Criado pela indústria brasileira, produzido por décadas no subúrbio carioca e adotado da cozinha da avó ao balcão do botequim, o copo americano atravessou gerações e se tornou um dos maiores símbolos do cotidiano do Rio de Janeiro
Bruna Castro
Poucos objetos são tão
discretos — e ao mesmo tempo tão onipresentes — quanto o copo americano.
Ele nunca pediu atenção, nunca mudou de forma, nunca se reinventou. Ainda
assim, atravessou décadas praticamente intacto, ocupando cozinhas, armários,
balcões e mesas do Rio de Janeiro como se sempre tivesse pertencido à paisagem
doméstica da cidade.
O copo americano não nasceu
carioca, mas nasceu de uma indústria brasileira que teve íntima ligação com o
Rio.
Criado em meados do século XX pela fábrica Nadir Figueiredo, inspirou-se em modelos simples e robustos usados nos Estados Unidos, pensados para resistir ao uso intenso. Era um copo funcional, barato, empilhável, quase indestrutível. Um produto típico de um Brasil que se industrializava e precisava de soluções práticas para o cotidiano. Mas foi no Rio – e nas suas casas e botequins – que esse copo encontrou seu lugar definitivo.
Durante décadas, a Nadir
Figueiredo manteve uma importante unidade fabril na Vila da Penha,
na Zona Norte da cidade. Ali, onde hoje funciona o Carioca Shopping,
produziu-se em larga escala o copo que acabaria se espalhando por todo o estado
— e, sobretudo, pelas casas cariocas. O complexo industrial marcou
profundamente a região, integrando a história do trabalho, da urbanização e da
vida cotidiana do subúrbio, tendo trabalhadores que residiam em todo o entorno,
de Coelho Neto à Penha.
É curioso perceber como um objeto de origem tão industrial e produzido aos milhões acabou sendo completamente absorvido pela intimidade doméstica. Na casa da avó, o copo americano servia para tudo: água, café, suco, remédio. Era o copo “certo” para visitas rápidas e para o uso diário. Ficava no armário mais baixo, ao alcance das crianças, porque não quebrava fácil. E, quando quebrava, não fazia drama: era substituído sem cerimônia.
Nos botequins, virou medida
informal. Um café era “um copinho”. Uma cerveja pequena também. O copo
americano ajudou a padronizar o cotidiano sem nunca parecer impositivo. Era
democrático por natureza. Não distinguia classe social, bairro ou ocasião. Estava
tanto na mesa simples quanto no balcão de zinco, tanto na Zona Norte quanto no
Centro.
A presença da fábrica na Vila
da Penha ajudou a naturalizar ainda mais esse vínculo com o Rio. O copo não
vinha “de fora”. Vinha do subúrbio. Do chão fabril carioca. De uma Zona Norte
que, por muito tempo, concentrou parte importante da produção industrial da
cidade. O copo americano carregava, sem saber, a memória de turnos, operários,
caminhões e estoques — tudo isso dissolvido na transparência do vidro grosso.
Com o passar do tempo, a
fábrica foi desativada. O espaço industrial deu lugar a um grande
empreendimento comercial. A lógica da cidade mudou. A indústria saiu, o consumo
entrou. Mas o copo permaneceu. Continuou firme nos armários, nas padarias, nos
bares, como um vestígio silencioso de um Rio que produzia, não apenas consumia.
Talvez seja por isso que o
copo americano provoque tanta nostalgia. Não apenas pelo objeto em si, mas pelo
mundo que ele representa. Um tempo em que as coisas duravam. Em que a forma
seguia a função. Em que um único copo resolvia quase tudo, sem precisar ser
bonito, caro ou exclusivo.
O copo americano não virou
símbolo por estratégia de marketing. Virou símbolo por uso. Foi adotado,
repetido, transmitido. Tornou-se carioca porque entrou na rotina, no gesto
automático, no dia a dia sem glamour. Como tantas outras coisas que definem o Rio,
ele não nasceu identidade — virou identidade.
E talvez seja exatamente por
isso que, ainda hoje, ao pegar um copo americano na mão, muita gente pense
imediatamente na casa da avó. Porque ali, como em tantos outros lugares do Rio,
ele não era apenas um copo. Era parte da casa. Parte da vida. Parte da
história.
Título e Texto: Bruna Castro,
Diário do Rio, 8-1-2025
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