quinta-feira, 4 de junho de 2020

Let's Impeach The President

Henrique Pereira dos Santos


Esta observação, bem como todo o artigo de que faz parte, corresponde bastante ao me parece que tem vindo a ser uma tendência das esquerdas modernas: negar a democracia, não na sua teoria e fundamentos, mas na prática.

Os problemas e as derrotas deixaram de ser para resolver nas eleições seguintes, os problemas e as derrotas devem ser resolvidas agora, contrapondo a legitimidade das ruas - que o mesmo é dizer, dos jornais - à legitimidade das urnas.

Não é, de maneira nenhuma, uma questão americana, apesar de ser muito visível a quantidade de impeachments e afins dos últimos anos, usados tantos pela direita (Clinton) como ainda mais frequentemente pelas esquerdas.

Frequentemente a contestação da legitimidade começa logo no dia seguinte ao das eleições, em vez da velha regra de que se as regras democráticas aplicáveis a todos, boas ou más, foram cumpridas, a legitimidade do governo está assegurada.


E quem não está de acordo, tem uma maneira simples de proceder: trabalhar para ganhar a eleição seguinte e bater os adversários nas eleições.

À medida que inimigos juramentados da democracia burguesa deixaram de ter margem para defender a superioridade da democracia popular sobre a democracia formal (para já não falar da defesa dos regimes não democráticos), passaram a contrabandear a ideia de que as regras não são justas, não são legítimas e, consequentemente, é legítimo atuar fora das regras para repor a verdadeira democracia.

Sou absolutamente insuspeito de não gostar de Neil Young - ainda não me conseguem apanhar na posição de definir o meu gosto artístico pelo alinhamento político dos artistas, a mim não me apanham a negar que José Afonso e José Mário Branco são músicos fantásticos, só porque usaram os seus dons artísticos para defender coisas que hoje me parecem indefensáveis - e acho que fez dezenas de músicas melhores que esta (que não é nada má) que me parece um excelente exemplo para ilustrar a ideia de que, no fundo, as regras democráticas e a legitimidade do exercício do poder se medem mais pelo meu juízo moral sobre as políticas e os políticos que pelo cumprimento das regras aplicáveis a todos para permitir o acesso ao poder.

 A mim não me preocupam especialmente Trump, Johnson, Le Pen, Bolsonaro (até ia acrescentar Ventura, mas convém não lhe exagerar a importância, para estar no mesmo patamar que Bolsonaro falta-lhe ganhar as eleições e para estar no mesmo patamar dos outros falta-lhe ainda muito mais), mas sim a assombrosa "transformação de qualquer pequena consciência individual em consciência legisladora do universo, dotada de imprescritíveis direitos a impor a sua vontade ao grosso da humanidade" e o apreço social de que gozam, em especial na imprensa, estas pequenas consciências individuais transformadas em imperativos éticos que todos temos de seguir, se não quisermos ser ostracizados.

Que tal deixarmo-nos de opiniões tremendistas sobre o exercício do poder nos países democráticos e concentrarmo-nos em apoiar regras básicas de decência que permitam mudar os governos sem efusão de sangue, na boa parte do mundo em que tal não é, ainda, possível?
Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 4-6-2020

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