domingo, 17 de novembro de 2019

[O cão tabagista conversou com...] Gabriel Mithá Ribeiro: "O pensamento freudiano deixa muito claro que a chave que abre a porta à viabilidade de indivíduos e coletivos é a autorresponsabilidade pelo seu destino"


Por que escreveu (Um Século de Escombros)?
«Um Século de Escombros» resultou da vontade de romper com a pestilência que tomou conta do pensamento social um pouco por todo o mundo, alimentada por uma esquerda em falência mental, isto é, em falência moral e intelectual cujas ideias derivam da revolução soviética de 1917.


No ano passado publiquei o «Novo Manual de Investigação» (2018), uma crítica epistemológica incisiva aos meios académicos, e o fundamental do livro é propor o que deve ser feito para renovar e recredibilizar os conhecimentos universitários adoecidos pelo sovietismo intelectual.

Este ano dei continuidade a essa análise, mas voltando o olhar crítico para a falência moral das nossas sociedades, daí «Um Século de Escombros» (2019). O livro dá um grande passo em frente em relação ao anterior não apenas porque o primado da condição humana é a moral, mas também porque as implicações políticas, cívicas, identitárias, culturais ou civilizacionais da moral social são bem mais sentidas no quotidiano pelas pessoas comuns.

O pressuposto de «Um Século de Escombros» é o de ser o tipo de orientação moral adotado por indivíduos, minorias, comunidades ou povos que explica que uns atinjam a estabilidade, maturidade e prosperidade, enquanto outros revelam maiores dificuldades ou mesmo incapacidade de alcançar tais ambições.

O pensamento freudiano deixa muito claro que a chave que abre a porta à viabilidade de indivíduos e coletivos é a autorresponsabilidade pelo seu destino, no sentido do complexo de culpa própria, uma construção atemporal iniciada pelas tradições mágico-religiosas ancestrais, depois prolongada pela tradição judaico-cristã e por grande parte da tradição filosófica ainda fundamentais, mesmo quando se transfiguram em laicas.

Foi apenas no século XX que os soviéticos romperam com esse adquirido da condição humana criando uma ordem moral de ruptura. A moral de matriz soviética é muito diferente porque remete as responsabilidades pelo próprio destino, muito em particular dos mais carenciados, para fora do sujeito coletivo, do explorado para o explorador, o que quer dizer que os soviéticos transformaram a vitimização num valor moral.

Ao fim de «Um Século de Escombros», o século que medeia entre a revolução soviética e a chegada ao poder do presidente Donald Trump, é inequívoco que essa orientação moral desumaniza os indivíduos e empobrece mental e materialmente as sociedades, uma vez que tende necessariamente a fragilizar a autoconsciência e autorresponsabilidade do sujeito individual ou coletivo pelo seu próprio destino. Por derivar dessa orientação moral patológica, da ação da esquerda nunca resultaram nem resultarão sociedades coesas, funcionais, seguras, prósperas, humanamente viáveis. Portanto, «Um Século de Escombros» é a vertente moral que complementa a vertente intelectual do «Novo Manual de Investigação».

Por que o devo ler?
Há livros bons e maus, entre os últimos alguns são veneno para a dignidade humana. Mas nenhum livro é ameaçador se a orientação da moral social for sólida. O facto é que hoje vivemos dias paradoxais porque a proteção da dignidade humana tem de ser conseguida contra os que mais leem e escrevem, as elites bem-pensantes, entre intelectuais, acadêmicos, artistas, músicos, por aí adiante, na sua grande maioria adoecidos pelos vírus moral soviético.

 Daí que em certos momentos históricos, como aquele em que vivemos, seja necessário que apareçam livros que façam um ponto de ordem, uma espécie de cordão sanitário civilizacional entre a saúde e a doença moral e intelectual, o que permite às sociedades começarem a reagir. É o que tento oferecer aos leitores de «Um Século de Escombros». Passo-lhes a ideia de que as funcionalidades e disfuncionalidades das sociedades têm a ver com o modo como cada um de nós pensa e se relaciona com o mundo que o rodeia.



