quarta-feira, 27 de abril de 2022

Crianças de outrora e tirania digital

Paulo Henrique Américo de Araújo

Lá pelos fins do século XIX, o pintor francês Charles Bertrand d’Entraygues fez fama internacional com telas figurando quase sempre o mesmo motivo: crianças. Mesmo o observador comum fica encantado ao se deparar com esses quadros repletos de singeleza, doçura e inocência. Vemos aí os pequeninos em atitudes das mais corriqueiras. Nos seus jogos, brincam com bolinhas de gude, piões, bastões, cavalinhos de madeira.

Por outro lado — e aqui vem algo de paradoxal — o artista francês frequentemente pinta coroinhas, isto é, ajudantes de missas, vestidos enquanto tais, fazendo seus jogos e inocentes divertimentos. O contraste é digno de apreço: meninos com batinas vermelhas, solidéus, peregrinetas, sobrepelizes, todo o aparato próprio a um coroinha dos tempos antigos… e assim são representados pelo pintor: brincando, jogando, rindo!

Num dos quadros mais expressivos, os coroinhas se encontram diante do portal de uma igreja. Tudo indica que a missa apenas se encerrou. Dois dos meninos comandam o divertimento, atraindo a atenção dos demais. Eles tentam de todas as formas fazer com que o cachorrinho apático se anime a fazer malabarismos, saltando através de um círculo. As fisionomias expressam alegria própria de crianças inocentes. Além disso, há nos meninos qualquer coisa de dignidade, de elevação, que transparece, sobretudo nos trajes. 

Note-se a postura do rapazinho que aparenta ser o mais velho do grupo. Vemos seu corpo ereto, a batina rubra e a sobrepeliz branca. Pés juntos, braços estendidos, rosto sorridente. Há nele certa harmonia entre o frescor da inocência e a gravidade de alguém que já assumiu responsabilidades na vida. Quase um cardeal em miniatura, diríamos.

Diante dessa cena, convido o leitor a fazer uma digressão. Sabemos que Nosso Senhor Jesus Cristo um dia foi criança. Poderíamos imaginar o Menino Jesus nessa mesma atitude do “coroinha-cardeal” da pintura? A resposta não é fácil. Alguém dirá que o Divino Infante demonstrar-se-ia mais grave, mais sério. Talvez. Não sei responder. Mas sei que se um artista desejasse pintar o Menino Jesus encantador e digno, encontraria uma boa inspiração nesse coroinha.

Proponho outra digressão. O Divino Salvador, já na fase de sua vida pública, se aproxima e vê a cena dos coroinhas brincando. Diante desses meninos, Jesus poderia dizer aquela sua famosa frase: “Vinde a mim os pequeninos”? Opino que sim. Nada na alegria inocente desses coroinhas desmerece a ternura de Nosso Senhor, que deseja atrair para Si os pequenos inocentes, os humildes.

Deixo agora os ambientes amenos e cândidos representados pelo pintor francês no fim do século XIX e volto — com tristeza — aos nossos dias. Em que atitude comumente nós vemos as crianças de hoje? Instintivamente, um quadro de todo diverso se apresenta a nós: meninos e meninas mergulhados nas telas brilhantes de seus smartphones! Vidradas, focadas e conectadas num mundo cheio de sons, cores e imagens frenéticas.

Procuremos aí a doçura e a inocência representadas pelo pintor Charles Bertrand d’Entraygues e não as encontraremos. A vida conectada provocou devastações inegáveis no comportamento infantil. Nossas crianças são irritadiças, nervosas, depressivas. Não tenho intenção de demonstrar essa afirmação aqui, apenas cito trecho do artigo escrito por Maria Clara Vieira, em 25 de setembro p.p., publicado na “Gazeta do Povo”: 

“Não é difícil encontrar livros, estudos e reportagens que retratam os jovens nascidos a partir da segunda metade da década de 1990, a ‘geração Z’, sobretudo no Ocidente. Solitários, engajados com causas progressistas e vítimas das maiores taxas de depressão e ansiedade da História — principalmente graças aos hábitos digitais convertidos em vícios — este público já representa cerca de 30% da população mundial e é alvo de pesquisas substanciais, sobretudo nos Estados Unidos.”2

Alguém poderá objetar que nem todas as crianças atuais levam uma vida “conectada”, diante dos smartphones e computadores. Muitas delas agem como as crianças sempre agiram: brincam, jogam, alegram-se, longe dos aparelhos eletrônicos. 

Não nego que haja crianças afastadas das telinhas. Também não nego a possibilidade de alguém, jovem ou adulto, usar smartphones com critério e temperança. Mas qualquer observador mediano há de reconhecer que tal não é a tendência geral. A maioria das pessoas, sobretudo as crianças, se já não caiu na tirania digital, ao menos, está caminhando para lá, inelutavelmente.

Considerando esta lamentável realidade, façamos outra divagação. Acima, propus o “coroinha-cardeal” como uma imagem aproximada de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua infância. Pergunto agora se o leitor conseguiria representar o Menino Jesus na atitude das crianças “superconectadas” do século XXI. Apenas um pintor imbuído das diatribes da arte moderna poderia retratar tal quadro.

Mais. Figuramos acima Jesus naturalmente chamando a Si os coroinhas que brincam diante da igreja. Ele os chama porque são pequenos inocentes. Alguém poderia imaginar o Divino Salvador se deparando com as crianças modernas e dizendo: “Vinde a mim, vós, meninos vidrados em smartphones”? Podemos afirmar com segurança que a infância da era digital produz inocência, singeleza, doçura?

Todos os pais e mães verdadeiramente católicos têm obrigação de preservar seus filhos dos males da vida “superconectada”. Que a Santa Mãe do Menino Jesus os ajude nesse sentido.

Nota 2:

Como a China está construindo uma geração na contramão do Ocidente: A articulista tece comentários ao livro: “iGen – Porque as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a vida adulta”, da psicóloga Jean Twenge.

Título, Imagens e Texto: Paulo Henrique Américo de Araújo, ABIM, 27-4-2022

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