sábado, 9 de janeiro de 2021

Ventura marca golo; o resultado passa então a ser 0-0

Vitor Cunha

Estava convencido que não iria assistir a mais debates, mas a mórbida tentação demoníaca de ver pessoas estripadas após um acidente ferroviário levou a melhor e assim se tornou irresistível assistir ao debate entre Ana Gomes e André Ventura.

Devo dizer que gostei bem mais do que esperaria gostar. Por um lado, porque sei que o desempenho de Ventura irritou muita gente, mais até à velha convenção de direita do que à tradicional esquerda. Por outro lado, porque já é tempo de alguém escandalizar o que imagino ser uma horda obesa de autoproclamados senadores detentores da moral e bons costumes de um regime do qual apenas se limitaram a cheirar a partir da escadaria o apetecível odor das iguarias oriundas da cozinha.

O respeitinho não entrou aqui, e ainda bem. Ana Gomes esteve no seu melhor desempenho de sempre, portanto de cabeça completamente perdida em deambulações nos chavões gastos de uma burguesia que usa “a esquerda” como um russo usa tatuagens da prisão. Uma espécie de Manuel Alegre, mas sem o milhão de votos inúteis no bolso e a ocasional rima. Ventura esteve normal, até parecia um autêntico Mário Soares na Primavera de 1983 a repetir o papel já típico da direita: o atirar da toalha de Balsemão nessa altura e o desta, o de deixar Rio sozinho e desgovernado abdicando da crítica interna e transitando para a liga menor, a do isolamento em pequenos clubes numa convicção teimosa de grande ética e superioridade moral, mas que no fim não traz de comer a ninguém (é um hobby).

Ventura tem demonstrado fragilidades, nomeadamente uma tendência do choque pelo choque sem valor acrescentado. Contudo, quando surge a oportunidade e lhe metem o alvo à frente, a seta espeta bem na mosca. A única recomendação que tenho, quer para a esquerda, quer para a direita, é para que não parem de gritar “fascismo” a cada oportunidade. Vivemos tempos interessantes. Claro, não vai dar em nada porque o nosso destino está há muito traçado, mas vai aquecendo os corações neste Inverno de prepotência que não leva ninguém a gritar “fascismo”.

Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 8-1-2021

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