domingo, 4 de setembro de 2022

[As danações de Carina] Tudo

Carina Bratt

AO CONTRÁRIO DO ‘NADA’, eu tenho Tudo. Saúde, a cabeça e os pensamentos situados no tempo e no espaço, as vistas perfeitas, as mãos, os pés. O meu apê, até um pouco desproporcional para ‘euzinha’, que moro comigo mesma. Meus móveis de quarto foram trocados e montados recente, assim como meu fogão, a minha geladeira, a máquina de lavar e, claro, em vista de ler muito, um punhado de livros na estante, obcecada pela mania compulsiva de comprar tudo o que vejo em sebos e livrarias.

Mergulho, em razão disso, nas asas do primeiro ‘calembour’ (1) disponível e o faço, em romances e contos de amor, sem mencionar a aquisição de um punhado de diversas outras bugigangas como quadrinhos, bibelôs, paninhos de pratos, porta-copos, enfim, utensílios de cozinha o que, a cada dia, evidentemente, só fazem aumentar o meu universo de manias e vícios de uma mulher em busca de si mesma. Não chego a ser uma ‘erotomaníaca’ (2), mas confesso, ando próxima de me tornar a ‘Asna de Balaão’ (3).

Legal, essa coisa da ‘Asna de Balaão!’. Voltando ao propósito do texto, ao contrário do nada, como já dito acima, eu tenho Tudo. Meu cantinho pago e quitado, a minha cama limpinha para dormir, a minha sala, a minha varanda, a cadeira de descanso, um lugar sacrossanto que considero intocável e onde posso chamar de Meu. Aqui sou a dona do mundo, a senhora dos meus sonhos e desejos, vontades e anseios... aqui eu esquematizo os meus planos incógnitos e reservados para o futuro.

Aqui em meu reino, eu mando e desmando, faço e desfaço, recebo quem eu quero, sem ninguém para me dar ordens ou me obrigar a promover aquilo que não tenho a menor vontade. Ao contrário do nada, repito, ao oposto do Nada, eu tenho Tudo. Vivo e respiro vinte e quatro horas, a maviosidade pitoresca, como se me visse transportada para o longínquo ‘Templo Guinkakuji’ (4). Completando esses mimos, e aprazimentos, meu chuveiro é quente, meu tapete é de veludo e acolhedor, quentinho e fofinho.


Às vezes, cansada, simplesmente arranco as roupas e, nua em pelo, me deito no chão da sala e ali passo a noite. Meu espaço do escritório fica a poucos metros, no quarto de hóspedes, entre a sala, meus aposentos reais e a cozinha. Com a chegada da pandemia, o antigo local de trabalho cedeu a vez, de vez, para um moderno ‘home office’ (5) onde escrevo meus textos. Conto com um moderno computador, além de um telefone fixo. Mantenho, ao alcance das mãos, um celular ‘indesligável’ (6), para quando o Aparecido precisa falar comigo. Por falar no patrão, só ele e minha mãe têm a chave daqui do meu paraíso terrestre.

Por aí, ruas e praças, avenidas e vielas, deparo com pessoas como eu, mesma idade, iguais objetivos e metas, esperanças e finalidades que por algum motivo inexplicável não conseguiram realizar o que almejaram. Não sei explicar o que é, ou a razão. Tampouco a circunstância de não vislumbrarem o rumo, a vereda, o carreiro, tipo aquele composto por Raul Seixas e Paulo Coelho (7) qual seja, o acesso da bonança e da realização pessoal.

Aos trinta e pouco, posso dizer para meus amigos e amigas (notadamente à Grande Família Cão que Fuma), sou uma sortuda e abençoada garota. Voo alto e bem longe de ‘Robin Cook’ (8). O nada, na minha vida, não passou de uma palavra vazia, destituída de um sentido prático. Sou um tantinho assim de ‘Helvétius’ (8), se me permitem ser comparada a ele. Tudo o que planejei, me veio às mãos sem que eu precisasse melindrar a minha alma e deixar o coração à beira de um ataque de nervos.

