domingo, 14 de junho de 2020

O assassinato da história

O vandalismo contra a estátua de Winston Churchill é uma demonstração de que as democracias estão se curvando à mentira


J. R. Guzzo

Oque chama atenção nos atos de vandalismo contra a estátua de bronze de Winston Churchill que enfeita há quase 70 anos a Praça do Parlamento, no coração de Londres, não é o ataque em si. Qual seria o problema? Coisas assim fazem parte, hoje em dia, do repertório normal da militância antirracista, em favor da democracia e contra o fascismo que roda pelas ruas do mundo em manifestações em que a regra é a violência, a destruição e a agressão regular à polícia. Tudo bem: quem está interessado em fazer política desse jeito vai continuar fazendo. O perturbador, nisso tudo, é a naturalidade cada vez maior com que os condutores da sociedade, na classe política e nas centrais produtoras de pensamento, aceitam o extremismo como um elemento legítimo do debate e da ação pública de hoje. Um novo mundo está sendo criado a cada dia, e chocar-se com gestos de selvageria como esse tornou-se, positivamente, fora de moda.

É possível, no fim das contas, que a estátua de Churchill receba um trato dos técnicos do departamento de conservação de monumentos de Londres e continue onde está. Mas não será realmente uma surpresa se a imagem do herói número 1 da última Grande Guerra, que comandou mais do que qualquer outro líder mundial a luta contra o fascismo e a tirania, acabar sendo expulsa da Praça do Parlamento e banida para algum armazém da periferia — com o apoio da prefeitura de Londres, do Partido Trabalhista e, quem sabe, da família real britânica. O prefeito Sadiq Khan — pois é, o atual prefeito de Londres se chama Sadiq Khan — disse que a intenção das autoridades municipais é dar espaço “às conquistas e à diversidade de todos” e “questionar quais legados do passado devem ser comemorados”. Mau sinal para Churchill.

O problema do maior chefe de governo que a Grã-Bretanha jamais teve em sua história é ter sido, em sua época, um defensor do Império Britânico — e, em consequência, a favor do colonialismo, o que significa automaticamente a favor do racismo e da superioridade do homem branco. Tanto faz que o Império era algo perfeitamente legal e que fazia parte das obrigações de um primeiro-ministro defender sua manutenção. A lei dos movimentos democráticos, antirracistas e antifascistas tem efeitos retroativos — se você pecou antes de aparecerem o Antifa, o Me Too e o Psol, e mesmo que não soubesse que estava pecando, você é culpado. Pode ser Churchill ou Cecil Rhodes, uma espécie de bandeirante da Inglaterra na África do século 19 cuja estátua também caiu na lista negra; exige-se sua retirada da Universidade de Oxford, esse templo sagrado da liberdade de pensamento e do respeito ao conhecimento. Pode ser o general Robert Lee, herói do Sul na Guerra de Secessão americana, hoje banido das praças públicas. Pode ser o rei Leopoldo II da Bélgica, que reinou durante mais de 70 anos: acabam de tirar a estátua do homem em Antuérpia, pelo crime de ter criado o Congo Belga. Pode ser Cristóvão Colombo, por que não? Junto com o ataque a Churchill, uma estátua de Colombo em Richmond, nos Estados Unidos, foi destruída e jogada no rio que corta a cidade. Outra acaba de ser removida do Grand Park, em Los Angeles.

Classes intelectuais e governos pusilânimes querem “rever a História” e “reavaliar eventos”

Colombo, já há tempo, deixou de ser o Descobridor da América — hoje, no mundo do antifascismo, é um criminoso que provocou o “genocídio dos povos indígenas” do continente. O ponto culminante de sua desgraça foi a remoção, alguns anos atrás, da série de painéis do século 19 que ornava a entrada da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, com cenas de suas viagens à América. Foi um choque, na ocasião: como uma universidade poderia aceitar a supressão do registro artístico de fatos que fazem parte da História da humanidade? Hoje ninguém ligaria a mínima — ao contrário, é uma surpresa que ainda continue de pé nos Estados Unidos algum monumento em homenagem ao Descobridor, ou alguma avenida com seu nome. O Dia da Descoberta da América, agora, é o “Dia dos Povos Indígenas”.

