domingo, 28 de março de 2021

[As danações de Carina] Quase crônica de um evangelho maltrapilho

Carina Bratt

Acho que estou ficando maluca da cabeça. Acho não, tenho certeza. Piradinha mesmo. Fora do chão. Mais cedo ou tarde, este pesadelo, bem sei, teria que acontecer. Não pensei, todavia, fosse chegar tão cedo, tão agora, pelo menos esperava fosse dar o ar da graça, ou da Maria, lá pela casa dos quarenta, ou, quem sabe, dos cinquenta... Não assim, do nada, antes de euzinha completar trinta e dois. 

Por esta razão, ou melhor, por este quadro antecipado do meu destino ‘destinado’, passei a ver as coisas por uma ótica diferente. Seria —, me questiono meio pasma, contemplativa —, meio apavorada e estatelada... Inteiramente rosa púrpura de medo e espanto, espanto e medo, tudo junto... Seria a fragilidade do óbvio me dando beliscões na consciência, para me arrancar do marasmo enfadonho, ou da estupidez na qual me acho atolada? Pode ser! 

Tudo indica e leva a crer, está mais para ser, sendo, do que não sendo, ‘decendo’. E agora, mais esta dúvida cruel... Descendo ou 'decendo?'. Ao que tudo indica, meus neurônios estão, de fato, ‘decendo’ (ou descendo), sei lá, para algum lugar. Que lugar? Assisti a um vídeo, no YouTube, certa vez, onde um tal de doutor Agripino afirmava que a estupidez, dependendo do grau com que nos atinge a massa cinzenta, às vezes costuma pregar peças. 

Prega com tanta pressa, numa velocidade estonteante, que nos faz ver as coisas de forma contrária, como um enorme carrossel cheio de crianças apavoradas girando com seus brinquedinhos às avessas do eixo central. Deve ser por conta do barulho do martelo. Se a estupidez prega, carece, obviamente, de um martelo. Pronto, passei a dizer marretadas, digo, bobeiras. Tolices e asneiras saídas de algum lugar escondido dentro de mim. 

Um lugar secreto e escuro, tão escuro e oculto, que jamais pensava existisse dentro de meu ser. Logo dentro do meu ser!... De uns dias para cá, meu juízo anda esquisito, fora de ordem, numa desordem esquizofrênica. Ontem mesmo, assim que pulei da cama e me dispus a ir até o banheiro, não conseguia abrir a porta. Enraivecida, bati tanto na infeliz, que há anos serve à entrada do meu quarto, esmurrei tanto a madeira, que o buraco da fechadura deu uma volta violenta na chave e fugiu apavorada. 

Não sei por qual razão agi assim, tresloucadamente desvairada. Depois do caso passado, percebi não precisava sair do aposento. Eu tenho um banheiro dentro do meu quarto... Em prantos, pela porta machucada e pela chave, literalmente afoguei meus medos e desconfortos no brejo e a razão, foi pro ganso. Não. Pelo amor de Deus! O que foi que eu disse? Afoguei o brejo e a vaca foi pro ganso? Vaca, ganso, ganso, vaca... 

Será que é verdade que, de papo em papo a galinha enche o grão? Marília Mendonça (não a cantora) a outra Marília, a (outra Mendonça), minha amiga dos tempos de Curitiba, me mandou uma mensagem via WhatsApp. ‘Ca, fui no sábado passado, num enterro engraçado. O morto estava mesmo morto. Porém, a certa altura, o caixão se levantou, meteu na cara do defunto a tampa do esquife e disse: "chega de conversa, toca o funeral". Não ficou ninguém no recinto, todo mundo se es"CA"fedeu, inclusive o falecido, que se assustou com ele mesmo, completamente sem vida'".

 Nem me dei ao trabalho de responder. Marília, está de gozação comigo. Aposto que deve ter lido algum conto de Meg Cabot ou Kim Harrison. Ou assistido um antigo do Hitchcock. Blá- blá-blá... Possivelmente a Covid-19 (a Covid, ou o Covid?) está deixando todo mundo sem os conhecimentos básicos da noção, sem direção, sem leme, sem copacabana, como um Titanic em busca de um novo iceberg para matar, outra vez, o Leonardo Di Caprio. 

Neste ‘todo mundo’, me incluo literalmente, sem, claro, ser literal. Literalmente, pesquisei no Aurélio, ‘é aquele que está metido ou vive embarafustado numa leiteira, perdão, liteira. De fato, me perdoem. Não estou me reconhecendo. É o desprovido da capacidade mínima da razão, me deixando ao eventual da sorte. Hoje cedo, ao me dirigir à padaria, a passos curtos do prédio onde moro, encontrei, em plena avenida, um cavalo em cima de uma carroça e, o dono, suando em bicas, puxando os dois. 

O que tinha de gente com o ‘Edson celular’ nas mãos, filmando... Numa rápida espiadela, achei que estivesse confundindo caçarolinhas com caçar rolinhas. Me belisquei três vezes, abri e fechei os olhos e, graças à Jesus Cristinho, cheguei à conclusão que, embora tudo esteja ao adverso, ou ao contraditório dos meus propósitos, devo imediatamente parar e refletir. Repensar minha vida, meus caminhos, minhas ideias, antes que tudo se treslouque, de vez, descambando para uma neurastenia anunciada. 

Prometi a mim mesma meditar naquela célebre e profunda frase do Luiz Fernando Veríssimo, num texto que saiu domingo retrasado no Zero Hora de Porto Alegre: ‘aconteça o que acontecer — escreveu ele, com muita propriedade — aconteça o que acontecer na sua vida, siga em frente. Tenha em mente o princípio básico de Dom Quixote, quando Cervantes pretendia que ele lutasse com seus moinhos de ventos “ex nihilo, nihil’”. 

Luiz Fernando tem razão. Além da razão, farta experiência. Afinal de contas, ‘o tema é perfeito para fazer um pedido veemente às estrelas, não importa se elas estão no céu, ou em Hollywood. A gente aprende, com os baques da vida, que a ordem dos fabricantes de pernas artificiais para coxos e manquitolas, não altera o posicionamento do membro amputado a ser substituído'. 

Título e Texto: Carina Bratt, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 28-3-2021 

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