sábado, 5 de fevereiro de 2022

A humildade liberal

Um liberal de verdade jamais se colocará como o detentor da palavra final sobre assuntos controversos


Rodrigo Constantino

Um colunista da Folha de S. Paulo, que se diz liberal, escreveu nesta semana um artigo questionando a quem interessa a liberdade de expressão irrestrita. Para ele, quando uma opinião coloca em risco outros direitos, é evidente que ela deve ser tolhida. Ele defende a liberdade ampla, mas… e eu sempre me interesso mais pelo que vem depois do “mas”. No caso, a “liberdade de expressão é um valor inegociável, mas é preciso impor limites”.

Claro que ele usou a pandemia como exemplo. Para o autor, notícias falsas tiraram vidas. Quem não concordou totalmente com a receita draconiana e autoritária de isolamento social, uso obrigatório de máscaras e passaporte vacinal colocou vidas em perigo, segundo nosso liberal. Eis como ele conclui: “Apenas o que defende o bem comum, que luta contra injustiças, que se pauta pelo rigor da ciência, que acompanha a marcha da História, deve ter espaço. Mentira e injustiça não têm espaço numa sociedade democrática. Fora isso, a liberdade de expressão deve ser irrestrita”.

Bem, está claro que ele não é liberal de verdade, mas, sim, um esquerdista autoritário. Aliás, ele defende todas as demais pautas “progressistas”. No caso da liberdade de expressão, talvez o valor mais caro ao liberalismo junto da propriedade privada, o colunista bate num espantalho. Ninguém, ou quase ninguém, defende uma liberdade totalmente irrestrita. Incitar ódio e violência, pregar ataques físicos a terceiros ou fazer apologia ao crime, por exemplo, são pontos que liberais aceitam como passíveis de algum controle. E já existem punições previstas para injúria, calúnia e difamação.

Mas não é disso que ele fala. O que o “liberal” deseja é impor censura em nome do combate às fake news e ao “negacionismo”, ou seja, trata-se de uma visão extremamente arrogante e autoritária que delega a um clubinho o poder de determinar o que é a verdade científica e o que é mentira perigosa, que deve ser banida do debate. Nesta pandemia, ficou escancarada essa postura arrogante e autoritária de muita gente, inclusive alguns que se dizem liberais ou mesmo conservadores.

A ciência nasce da dúvida, da pergunta, enquanto essa turma tentou impor dogmas e interditar o debate

E, para piorar, a tentativa de monopolizar a fala em nome da ciência se mostrou um fiasco. Estudos posteriores sérios questionaram a eficácia do lockdown, vendido como panaceia. As máscaras não foram capazes de impedir a rápida disseminação do vírus. E até as vacinas passaram a ser colocadas em xeque quando inúmeras pessoas “imunizadas” contraíram a doença, e em muitos casos foram hospitalizadas ou mesmo a óbito. Muita promessa falsa, pouca ciência de verdade.

E é aqui que mora o cerne da questão: o liberal de fato parte de uma postura de humildade. A ciência nasce da dúvida, da pergunta, enquanto essa turma arrogante tentou impor dogmas e calar os céticos, interditar o debate, punir os dissidentes e “hereges”, tratados como “negacionistas”, um termo religioso, não científico. Ao depender de gente como esse colunista “liberal”, médicos renomados e cientistas sérios, com um histórico respeitável na área e um conhecimento infinitamente maior do que o dele nos assuntos, deveriam pagar com o ostracismo social por suas dúvidas ou contrapontos.

“O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência — ou seja, sua ignorância e arrogância — aos seus concidadãos.” A fala de Raymond Aron defende com precisão o abismo entre a postura humilde liberal e a arrogância dos planejadores sociais.

Podemos resgatar também o que outro liberal famoso pensava sobre a liberdade de expressão. John Stuart Mill flertou com ideias “progressistas”, mas nessa área defendeu como poucos o indivíduo. Eis o que ele tinha a dizer sobre o assunto: “Se todos os homens menos um partilhassem a mesma opinião, e apenas uma única pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não teria mais legitimidade em silenciar esta única pessoa do que ela, se poder tivesse, em silenciar a humanidade. Se a opinião é correta, privam-nos da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se errada, perdem, o que importa em benefício quase tão grande, a percepção mais clara da verdade, produzida por sua colisão com o erro. Todo silêncio que se impõe à discussão equivale à presunção de infalibilidade. Há uma enorme diferença entre presumir uma opinião como verdadeira porque, apesar de todas as oportunidades para contestá-la, ela não foi refutada e pressupor sua verdade com o propósito de não permitir sua refutação”.