Pois é, caríssimas amigas e leitoras. Eu tenho Tudo, Tudo. Até além do que pedi à Deus. Diria um bocadinho acima do que merecia. Acordo todas as manhãs e desço para o condomínio, corro, vou e volto, volto e vou sempre distribuindo sorrisos às pessoas que cruzam comigo. Ando de cabeça e olhos erguidos, sem medo de topar com a polícia e precisar sair à francesa. Ao desacordo do nada, meu Deus, ao avesso daquele que não tem um teto, um prato de comida na hora do almoço, ou alguns tostões para sentir o sabor de um jantar simples, pior, decadente de míseros trocados no bolso para um copo de café com uma banda de um pão sem manteiga, eu tenho Tudo.

Em passos paralelos, tenho mamãe, ainda viva, bela e formosa, escondidinha (mora no meu prédio dois andares acima), como cultuo a memória de meu pai, hospedado ‘ad aeternun’ (9) em meu peito ao lado do coração. Toda vez que necessito dialogar com ele, brincar, pedir conselhos, chorar, desabafar, falar da falta enorme que me faz, acorro a um cantinho secreto no corredor -, quase frontispiciado à porta de meu quarto. Há, ali, um oratório, à semelhança de um pequeno altar encimado por Cristo Jesus, ao lado de Nossa Senhora Aparecida.

Sempre que saio para a rua, antes de abrir a porta da sala e ganhar o corredor, faço uma parada básica para me restabelecer, me centralizar, grosso modo, me encher do Espírito do Altíssimo e das benesses de estar viva. Lembrando também, que estou inteira e tenho tudo o que almejo. Quando retorno, os momentos tristes, os dissabores, as mágoas, permanecem esquecidos no corredor. Aliás, nem chegam a sair do elevador. E novamente, de joelhos, diante da Força Religiosa, eu agradeço penhoradamente por ter voltado, sem um arranhão, sem ser assaltada, sem ter que xingar, gritar, maldizer alguém ou sinalizar os tortuosos recônditos dos quintos.

Eu sou Feliz... ao antônimo do nada -, kikikikikiki, me resta claramente a convicção de que não posso jamais reclamar... ou blasfemar. Eu tenho Tudo. E rogo, em minhas orações, que todas as minhas amigas e leitoras encontrem a ária ideal, lembrando sempre que o Universo, ao nosso redor, indefinidamente conspira a favor, melhor dizendo, a nossa lisonja, ao nosso afeto e o ‘mais maravilhoso’ de Tudo, se aproxima a passos largos, do que ‘Machado de Assis entendia acertadamente como, de quando em sempre, ‘tempora mutantur’ (10).

Notas de rodapé:
1) Calembour - Uma espécie de trocadilho popular.
2) Erotomaníaca - Transtorno psicológico no qual uma pessoa acredita ser amada por outra.
3) Asna de Balaão - A passagem aqui citada pode ser encontrada no ‘Velho Testamento’ em Números 22:28.
4) Templo de Guinkakuji - Fica em Kioto no Japão. Conhecido como ‘Pavilhão Prateado’, embora nada tenha de prateado. É considerado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO.
5) Home Office - Escritório dentro de casa. Teve a sua elasticidade conhecida a partir da pandemia da Covid 19.
6) Indesligável - Aquilo que não pode ser desligado, ainda que se queira.
7) Raul Seixas e Paulo Coelho - Referência a canção ‘Caminhos’. Obra dos compositores Raul Seixas (melodia) e Paulo Coelho (poesia) gravado por Raul Seixas em 1975.
8) Robin Cook - Escritor e médico norte-americano consagrado. Autor de ‘Risco Calculado’, ‘Vírus’ e ‘Coma’, entre outros, pela Editora Record.
9) Ad aeternum - Locução latina que se traduz, em português para a ‘Eterna lembrança de alguma coisa’.
10) Tempora mutantur - Adágio latino que significa ‘Os tempos não param, estão sempre em contínua mudança’. 

Título e Texto: Carina Bratt. De Esteio, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. 4-9-2022

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