sexta-feira, 22 de abril de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Por quem os sinos nunca deixaram de dobrar?!

Aparecido Raimundo de Souza 

EFETIVAMENTE, POR NÓS. Faz muito tempo,  eu diria, sem medo de errar, faz muito tempo, que a coisa vem de remotos espaços que eu consideraria límbicos. Apesar desses abruptos extensos cercados de densas lacunares, você nunca deixou de morar nos meus sonhos. Desde pequena, você povoa meu universo de quimeras e devaneios. É como se a vida toda eu já soubesse da sua existência, sem você sequer existir dentro de mim. Junto com a minha vida, você veio e se concretizou como um presente caído do céu. 

Uma prenda, eu diria sem medo de errar, um brinde de cunho valoroso com o qual eu sonhei à vida toda e nunca me chegou, de verdade, às mãos. O meu querer, o meu desejar, a minha aflição foi tão forte, tão intensa e imensa, que você acabou se materializando e caindo diretamente no meu caminho. Hoje, anos depois, que ironia! Somos adultos, temos vida própria, vivemos na mesma avenida, e, igual bairro... compramos no mesmo supermercado e quando temos alguma indisposição, a farmácia, logo ali na esquina, nos recebe de portas abertas. 

Lado paralelo, apesar de morarmos no mesmo prédio, dividirmos a mesma portaria, vizinhos, cachorros, gatos, faxineiros, porteiros, elevadores, e, quando falta luz, as cansativas escadas que nos levam ou nos trazem do topo, e nos permitem descermos ou subirmos usando os desconfortos dos mesmos degraus e corrimãos. Só o que não coincidia era o andar. Uma gota no oceano, se visto pela lógica do espanto anunciado. Estou no décimo oitavo e você no décimo quinto. 

Apesar desse pequeno deslize do destino, tivemos sorte. Numa dessas idas e vindas, nos esbarramos no hall de entrada. Você vinha cheia de sacolas de supermercado —, eu as mãos entulhadas de livros. A força da sua emoção, quando nos reencontramos, ficou marcada. Deveras! Foi tão forte e densa a alegria, magnânimo e profundo o encantamento, enfim, tão robusto e inexplicável, que o susto que nos surpresou, caiu pelo chão, ao nosso redor, como o doce enlevo que nos brindou. 

Aproveitando a deixa, e fazendo o caminho inverso, incendiando os recônditos das nossas almas de uma maneira quase inexplicável, o “Acaso”. Por esse “Acaso”, os sinos nunca deixaram de reverberarem, incansáveis, em busca do nosso amor apartado. Nesse breve lapso, voltei na esteira dos vinte e cinco. Você e eu, cada um acondicionado dentro de um desses carrinhos de bate-bate, à época dos idos em que cursávamos a mesma faculdade e fugíamos das aulas chatas para comermos pipocas e tomarmos refrigerantes no parque que chegara recente à cidade. 

Lembro que você ao me ver no saguão da porta do edifício, se abriu como mala velha, se agigantou num sorriso largo, se faceirou, angelical e, ao mesmo tempo tão adulta, tão mulher... que no piscar de olhos seguinte ao reencontro, me flagrei ressuscitando pensamentos pretéritos e os colocando no ápice da sua magnificência. Você me superou. Foi além das expectativas. Se fez tão linda e carente, frágil e dócil que por breves quimeras fantasiosas, imaginei, em delírio, tivesse saído do plano terrestre e ido parar num planeta paralelo onde as eternidades se fazem plenas e inatacáveis. 

Sua voz, ao me reconhecer —, cedeu vez a um abalado grito clamoroso de acordar ilusões, e, acredite, todo meu ser se derramou auspicioso acordando em festa de susto e espanto. Me vi remoçado, como se saído de uma academia de ginastica, os movimentos obtidos nos aparelhos, me devolvendo a flexibilidade de antes, tipo aquela força hercúlea de retorno, se engajando ao espírito e não só a ele, ao corpo inteiro, como uma febre de quarenta graus. Num segundo rasteiro perdi a morbidez do medo, como um nadador que se atirou na água depois de se esbambear hesitante por breves momentos diante de um mergulho às escuras, apesar do pulo previamente armado. 

Com você de volta ao meu universo, desde esse então, cada espaço meu se encheu de sua alacridade. Cada olhar, agora, é como se nascesse no meu “escondido”, um querer de júbilo etéreo. Mesmo tom, cada “mirada” sua, me permite perceber nitidamente um punhado de estrelas fulgurantes se revesando em pleno sol posto e transformando as flores murchas do meu ontem esquecido, num imenso jardim repaginando às nossas afeições imorredouras. 

No vestíbulo do nosso prédio, desde aquele dia em que nos reencontramos, que nos reaproximamos, que reassumimos as almas apartadas, a partir do sublime minuto em que reatamos o elo que estava disperso, esquecido, quieto, adormecido e, mais que isso, no exato ensejo em que abrimos a passagem secreta para os desvãos possíveis, algo anormal se fez imperioso. Um milagre, eu diria, se condensou em formosuras. Às sendas não acontecidas, os vales e as dimensões não percorridas... voltaram do nada, regressaram a todo vapor do agora. 

Literalmente fomos atrás, saímos juntos, de mãos atadas, em busca do nosso amor. Tudo em derredor criou beleza e cor. As manhãs escuras, enfloraram engrinaldadas. Virou pura magia o nosso anfêmero. Não somos mais velhas lembranças adormecidas, figuras de filmes antigos, personagens de nossas dores e tristezas. Deixamos lá fora, na calçada, as fotografias amarelas, os papéis pálidos no palco onde nosso romance se tornou uma peça de final feliz. E o vento levou embora. Para bem longe, no distante que não nos alcançará jamais. 

Bem sabemos, conhecemos a realidade que a cada porvir se apressura mais forte e pujante. Na mesma linha benigna e complacente, um não sei o que mavioso se avigorou e rejuvenesceu, rebrotou mais cálido e indestrutível dentro da nossa (ou melhor dito), dentro do acorrentado, no intrínseco daquilo que juntos, rostos colados, corpos em regozijo de transe, almas cativas ardendo em festa, corações tresloucados batendo na mesma pulsação, chamamos de ventura, bambúrrio, empolgação desmedida, e, igualmente, de indubitável jocosidade. 

Entre altos e baixos, subidas e descidas, linguas ferinas fustigando contra, pessoas a favor, outras não, chuvas e ventos, sol e escuridão... todas as intempéries, somadas a outros  inumeráveis e infindos repletados de intuitos maléficos, estamos superando, vencendo, dando a volta por cima. De todas as ciladas e insídias, saimos inteiros e vivos. Logramos viver presentemente amarrados nos laços inquebrantáveis e indescritíveis da paz. Irmanados à ela, gozamos, à dois, do magnetismo surreal e contínuo da auspiciosa e sempre presente, F E L I C I D A D E

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Salvador, na Bahia. 22-4-2022

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