Ele acrescentou: “O único modo pelo qual é possível a um ser humano tentar aproximar-se de um conhecimento completo acerca de um assunto é ouvindo o que podem dizer sobre isso pessoas de grande variedade de opiniões, e estudando todos os aspectos em que o podem considerar os espíritos de todas as naturezas. O hábito constante de corrigir e completar a própria opinião cotejando-a com a de outros, longe de gerar dúvidas e hesitações ao pô-la em prática, constitui o único fundamento estável para que nela se tenha justa confiança. A verdade de uma opinião faz parte de sua utilidade. Se quiséssemos saber se é ou não desejável crer numa proposição, seria possível excluir a consideração sobre ser ou não verdadeira? Na opinião não dos maus, mas dos melhores, nenhuma crença contrária à verdade pode ser realmente útil”.

Em outra passagem, Mill volta a atacar os censores: “A história está repleta de exemplos de verdades silenciadas pela perseguição. A perseguição sempre triunfou, salvo quando os heréticos formavam um partido demasiado forte para que os perseguissem efetivamente. É um exemplo de sentimentalidade ociosa supor que a verdade, meramente por ser verdade, possua o poder inerente, negado ao erro, de prevalecer contra o calabouço e o cadafalso. A real vantagem da verdade consiste em que, quando uma opinião é verdadeira, pode-se extingui-la uma, duas ou inúmeras vezes, mas ao longo dos anos se encontrarão pessoas que tornem a descobri-la, até que uma de suas reaparições ocorra numa época em que, graças a condições favoráveis, escapa à perseguição, avançando de modo tal que resista a todas as tentativas subsequentes de suprimi-la”.

Por fim, Mill diz: “Ninguém pode ser um grande pensador se não reconhece que, como pensador, seu primeiro dever consiste em seguir seu intelecto em todas as conclusões a que o possa conduzir. Onde houver uma convenção tácita de que não se devem contestar os princípios, onde se considerar encerrada a discussão acerca das grandes questões que podem ocupar a humanidade, não podemos esperar encontrar essa escala geralmente alta de atividade mental que tornou tão notáveis certos períodos da história”.

Resgato mais um liberal renomado, e no campo da ciência, para concluir. Falo de Sir Karl Popper. O conhecimento humano objetivo é possível, e não devemos cair no relativismo cínico. Conhecimento é a busca pela verdade, a busca de teorias explanatórias, objetivamente verdadeiras. Mas não é a busca por certeza absoluta. Entender que errar é humano é reconhecer que devemos lutar incessantemente contra o erro, mas que não podemos eliminá-lo totalmente. Como diz Popper, “mesmo com o maior cuidado, nunca podemos estar totalmente certos de que não estejamos cometendo um erro”. Essa distinção entre verdade e certeza é fundamental segundo Popper, pois vale a pena sempre buscarmos a verdade, mas devemos fazê-lo principalmente buscando erros, para corrigi-los.

Por isso o método científico é o método crítico, o método da “busca por erros e da eliminação de erros a serviço da busca da verdade, a serviço da verdade”. Alguns acusaram Popper de relativista por conta dessa postura, mas ele explica isso com base nessa confusão entre verdade e certeza, e é enfático ao recusar tal rótulo: “O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais; é uma traição à razão, e à humanidade”. Ser humilde do ponto de vista epistemológico não é o mesmo que ser um relativista.

Agora vamos comparar essa postura liberal com aquela típica de seitas dogmáticas, em que a “Verdade” já foi descoberta. Nesses casos, não há espaço para erros, para divergências saudáveis e construtivas, para evolução. Afinal, tudo já foi respondido, e as crenças são tidas como infalíveis. Alguém que está certo mais de 50% do tempo já pode se vangloriar de sua inteligência, mas o que dizer de alguém que “está certo” 100% do tempo? Nem o maior gênio de todos. Logo, só mesmo um fanático ou embusteiro adota esse tipo de postura iliberal e arrogante.

Não restam dúvidas de que um liberal de verdade adotará postura humilde diante dos temas polêmicos e jamais se colocará como o detentor da palavra final sobre assuntos controversos, buscando silenciar críticos ou céticos.

Título e Texto: Rodrigo Constantino, revista Oeste, nº 98, 4-2-2022

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