quinta-feira, 4 de junho de 2020

Contos loucos dos moucos (XLI) – O mar

Regressei a casa, mas não consegui ficar quieto. Saí e comecei a correr, depressa, cada vez mais depressa, os joelhos torciam-se, os calcanhares faziam tremelicar os glúteos, os braços pareciam desligados e agitavam-se como os de uma marionete.

Correr, correr e correr ainda.

O coração bombeava, na boca a saliva afogava a língua e submergia os dentes. Sentia o sangue a inchar as carótidas, a transbordar no peito, já não tinha  fôlego, pelo nariz aspirei todo o ar possível que depressa expirei como um touro.

Recomecei a correr, sentindo as mãos geladas, o rosto a ferver, fechando os olhos. Sentia que que tinha recuperado todo aquele sangue visto por terra, perdido como uma torneira com a rosca moída, sentia-o novamente no corpo.

Finalmente cheguei ao mar. Saltei sobre os rochedos, a escuridão estava empastada de neblina, nem se viam os faróis dos navios que se cruzavam no golfo.

O mar encrespava-se, algumas ondas começaram a levantar-se, pareciam não querer tocar o lodo da linha de rebentação, mas também não regressavam ao redemoinho distante do alto-mar. Permanecem imóveis no vaivém da água, resistem obstinadas numa impossível fixidez agarrando-se à sua crista de espuma. Quietas, já não sabendo onde o mar é ainda mar.


Roberto Saviano

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