sábado, 9 de novembro de 2019

[Pernoitar, comer e beber fora] Pêra-Manca, branco, 2016

Ofertada pelos sieurs JF e JFF, tive a belíssima oportunidade de saborear um branco Pêra-Manca, colheita 2016.

Em princípio, sou arredio ao vinho branco, preferindo o tinto. Mas tem uma explicação: normal e lamentavelmente quando você pede um vinho branco num restaurante, a garrafa, não tão fresquinha assim, é colocada em cima da mesa, sem mais. Ora, um minuto depois ela começa a esquentar. E vinho branco à temperatura ambiente, que mesmo em local climatizado não estará abaixo dos 20°, está muito acima da temperatura de consumo recomendada.

Aliás, não é à toa que os produtores, querendo, e muito bem, preservar e divulgar a qualidade dos seus vinhos, informam no rótulo a temperatura ideal de consumo.


Portanto, evitando assassinato de reputação, meus 32 anos de Varig fizeram com que eu colocasse o Pêra num frappé.

Gente querida, o vinho é bom pra cacete! Ele preenche, sim! 

⭐⭐⭐⭐⭐⭐

Muito obrigado, JF e JFF!


Confira abaixo a matéria assinada por Pedro Garcias no jornal “Público”, do dia 30 de novembro de 2017:

O fenômeno Pêra-Manca

Pedro Garcias

Por que razão os brasileiros gostam tanto de Pêra-Manca, o icónico vinho alentejano da Fundação Eugénio de Almeida? Em Portugal e em Angola, o vinho também tem muitos apreciadores, mas a devoção que lhe dedicam no Brasil não tem paralelo.

A fama do Pêra-Manca no Brasil, só comparável à do Barca Velha e do Periquita, é um caso de estudo. Desde logo que porque se trata de um vinho com uma história muito curta. Nem pensamos nisso quando ouvimos o nome Pêra-Manca, mas a primeira colheita deste vinho (falamos do tinto, que é o mais cobiçado) é apenas de 1990. Leu bem: 1990.

Nem sequer é um clássico, como o Mouchão, por exemplo. Mas até por isso é ainda mais extraordinário o estatuto que o Pêra-Manca alcançou em tão pouco tempo. O vinho tem só 27 anos e apenas 14 colheitas no seu historial (1990, 1991, 1994, 1995, 1997, 1998, 2001, 2003, 2005, 2007, 2008, 2010, 2011 e 2013).


A qualidade do vinho não explica tudo. Em provas cegas, poderia ganhar e perder no confronto com outros vinhos do Alentejo. Mas é inegável que o Pêra-Manca é hoje visto como o Barca Velha do Alentejo. Em condições normais, esse estatuto seria do Mouchão, mas os responsáveis da Fundação Eugénio de Almeida trabalharam melhor e foram mais ambiciosos e ousados no posicionamento da marca, situando-a num patamar de preço mais elevado.

Em vinhos tranquilos, só o Barca Velha é mais caro. Em Portugal, uma garrafa de Pêra-Manca custa 200 euros (é esse o preço recomendado para a colheita que acaba de sair, de 2013). No Brasil, chega a custar mais de mil euros.

A produção normal de Pêra-Manca não ultrapassa as 30 mil garrafas. A colheita de 2013 foi a mais exígua de todas: apenas 19 mil garrafas. Cerca de um terço vai diretamente para o Brasil. O grosso é comercializado em Portugal, mas uma boa parte do vinho alocado ao mercado interno é comprado por angolanos e brasileiros. Sobretudo, por estes. Há brasileiros que pagam viagens a Portugal só com a revenda no Brasil de algumas garrafas de Pêra-Manca e Barca Velha.

(...)

O vinho da descoberta do Brasil
Uma história bem contada é meio caminho andado para vender um vinho e o Pêra-Manca tem uma boa história por trás. Os grandes vinhos do mundo estão quase todos ligados a monges. No caso do Pêra-Manca, a lenda associa este nome aos frades do Convento de Espinheiro, em Évora (hoje convertido em hotel), os quais foram donos, nos séculos XV e XVI, de vinhedos situados num lugar com muitas pedras de granito soltas que “mancavam” (oscilavam). E das “pedras mancas” surgiu o nome Pêra-Manca.

Os seus vinhos seriam muito famosos na época, ao ponto de Pedro Álvares Cabral ter levado algumas pipas (a lenda fala em tonéis!) na expedição do descobrimento do Brasil. Seria esse o vinho, partilhado com os índios, de que fala Pero Vaz de Caminha numa das suas cartas: “Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho".


Mais tarde, no século XIX – e aqui não estamos no domínio das possibilidades históricas, é factual-, a Casa Agrícola José Soares produziu durante muitos anos um vinho com o nome Pêra-Manca. Em 1920, com a morte do proprietário e após as devastações causadas pela filoxera, a casa fechou e o vinho não voltou a ser produzido. Em 1987, o herdeiro da Casa Soares, José António de Oliveira Soares, ofereceu gratuitamente a marca “Pêra-Manca” à Fundação Eugénio de Almeida, impondo apenas uma condição: o Pêra-Manca teria que ser engarrafado com o melhor vinho da fundação. E a promessa foi (e tem sido) cumprida.

Leia a íntegra da matéria aqui.

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