessa e arquivar este assunto. Olha o prazo, olha o prazo! 

Zé Perneta: 
— Não muda o rumo da prosa. A turma aqui da fábrica, principalmente a galera da produção e do empacotamento, comenta que você e a Bianca... Ou melhor, a Joaninha... Enfim vocês dois, botaram um par de cornos no Besouro. A Joaninha, hipoteticamente, seria a dama dos lábios de mel do besouro. Besouro inseto. Se estivéssemos, falando aqui, de insetos, lógico... Mas comparando.... Só comparando e associando os fatos... A Joaninha, qui, qui, qui, qui, qui... A Joaninha seria, ou melhor, a Joaninha é a Bianca... Ou, a mulher do Besouro...

Eurico: 
— Louco, maluco, pilantra, vá para os quintos. O fato de eu viver na casa do Besouro, não quer dizer que eu tenha tido, ou tenha, ainda, um caso com a mulher dele. Se você continuar com este papo furado, vou espalhar por ai —, vou espalhar não, vou provar —, quer saber? Tenho fotos e vídeos de você mais a dona Francielle, a linda e fogosa esposa, ou sei lá, amante do nosso patrão, o doutor Borba Gato... Vocês dois juntinhos, de rostinhos colados, mãozinhas dadas, etc., etc... 

Zé Perneta: 
— Mentira! 
Eurico: 
— Verdade. 
Zé Perneta: 
— Vou quebrar a sua fuça. Você e a Bianca... 
Eurico: 
— Peixe pequeno, se fosse verdade. Se fosse... Pior é você com a mulher do nosso patrão. Se o doutor Borba Gato desconfia... O Gato viraria um leão... E, como tal, na pele no felino, botaria, digo, ‘borbaria’ pra quebrar pra cima de seus costados... 

Nisto, de supetão, o inesperado. Entra, na sala, o doutor Borba Gato, patrão e diretor geral da Funga&Fungador. Borba Gato, ao ouvir aquela conversa fora de esquadro, parece extremamente nervoso e fora de si. Se transforma. Além de soltar uma série de impropérios e bater com os punhos cerrados sobre a mesa onde os rapazes trabalham, grita uma ordem brusca, que repercute, como uma bomba detonando e destruindo tudo, por todos os cantos da empresa. 
Doutor Borba Gato, branco como uma vela: 
— Os dois, agora, na minha sala... 
Zé Perneta e Eurico se veem, no mato sem cachorro. O pior, acontece depois. Ambos são mandados sumariamente embora. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 5-3-2021 

Colunas anteriores: 
Como se fosse a ‘filha pródiga’ 
Casuais e escaganifobéticas 
Patacoadas 
Marcas 
Para todas as horas 
Renúncia 
Presença 

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