sexta-feira, 1 de outubro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Pivô

Aparecido Raimundo de Souza 

RODRIGO COMPLETARIA
seis anos de casado. Para comemorar o evento, programou uma festinha íntima: só parentes e amigos mais chegados. O encontro aconteceria no domingo, na casa dos sogros, os
  pais de Laura, a esposa, com quem tinha dois filhos: Thiago, o caçula, de três anos, e Luciana, de cinco. Durante a semana, a dupla ficou por conta dos preparativos. Carne para o churrasco, carvão, bebidas, convites, refrigerantes, além dos docinhos e salgadinhos, o que seria servido no almoço, na sobremesa... enfim, tudo precisava estar nos conformes, nos mínimos detalhes. E, assim, foram vistos, revistos e repassados, cada etapa, para dar certo e a comemoração se tornar inesquecível e marcar o momento, para sempre. E, de fato, marcou.

De fato, no domingo, a casa se apinhou de encômios e júbilos exultantes. Tinha gente saindo pelo ladrão. O Rodrigo e a Laura não contavam com um número tão expressivo de amigos e amigas que pintaram, de última hora, tanto da sua parte como das relações da esposa. Até um tio que residia nos cafundós do interior de Minas Gerais resolveu dar os ares da graça, trazendo, a tiracolo, a família. Telefonou confirmando a presença. Não deu para trás. Viajou mais de oito horas e chegou logo depois das cinco da tarde. Quando a buzina do seu carro soou forte e, em seguida a campainha, Rodrigo pediu licença à turba animada e se dirigiu à porta principal para receber os ilustres convidados.
— Tio Léo, quanto tempo?
Em meio a desenfreada aglomeração dos tresloucados, tio e sobrinho trocaram fortes e fraternos abraços.
— Espera ai, cadê a tia?

— Ficou para traz tirando os seus presentes do carro.
— Presentes, tio?
— Claro, trouxemos três. O nosso e o de sua prima Keylla. Acaso você se esqueceu dela?
— Meu Deus, tio, faz tanto tempo que não nos vemos...
— Exatamente meu caro sobrinho. Dezoito anos. Na derradeira vez, a Keylla contava apenas doze e, você, quinze!
Mal acabara de pronunciar estas palavras, surgiu, na varanda, à tia Helena, cheia de bolsas e, atrás dela, Keylla, a prima.
Rodrigo se abriu num sorriso grandioso e correu para saudar a velha tia.
— Tia Helena! Que prazer em revê-la.

— Você continua um gato. Aliás mais bonito até que da última vez em que te dei a benção. Lembra da Keylla?
Rodrigo então desviou os olhos para a prima. Neste momento o céu desabou sobre a sua cabeça. Literalmente. Ele se deparou com uma figura fascinante e inimitável. Uma menina ingênua que se tornou mais bela, à medida em que os seus pensamentos e lembranças iam despindo cada centímetro do seu corpo escultural. Rodrigo pensou, de repente, estar diante de uma fada madrinha, caída de algum lugar do espaço. Nossa! Aquele mulherão que estava ali, bem diante do seu nariz, carregava uma formosura estonteante. Keylla, a prima distante, agora aos trinta, destoava de tudo o que estava acostumado a ver em reuniões daquela natureza. A moça, por seu turno, parecia, na verdade, um diamante brilhando entre cascalhos e pedregulhos.

Seus olhos de um azul muito forte, vistos de perto, se tornaram fascinantes: uma tonalidade suave de azul-esverdeado, circundava por um halo mais escuro. Lembrava safiras, com incríveis dourados no meio. Para completar a magia, os cílios longos e espessos, as sobrancelhas delicadamente arqueadas. Havia uma pintinha minúscula, quase imperceptível, pouco acima do lábio superior esquerdo, tornando a boca sensual ainda mais provocante. Apesar do símbolo de pureza e inocência que o vestido longo e branco insinuava, deixando entrever a calcinha minúscula abaixo do umbigo, fazia emanar, de dentro de si, uma sensualidade sutil e natural, capaz de despertar o interesse mais básico de qualquer homem menos atento para as delícias do amor.

Mesmo passo, parecia que ela não tinha consciência do efeito que passou a exercer a partir daqueles segundos sobre o primo Ricardo. Nenhum dos dois, verdade seja dita, fez absolutamente alguma coisa ou gesto, para se mostrar. Nenhum deles provocou, nem flertou para atrair a atenção. Também não precisava. Não carecia. A mãe natureza abençoara, de pronto, aquele longo interrégno e se sentia feliz por vê-los, de novo, na mesma sintonia. Keylla possuía uma performance perfeita, incontestável, além de uma vibração muito forte que se irradiava naturalmente por todo o seu entorno.
— Puxa! Como você está linda!...
— E como você se transformou num pedaço de mau caminho...!
— É você mesma, prima, ou os meus sentidos estão me enganando?
— Veja por você mesmo. Venha cá...

Do nada, Ricardo foi. Se sentiu ridículo por não saber o que responder à bela. Como um felizardo que houvesse descoberto um tesouro escondido, em uma ilha deserta e tivesse medo de contar o segredo à alguém, não pensou duas vezes. Obedeceu sem esperar segunda ordem. Pulou no pescoço da graciosa e a envolveu com uma ternura antiga, uma afeição adormecida, uma brandura repletada de uma maviosidade que não precisava de palavras. Laura, a esposa, neste exato momento, surgiu do nada, entremeada entre o furdunço de cabeças da galera que gritava e algazarriava atabalhoadamente. Ao lado dela, os filhos Thiago e Luciana. No amplexo demorado e aderente que trocaram, nas carícias que permutaram, frente aos demais, um impasse criou vida e forma.

Laura se sentiu pequena, diminuida, vazia, traída, humilhada e, pior, amedrontada pelo negror de um passado que, bem sabia, sempre estivera vivo e pulsante. Sabia da antiga paixão de seu marido pela prima. Um “primeiro amor” como um ecúleo flagelo que nenhum dos dois conseguira arrancar de dentro da alma. Tomou uma decisão extrema e merencória. Sem que ninguém percebesse (e, de fato, ninguém se deu conta) se afastou dos filhos, e sem dizer uma palavra, caminhou ligeira, para à saída, o peito arfando em grito silente, todavia esbagaçado e aflito. De lá, sem que vivalma desse por sua ausência, ganhou a calçada da rua e, desde este ocorrido, nunca mais foi vista.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. Da cidade de Aracruz, no Espírito Santo. 1-1-2021

Colunas anteriores: 

Um comentário:

  1. A Laura agiu certo. Viu que estava ou que ficaria para escanteio, tirou o time de campo. Chutou o pau da barraca. A mulher deve saber a hora certa de sair de cena, sem se rebaixar para quem não a merece.
    Carina Bratt
    Ca
    de Aracruz, no Espírito Santo.

    ResponderExcluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-