sexta-feira, 29 de novembro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Avesso da paisagem

Aparecido Raimundo de Souza

O QUE EU REALMENTE QUERO? É muito simples! E de fácil compreensão. Que ela saiba que eu não sou perfeito. Que nunca fui, em toda a minha vida, um símbolo de apuro e alinho. Aquele cara esmerado, ilibado, pontual e sem manchas, e, em tempo algum, ainda que chova barrinhas de ouro me transformarei num sujeito borra botas, acorrentado ao extraordinário, ao divino, tampouco o cidadão aprimorado nos gestos mais simples e triviais. 

Que ela entenda no mesmo som do piano a meia luz, que não me transformarei naquele ser humano comandado ou controlado. Que vive de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem viver a sua vida pessoal.  Viver, bem entendido, no sentido de andar à solta, sem meios termos, sem amarras cordas ou laços prendendo os pés em um chão que não me veja ou não me enquadre nele. Por outra ótica, que ela tenha em mente, não sou uma santidade, um inocente, tipo poço de candura.

Dito de modo mais taxativo. Vaquinha de presépio, pau mandado, faz isso, faz aquilo, coma isso, não coma aquilo. Tal coisa é proibida, ou isso pode aquilo jamais.  Que ela ponha na cabeça, eu não me enquadro no perfil do bom rapaz, “wanderleycardosado” dos anos sessenta, sem personalidade, ou que só (ia) ou vai para frente aos empurrões e safanões do bel prazer de suas convicções, melhor explicado, quando ela resolver dar sinal verde na hora em que achar pôr bem fazê-lo.

Que ela tenha em cautela e desvelo, sempre e acima de qualquer outra visão precipitada, se eu estiver na rua, no bar, na padaria, no campo jogando uma pelada, enfim, seja quem for esse amigo ou colega de trabalho, não importa a situação. Que a beldade assimile que não ambiciono traições. Jamais passou pela minha ideologia arranjar outra mulher, constituir nova família, arranjar uma penca-renca de filhos ou manter uma amada amante ao estilo Roberto Carlos, ou exemplificado de forma mais clara, às escondidas, ocultado, disfarçado, incognitado por debaixo dos panos, seja aqui ou acolá.

O que realmente espero e quero dela, sobretudo, o que pretendo dar e receber em troca. Que ela vislumbre numa reinvenção diária, que acima de tudo, aconteça o que acontecer, ela será sempre a única, a exclusiva, a ímpar, a particular, a individual, a musa mulher, a metade fêmea preciosa que faz e fará ad aeternum a minha vida ser plural e soberana em tudo. E acima de todas as coisas. Que ela vislumbre além do imaginário. Que comungue a plena consciência que a minha ideia principal não é descambar dos caminhos certos, deixar de ser um sujeito trabalhador, honesto ou parar de viver uma vida digna, honrada.

Que ela me aceite como sou, com todos os defeitos e manias, carências e angústias alegrias e tristezas. Perfeito, só Deus. Que em tempo algum passou (ou passa) pela minha ideia (ainda que hipoteticamente), prejudicar terceiros, ou, evidentemente, descambar das vias corretas, desvirtuando meus horizontes para estradas sinuosas, trajetos e veredas que, bem sei não me levarão a lugar nenhum, a não ser à “bancarrotada” de minha própria estupidez imbecilizada.

Que ela procure olhar para mim com a visão abissal da esperança em todo seu esplendor, igualmente com o sorriso de alegria infinda, e o rostinho aberto em leques de puras e sólidas felicidades. Que respeite meu silêncio, minhas dores, meus medos e receios. Que ela saiba que penso nela vinte e quatro horas por dia e ainda que não diga abertamente, aos pés de seus ouvidos, que tenha consciência cheia, absoluta, sua vida seu ser, seus desejos e vontades estão vivos, pulsantes, esplendorosos, vivificantes, diuturnamente balouçantes dentro de meu coração.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo. 29-11-2019

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