O livro tenta que o leitor entenda de onde veio a doença mental coletiva que conduz à instabilidade e à miséria de povos ou minorias, mas também e sobretudo tenta explica ao leitor onde sempre esteve e continuará a estar o antídoto, o caminho da sanidade mental coletiva que sustenta a estabilidade, coesão e prosperidade coletivas.

Se as pessoas individuais de destaque pensam e escrevem livros, a árvore do pensamento, as pessoas coletivas ou sociedades também produzem pensamento, a floresta do pensamento, à medida que no dia-a-dia os indivíduos se relacionam uns com os outros.

«Um Século de Escombros» é tanto destinado à árvore quanto à floresta do pensamento justamente porque cada um de nós é fundamental no destino coletivo, desde as nossas famílias aos nossos países e mundo.

Quem se sente ou é de direita deve obrigatoriamente fazer uma introspeção moral para ir buscar ao passado a sua dignidade e não cometer crimes, erros ou vícios do passado, daí que o livro seja uma carta de princípios da reinvenção civilizacional do mundo ocidental a partir, como diz o subtítulo, de «Pensar o futuro com os valores morais da Direita». Nesse campo político, está em curso uma profunda reinvenção civilizacional que vai integrando cada vez mais povos da Europa, Canadá, Estados Unidos da América, Austrália, Nova Zelândia, Israel ou, sem dúvida, da América Latina.

No último caso, o Brasil destaca-se como uma sociedade com segmentos sólidos na sua ambição de reforçarem a sua filiação à velha civilização ocidental que sempre foi e será sua. Como o Brasil é um país demasiado influente, os brasileiros são decisivos. Isso é muito evidente a nível intelectual pela corrente renovadora do pensamento pontificada pelo professor Olavo de Carvalho, que cito no livro, e a nível político pela renovação iniciada pelo presidente Jair Bolsonaro, a quem dedico «Um Século de Escombros».

O Brasil é de tal modo importante que, se o presidente apoiasse a idéia e o Editor em Portugal não se opusesse, o título do livro na edição do Brasil poderia mudar para «O Livro Bolsonaro», depois como subtítulo «Um Século de Escombros

Mas o livro também deve ser lido por pessoas de esquerda. Elas vão prosseguir o seu caminho de destruição da condição humana por ser nisso que acreditam, porém é exigível que recorram a processos honestos e justos. Não se pode criticar a direita sem ter em conta o que essa mesma direita pensa e escreve por ela mesma. Nisso o livro é muito claro. Situa-se sem ambiguidades à direita.

Teve retorno do ministro-conselheiro da Embaixada do Brasil sobre a sua oferta do livro ao presidente do Brasil? Isto é, o presidente Bolsonaro já o leu?
Tenho uma profunda admiração pela inteligência e coragem do presidente Jair Bolsonaro, e tentar convencer que não existem europeus lúcidos que pensam isso é pura fraude. De qualquer modo, em democracia toda e qualquer ação governativa é criticável. Mas temos de ser adultos o suficiente para distinguir o acessório do essencial.

No acessório estão a política e as decisões administrativas, e no essencial está a orientação moral e cívica dos governos. Quando se olha para o governo do Brasil atual não existem razões para criticar o essencial, até porque se percebe de forma muito clara que o Governo Bolsonaro se orienta pelo meta-princípio moral e civilizacional da autorresponsabilidade coletiva, ao contrário do desastroso meta-princípio moral da vitimização introduzido historicamente pelos soviéticos, e que explicou o facto de o PT ter colocado em causa a viabilidade do Brasil.

Por isso, embora o Brasil esteja a entrar no bom caminho, creio ser fundamental que o presidente Jair Bolsonaro, e quem o acompanha e apoia, lessem o livro e se apropriassem do seu conteúdo, ainda que com sentido crítico.

