segunda-feira, 18 de outubro de 2021

[Observatório de Benfica] Libertar a sociedade do "Golpe" de 2015

Mário Florentino

Talvez já não se lembrem, mas em 2015, houve um golpe na nossa democracia. Um golpe contra as regras não escritas que regiram o nosso regime democrático desde 1976. Quando o PSD ganhou as eleições, sem maioria absoluta, o seu governo foi derrubado, e o PS decidiu aliar-se às forças não democráticas de esquerda para conquistar o poder. Isto representou um golpe, porque até então existia o chamado "arco da governação", no qual que os partidos extremistas e radicais não entravam. Todos os governos anteriores tinham sido sempre do PS ou do PSD (sozinhos, coligados, ou em coligação com o CDS). Foi, portanto, em 2015 que, pela primeira vez, partidos não democráticos entraram na esfera do poder. Nessa altura, muitos analistas consideram esse movimento de António Costa como um "golpe" perigoso, que o país pagaria caro. Hoje, passados seis anos, estamos a sofrer na pele as consequências desse golpe.

Em 2019, quatro anos volvidos sobre o golpe, era já evidente a ausência de estratégia, a falta de resultados e a incompetência do PS para governar o país, aliado aos seus novos parceiros. A pandemia de 2020, no entanto, colocou tudo em suspenso, e durante estes últimos dois anos houve apenas um assunto que concentrou todas as energias do governo e da sociedade: a pandemia e a gestão do medo do vírus Covid-19.

Terminada a pandemia, que coincidiu temporalmente com as eleições autárquicas, todo o fracasso deste governo contranatura, ficou por demais evidente. Como escreveu João Miguel Tavares no seu artigo de sábado no Público, "o dique rebentou e a enxurrada não para de abrir telejornais". São demissões nos hospitais, professores por colocar, manuais por entregar, comboios e barcos parados, greves em todos os cantos, preços da energia a disparar, etc., etc... Parece que de repente a sociedade acordou para o caos em que vive. Esta insatisfação generalizada teve já um primeiro reflexo nos resultados das eleições autárquicas, em que o partido do poder, e os seus aliados extremistas, sofreram pesadas derrotas (face às expectativas, no caso do PS, e derrotas evidentes em votos e mandatos nos casos do PCP e BE). 

Na última semana, três acontecimentos mostraram que estamos mesmo perante uma mudança de ciclo político, como alguns anteciparam. O primeiro é a forma como todos os partidos têm gerido as negociações para o orçamento de 2022. Ao contrário da negociação fácil que se antecipava, a situação é a de perigo de chumbo do orçamento, com PCP e BE a "esticarem a corda".

Marcelo perdeu-se nas suas múltiplas e desesperadas declarações (às vezes mais que uma por dia), e com a ameaça de dissolução do Parlamento caso os partidos não se entendam e chumbem o orçamento. No entanto, ninguém parece querer eleições (eventualmente com a excepção de Costa, mas, mesmo ele, atrever-se-á a correr esse risco?).

O segundo acontecimento foi o artigo de Cavaco Silva no Expresso da semana passada. O ex-PR agitou as águas ao revelar, de uma forma certeira, o triste estado do país no empobrecimento, na decadência das instituições, e na ausência de uma oposição eficaz.

O terceiro acontecimento, relacionado com os anteriores, foi o anúncio da candidatura de Paulo Rangel à liderança do PSD.

Na passada sexta-feira (e depois de uns episódios rocambolescos no Conselho Nacional do dia anterior), Rangel apresentou formalmente a sua candidatura à liderança do partido, com um discurso brilhante. Tendo já aparentemente o apoio de grande parte do partido, Rangel propõe uma agenda para o país, centrada na oportunidade de mobilidade social, que esteve ausente nos últimos vinte anos.

Propõe unir todas as forças não-socialistas no designo necessário de libertar a sociedade civil da asfixia estatal para onde o PS o empurrou com o apoio dos dois partidos de extrema-esquerda radical, com resultados desastrosos. Propõe "abertura, alternativa e esperança", como afirmam várias figuras do partido num outro artigo publicado ontem. Numa palavra, o que Paulo Rangel nos propõe é libertar o país e a sociedade do golpe de 2015.

Fica MAL 👎

Segundo as notícias desta semana, o ex-banqueiro em fuga João Rendeiro mudou de advogado, que agora é o secretário-geral da Antram, que por sua vez é presidida pelo pai do motorista (conhecido por "rei dos taxis"), que por sua vez comprou o apartamento onde agora vive a mulher do ex-banqueiro, que por sua vez mostrou à Justiça as obras de arte que tinha em sua casa, sendo que 15 delas eram falsificadas, mas que entretanto algumas dessas 15 já foram encontrados os respectivos originais na garagem...

Se não é uma novela mexicana, parece. Aguardam-se os próximos episódios.

Fica BEM 👍

Miguel Pinto Luz. Um dirigente do PSD que já há uns anos se apresentou como candidato a líder do partido, escolheu um bom timming para apresentação do seu último livro "Voltar a Acreditar na Política". Nesse evento estiveram reunidos, e sentados lado a lado, Carlos Moedas, que hoje toma posse como Presidente da Câmara de Lisboa, Paulo Rangel, provável candidato a primeiro-ministro, e Pedro Passos Coelho, possível e desejável candidato a Presidente da República.

Título e Texto: Mário Florentino, Benfica, 11 de outubro de 2021

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