segunda-feira, 29 de março de 2021

Algo está faltando

Uma projeção não é uma previsão

Theodore Dalrymple

Vamos então nos dedicar à questão de saber até onde os medos demográficos são justificáveis. Aqui, é fundamental fazer uma ressalva: uma projeção não é uma previsão. Aquilo que aconteceu no passado talvez não aconteça no futuro; aquilo que não aconteceu no passado talvez aconteça no futuro. Nenhum artifício é mais propício para gerar ansiedades e agitações do que estender indefinidamente a linha de um gráfico exponencial até alcançar uma situação impossível e catastrófica.

Se numa placa de Petri e dentro de adequados meios de crescimento fossem reproduzidas as bactérias Staphylococcus aureus, a colônia continuaria crescendo indefinidamente, até que, em pouco tempo, toda a biosfera seria constituída e tomada por essa bactéria. Todavia, é evidente, isso não acontece. O estafilococo não toma conta do planeta porque as condições necessárias para o seu crescimento exponencial não se sustentam por muito tempo.

Quando se olha para a história das recentes e fracassadas previsões apocalípticas (e parece não haver outra coisa de que o homem moderno goste mais, a julgar pelos números de livros vendidos, do que a contemplação da aniquilação de sua própria espécie), constata-se que elas fracassam justamente porque seus autores não avaliaram de forma suficiente a diferença entre projeção e previsão.

Cena de "Independence Day"

Desde que nasci, a Terra já estava destinada a congelar ou aquecer completamente, a ponto de o planeta deixar de ser habitável aos humanos; a população esteve destinada a crescer tão rapidamente que uma fome generalizada, numa escala sem precedentes, foi vista como literalmente inevitável; a disseminação da SIDA dizimaria a população do mundo sem que ninguém pudesse fazer nada a respeito; centenas de milhares, se não milhões, de conterrâneos meus estavam condenados a contrair uma variante da doença de Creutzfeld-Jakob por ter ingerido carne infectada pela doença da vaca louca.

Sem dúvida, existiram muitos outros apocalipses previstos, dos quais não tomei conhecimento, e todo mundo tem o seu favorito.

Embora certamente seja verdade que um dia um apocalipse como esse possa ocorrer, se apenas uma fração daquilo que foi previsto que aconteceria nas últimas três décadas tivesse realmente acontecido, as coisas teriam ficado muito difíceis para a raça humana. Em vez disso, no entanto, ela floresceu – a tal ponto que seu florescimento tornou-se a futura precondição para novos e inevitáveis apocalipses.

Título e Texto: Theodore Dalrymple, in “A nova síndrome de Vichy” (É Realizações Editora, agosto de 2016) páginas 31 e 32.
Digitação: JP, 29-3-2021

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