É um apoio importante para que consolidem as suas posições cívicas e políticas, para reforçarem o muito que já fizeram de bom pelo seu país, mas é também importante evitar erros de princípio para consolidar no tempo o apoio moral da população brasileira ao projeto de sociedade dirigido pelo presidente Jair Bolsonaro. Não apenas para o Brasil, mas também muito para além do Brasil, é muito importante que as atitudes renovadoras iniciadas em 2018-2019 se sustentem por gerações. Nesse sentido, não se pode desperdiçar uma grande conquista do presidente Jair Bolsonaro, a capacidade de ter aberto um espaço de fala pública e institucional legítima para quem não é de esquerda.

Até para Portugal esse modelo é fundamental e, nesse aspeto, a sociedade brasileira está a revelar-se bem mais renovadora e dinâmica do que a portuguesa que não se liberta da estagnação. Creio que o ministro-conselheiro da embaixada do Brasil em Lisboa, Pablo Duarte Cardoso, percebeu esses contributos do livro e tem-se disponibilizado para fazer chegar «Um Século de Escombros» onde tem de chegar, em especial ao presidente Jair Bolsonaro e ao professor Olavo de Carvalho, mas também ao público do Brasil em geral.

Aguardemos os resultados, com o contributo precioso de «O Cão Que Fuma». Mas como o Jim Pereira deve compreender, o ministro-conselheiro é um diplomata prudente aberto aos mais variados pontos de vista. Todavia, não duvido da muita atenção que está a dar ao livro.

A ‘apresentação’ da Dr.ª Maria Luís Albuquerque no lançamento na Buchholz foi soberba...
Tirou-me as palavras da boca. Atribui-se à Dr.ª Maria Luís Albuquerque um perfil técnico, sobretudo financeiro e econômico, por ter sido ministra de Estado e das Finanças de Portugal, mas ela revelou-se uma comunicadora exímia na apresentação do livro, um perfil político eficaz que eu desconhecia.

Por outro lado, considerando o panorama mental das elites bem-pensantes e da imprensa portuguesa dominadas por esquerdistas encartados ou submissos ao seu poder, qualquer figura pública necessitava de coragem para se expor apresentando um livro como «Um Século de Escombros».

Para mim isso não foi propriamente surpresa tendo em conta a coragem que a Dr.ª Maria Luís Albuquerque revelou num cargo governativo exigente depois de um governo socialista irresponsável ter levado Portugal praticamente à bancarrota em 2011.

Mas desde o convite que lhe fiz para apresentar o livro, não notei qualquer hesitação ou falta de motivação da parte dela em apresentar «Um Século de Escombros». Transmitiu-me sempre uma forte convicção e coragem até ao dia da apresentação, postura rara em quem não é de esquerda, para mais do Partido Social Democrata português (PSD) onde muitos vivem em dramas existenciais entre ser de direita ou de esquerda, e sempre adjetivando como que pedindo desculpas à esquerda, «Sou de centro-direita…».

Na apresentação, a Dr.ª Maria Luís Albuquerque deu de dez a zero a muitos que falam do respeito pela liberdade de pensar, dizer, escrever ou fazer, sobretudo quando essa liberdade é utilizada em nome da melhoria das condições de vida dos povos e do mundo, como é o caso do livro e foi da ação dela no governo.

Fez uma apresentação em sintonia com o que escrevi, porém introduzindo a sua própria visão dos assuntos tratados no livro, como a questão da moral social, que transmitiu com muita eficácia a tese-chave do livro, explicou muito bem aos presentes a razão de ser do título do livro, a questão africana que eu abordo no terceiro capítulo, matéria em que demonstrou conhecer de experiência vivida o assunto por ter vivido em Moçambique, as questões de discriminação social, entre outros assuntos.

Seria impossível para mim ter conseguido alguém melhor para apresentar o livro, por isso estou-lhe muito grato. Desejo que a Dr.ª Maria Luís Albuquerque volte a ter um papel ativo no PSD, embora antecipe que, para ela, tal possa implicar sacrifícios pessoais. Mas espero que ceda aos apelos, o meu incluído, até porque o anterior presidente da República Portuguesa, o professor Aníbal Cavaco Silva, também se pronunciou nesse sentido há poucas semanas.   