As democracias que pretendem ser exemplos de sabedoria política para o resto do mundo estão trazendo para o seu dia a dia, muito simplesmente, o que sempre denunciaram como um dos piores crimes da tirania comunista na antiga União Soviética: a eliminação, pela força do governo, do registro de fatos da História que desagradavam aos ocupantes do poder. Leon Trotsky, num caso clássico, foi removido à mão de todas as fotografias em que aparecia, depois de ter caído em desgraça e antes de ter sido assassinado no exílio; não podendo eliminar sua existência, eliminaram sua imagem. Nada disso, como se pretende nas classes intelectuais e em governos pusilânimes, em que homens e mulheres vivem no pânico de parecerem politicamente “incorretos”, é “rever a História”, “reavaliar eventos” ou trazer com honestidade ao debate abordagens diferentes e legítimas dos fatos que ocorreram no passado. É apenas violência, censura e proibição de qualquer pensamento diferente daquele que os grupos “antifascistas, democráticos e antirracistas” querem impor a todos. Não é ter uma visão crítica de Churchill, do rei Leopoldo ou de Cristóvão Colombo. É proibir que sejam vistos fisicamente. É apagar a História — e curvar-se à mentira.

No Brasil fala-se, de tempos em tempos, de remover estátuas como a de Borba Gato, na entrada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Como todos os seus colegas bandeirantes, Borba Gato é regularmente acusado de ser um facínora vulgar — assassino, ladrão, escravizador de índios. (Sua estátua, possivelmente, é uma das esculturas mais feias que a arte humana já produziu. Mas ele, pessoalmente, não tem nada a ver com isso: a responsabilidade é do escultor.) A questão é que tudo isso aí é um saco sem fundo. Pelo mesmo critério, deveria ser eliminado da paisagem nada menos do que o principal conjunto da estatuária de São Paulo, hoje um símbolo da própria cidade — o Monumento às Bandeiras, o complexo de esculturas de granito de Victor Brecheret, com 11 metros de altura e 240 blocos diferentes, que comemora a conquista do interior do Brasil pelos bandeirantes paulistas. Todas as figuras, ali, estão saindo de São Paulo para cometer crimes pelo país afora — como comemorar uma coisa dessas, se não se tolera um mero Borba Gato? Pelo mesmo critério, teriam de ser removidas as estátuas de Fernão Dias, de Raposo Tavares ou do Anhanguera, e trocados os nomes de três das principais autoestradas que saem de São Paulo. No caso do Anhanguera, o “Diabo Velho” dos índios, também seria preciso tomar providências em Goiás — onde, como em São Paulo, ele tem status de herói. Ou melhor: tinha.

De Winston Churchill a Borba Gato, passando por Cristóvão Colombo — é como funciona o mundo de hoje. Nele já ficou proibido, até mesmo, ver… E o Vento Levou, que estava por aí há exatos 80 anos. A HBO Max, apavorada com a possibilidade de desagradar aos antifas da vida, acaba de proibir a exibição do filme por seu conteúdo “racista”. Ninguém tinha lhe pedido nada; empresas realmente conectadas com o século 21, nos dias que correm, sabem se antecipar às exigências da sociedade. Coragem não é enfrentar com risco de vida, como Churchill, a Alemanha nazista e invencível. É censurar… E o Vento Levou.
Título e Texto: J. R. Guzzo, revista Oeste, 12-6-2020, 10h19

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Um comentário:

  1. “Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história se interrompeu. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido tem sempre a razão.”
    — George Orwell, no livro 1984

    Circe

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