sexta-feira, 5 de junho de 2020

Contos loucos dos moucos (XLII) – Os buracos na vitrine

Tinha passado os dedos por cima. Também tinha fechado os olhos. Fazia deslizar a ponta do indicador sobre toda a superfície. De alto a baixo. Depois, quando passava no buraco, meia unha encalhava. Fazia isto em todas as vitrines.


Por vezes, nos furos a ponta do dedo entrava totalmente, outras vezes metade. Depois aumentei a velocidade, percorria a superfície lisa de maneira desordenada como se o meu dedo fosse uma espécie de verme enlouquecido que entrava e saía dos buracos, passava por eles, perdendo a coragem sobre o vidro.

Até que a ponta do dedo foi nitidamente cortada. Continuei a arrastá-lo ao longo do vidro deixando uma auréola aquosa vermelho-púrpura. Abri os olhos. Uma dor sutil, imediata. O buraco se enchera de sangue.

Deixei de ser idiota e comecei a chupar a ferida.
Texto: Roberto Saviano

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