Ah, o livro é excelente. Eu tenho nove páginas vincadas assinalando trechos que julgo ótimos...
Sabendo que o conteúdo pode ser de alguma exigência e com a ajuda das críticas do editor, Duarte Bárbara da Leya, ao texto original tentei transmitir as ideias da forma mais simples possível, quer fugindo ao jargão acadêmico, quer organizando uma sequência interna dos capítulos legível, quer ainda organizando os diferentes ensaios que compõem o livro entre si para tornar a leitura apelativa.

Como ninguém é bom juiz em causa própria, agradeço o elogio e espero descobrir quais são as nove páginas dos trechos ótimos até porque, pelo que sigo todos os dias no «Cão Que Fuma», o Jim Pereira é um juiz exigente. Quem me dera que em vez de nove páginas fossem dez… ou dezoito. Mas passar no seu exame, o que parece, já é muito bom!

Com o perdão da indiscrição, está vendendo bem?
O livro apareceu em setembro e teve uma fase inicial muito difícil, marcada por um certo silenciamento na imprensa por ser pró-direita. Um dos sinais muito preocupantes nas primeiras semanas foi o facto da Livraria da Travessa, que abriu uma sucursal em Lisboa, ter interditado a presença do livro nas suas lojas no Brasil e em Lisboa.

Tal violência persecutória porque o livro elogia e se dedica, entre outros, ao presidente Jair Bolsonaro julgava impensável nos nossos dias.

O ódio dos sujeitos esquerdistas que gerem a Livraria da Travessa ao presidente Jair Bolsonaro revela-se de tal forma primário que os leva a atropelarem a mais elementar dignidade, entre não verem que o candidato Jair Bolsonaro foi esfaqueado a renegarem o simples direito à liberdade da palavra escrita.

Mas passada essa primeira fase de silenciamento, o livro vai aparecendo no espaço público. A apresentação pública formal foi fundamental, por isso eu e o editor apostamos nela. Agora é aguardar.

Quanto às vendas, não tenho para já informações, embora o editor pareça animado. Mas são ainda necessárias algumas iniciativas, parte delas já agendadas para ver se «Um Século de Escombros» pode também chegar a países como a Hungria, Israel ou Estados Unidos da América, entre outros, para além do Brasil e de Portugal, uma vez que aproximar a várias direitas, procurar o que nelas existe de comum, é uma forma de tornar sustentável a direita enquanto movimento civilizacional fundado numa dada ordem moral partilhada, o que está para além da política mas não vive sem ela. É para isso que o livro existe. Deixo-lhe um grande obrigado, Jim Pereira!

Obrigado, Professor!

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3 comentários:

  1. Parabéns pela excelente entrevista com o escritor Gabriel . Os comentários elucidativos do intelectual nos mostram que a ideologia da esquerda em qualquer nação que se infiltre, leva o Estado, parlamentares e , principalmente o povo, à falência moral e sobretudo intelectual, pois paralisa a capacidade cognitiva , o raciocínio e discernimento das pessoas . Os ideais comunistas, em alguns países como o Brasil, Portugal, França ( em parte) e Grécia, "Travestidos de socialismo" sempre acabam por conduzir ao fracasso.
    Cuba, Venezuela e Coreia do Norte não entram neste estudo por serem ditaduras extremistas assumidas . Os déspotas destas nações que o digam !
    O mundo todo está em ebulição e muitos povos em diversas terras clamam por transformações . Reformar seria apenas enfeirar, embelezar o que já existe há décadas; a transformação muda tudo e todos !
    Acreditamos que o livro do ilustre Mithá seja uma excelente companhia para reflexão sobre o futuro social, administrativo e político nos 5 continentes .
    Vá com tudo, Gabriel !

    Sidnei Oliveira
    Assistido Aerus - Rio de janeiro

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  2. Excelente entrevista!

    Nercy Grabellos

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