terça-feira, 26 de outubro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Dependente compul-impulsivo

Aparecido Raimundo de Souza 

NÃO SEI QUAIS os motivos, mas o fato concreto e verdadeiro é que fumo desesperadamente. Meus familiares costumam dizer que ‘como o vício com arroz e feijão’. Até certo ponto, é verdade. Devoro com farinha e cerveja, batatas fritas e salada de alface. Longe deste patamar, tudo não passa de brincadeira. Meus pares inventam, aumentam. Na real, não sou nervoso, não tenho tiques paranóicos, não bebo café, com coca-cola, nem entro ou saio do armário quando vejo baratas andando pela casa. Apenas fumo igual um desmiolado. Cinco carteiras, por dia, ou mais, uma média de cem cigarros, claro, sem contar os que tomo dos conhecidos, nos encontros e esbarrões, pelas ruas da vida. 

Por conta, consumo muitos fósforos de fricção, ou sejam, aqueles palitinhos curtos e finos, de madeira, que carecem de uma lixa na parte externa a base de dextrina e trissulfeto de antimônio II. Se alguém do meu convívio se desse ao trabalho de colocar um palito atrás do outro, em fila indiana, daria umas boas voltas ao redor do mundo. Por conta dos cigarros e dos palitos, guardo, em casa, um amontoado de receptáculos vazios. O porteiro do prédio onde resido, vive dizendo que se eu levar meu saco de caixinhas a uma dessas instituições de caridade, consigo trocar as embalagens por uma cadeira de rodas para um cadeirante. 

O fato é que fumar em excesso está provocando, em meus pés, uma azia dos diabos, além de contribuir, para que a cirrose hepática aumente assustadoramente no funcionamento dos meus órgãos genitais. Dizem, os médicos, que o sujeito que fuma, está se expondo ao câncer. Quem para de fumar, se expõe a uma espécie de fungo burguês irreversível, que ataca os olhos, e, na maioria das vezes, deixa a pessoa completamente surda dos intestinos. Entre ficar surdo, por ter parado de fumar, prefiro provocar, por mais algum tempo, o tal do câncer e não deixar os pulmões morrerem, até porque, se isto acontecer, acabarei numa casa de recuperação para viciados, essas arapucas tipo sanatórios para doentes mentais irrecuperáveis. 

Cruz em Credo, três vezes! Mas a coisa não está totalmente perdida. Ainda resta uma janela a ser aberta. Acredito, muito em breve, poder me livrar deste vício nojento, e, creio mesmo, neste começo de semana. Um amigo comum, me mandou, pelo correio, nesta sexta-feira, um cinzeiro antitabagista que comprou, às dúzias, quando esteve em um mercado de bugigangas em Changhai. Segundo informações preliminares, quem tem em casa um desses cinzeiros mágicos, ao acender um cigarro, leva um pito, ou dito de forma mais formal, toma um esporro em quatro idiomas distintos: inglês, francês, hebraico e, obviamente, na lingua pátria, o chinês. 

Se for verdade, assim que a encomenda chegar, devo esperar que algum conhecido entendido numa dessas línguas faça a devida tradução do fabricante, para que eu possa, finalmente, usufruir cem por cento do fabuloso invento. Uma outra coisa, todavia, me deixou preocupado, além da questão de ler a bula com as instruções na íntegra. Meu amigo disse, por telefone, que preciso, pelo menos, adquirir umas dez peças (a primeira que me está enviando é  brinde), já que, ao tentar  levar um cigarro à boca, logo ao tirar a caixa de fósforos, ou o isqueiro, de um compartimento especial que vem acoplado, uma célula fotoelétrica disparará um dispositivo sonoro bastante irritante. Mais enervante que a voz de Lula querendo provar que não é Ladrão de casaca e nunca teve parentesco com Arsène Lupin. 

Em seguida, vem o sermão: entra em cena um sujeito chinês, vestido à rigor, com voz de taquara rachada chamando, no saco. E tome esporro. Não há como desligar a geringonça, depois de acionada. Assim, a necessidade de mais de uma peça, pois na manifestação física de dar uma tragada, e, nervoso, pelo esbregue, o camarada, por mais calmo e tranquilo, acabará por perder o bom senso, o controle, a paciência, mandar a chata da Ana Maria Braga para os quintos e arremessar o cinzeiro, com força, contra a parede, ou pela janela, ou, ainda, na cabeça de algum engraçadinho que estiver por perto. 

Em paralelo, leio nos jornais, que uma nova safra de cigarros está invadindo o mercado. Imaginem: cigarros com sabor de carne de boi, de galinha caipira, de queijo ralado, parmesão, bacon, cebola, hortelã e calabresa. Algumas marcas mais caras  estão disponíveis nas lojas especializadas com piteiras de filtros especiais nos sabores champanhe, cachaça da boa, vinho tinto (tipo os usados pelos miSInistros do STF) e whisky assinados com as canetadas de Alebixandre de Moraes. Segundo matéria publicada, dias atrás, num jornal de circulação nacional, Stuart Stechimarron um americano residente em Washington, alegou que ‘a culpa de provocar doenças sérias nos usuários são os fabricantes de patentes  baratas, que  despejam, no varejo, produtos com supostos filtros especiais, todavia, não retém devidamente as substâncias tóxicas nocivas aos seres humanos, de um modo geral’. 

Isto faz, a bem da verdade, com que o fumo aumente a dependência no corpo da criatura, sem levar em conta que, cada fumante, é um tabagista imbecil com cara de nicotinista babaca em potencial metido a espertalhão e malandro. Diante do exposto, devo esperar pelo pacote que me foi enviado pelo amigo, de São Paulo. Uma vez recebido, pretendo colocar o cinzeiro que ele trouxe da China, em evidência, o mais rápido possível. Ou paro de fumar, ou entro em depressão profunda. Cada cigarro que deixar de lado, neste exato momento, aumentará a tensão menstrual em meu corpo. Posso passar, por conseguinte, a ter corrimentos estomacais no traseiro e perturbações mentais noturnas e sonhar com extraterrestres ou ter alucinações bestiais, quem sabe, me ver rodeado com criaturas usando cuecas anti-peidos, e absorventes para sovacos malcheirosos e catinguentos... 

Ou, por outra, no pior dos mundos, acreditar que a Thammy, filha da Gretchen, virou macho de verdade e que estão disponíveis, no mercado, sapatos movidos à energia eólica. Pelo sim, pelo não, mais pelo não, que pelo sim, enquanto o troçinho não chega, devo pensar em acalmar o estresse.  Opa, acabo de me lembrar: está na hora de acender um novo cigarro. Dependente compulsivo, eu? Negativo! Dependente compulsivo é o cigarro que não fica quieto no maço, só fecha o bico e se acalma, se estiver aceso, bailando, presunçoso, num dos cantos dos meus lábios com gosto gostoso do mais puro mel. Mel?!  De que ‘melda’, afinal, estou falando? Não tenho nenhum parentesco, nem de longe, nem de perto com abelhas!... 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Sítio Shangri-La, divisa do Espírito Santo com Minas Gerais. 26-10-2021 

Colunas anteriores: 
Monopólio de relacionamentos secretos 
Insossa 
Mal súbito 
Gatos espelhados versus jacarés famintos 
Como portal para outra dimensão 
Hora do rush 
[Aparecido rasga o verbo] Pivô Três por quatro 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-