sexta-feira, 24 de setembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Na cumeeira do telhado

Aparecido Raimundo de Souza

EPARMINONDAZINHO RESOLVEU
mandar bilhetinhos para Luluzinha, a menina mais bonita da sala. Aliás, não só da sala. Da escola inteira, da rua e do bairro onde moravam. Ele paquerava com ela onde desse pé. Nos corredores, na hora do recreio, na entrada e na saída, na porta do banheiro, na cantina, no instante em que ela se sentava reservadamente para falar ao telefone celular com a mãe. Embora nunca tivessem permutado um toque de mãos, ou um beijinho, o menino insistia em espalhar para seus amiguinhos que ela era a sua namoradinha oficial.

Luluzinha sabia de tais conversas. Não dizia nem sim, nem não, não confirmava, nem desconfirmava. Simplesmente aceitava, de bom grado os olhares compridos, as espiadelas carinhosas e brejeiras pelos corredores. Se sentia lisonjeada e saltitante. Quando as amigas próximas vinham tirar satisfações, saia com elegância estudada, fugia pela tangente, sorria, mudava de assunto. Eparminondazinho, com o passar do tempo, resolveu usar uma tática diferente, com a princesa que povoava seu mundinho vazio e carente, desejoso, todavia, daquela bonequinha charmosa.

Extremamene tímido e pessimista, sempre que queria dizer alguma coisa à adorável, fazia um bilhetinho, ou melhor, compunha um versinho e mandava entregar diretamente em mãos da sua doce amada. O escolhido, não outro, senão o Dirceu, um garoto cadeirante que dava todo apoio ao colega que torcia pelos pombinhos de forma incondicional. Nesse tom de romance solto por todos os poros, logo que a donzela atravessava o portão da escola, o piá chamava o Dirceu. Um dia se excedeu. Foi mais longe. Na emoção, escreveu:
...Você que amo tanto,
Sei não quer me escutar...
para aumentar o meu encanto,
só me falta te beijar...

Luluzinha, de antemão, tinha pleno conhecimento que bastava o Eparminondazinho vê-la em algum lugar dentro das dependências do estabelecimento de ensino, logo a seguir seria procurada pelo Dirceu. Curiosa, ela lia com a rapidez que atropelava a sua alma em festa e respondia, em seguida, igualmente da mesma forma. Aproveitava a boa vontade do coleguinha que se prestava a se fazer de arauto e a esperar para devolver a réplica. Luluzinha se baseava no gancho das palavras que o ‘apaixonado’ lhe endereçava. Num deles, ousou:
...Sem querer te ofender,
Fale o que pensa, de frente.
Caso contrário irá perder,
O meu amor muito ‘eloquente...’.

Eparminondazinho, neste dia, com o sabor adocicado da imediata e inesperada resposta, se abarrotou de alegria. Ficou eufórico. Manhã seguinte foi o primeiro a chegar e o primeiro a entrar em sala. Endereçou uma rápida olhadela à Luluzinha (quatro carteiras atrás da sua) que não desviou às vistas e se manteve firme à fitá-lo. Sem se desfazer do sorriso que bailava em seu rosto, o moleque se acomodou e abriu o caderno. De dentro, em meio às folhas, sacou um papel de guardanapo. E lá, de novo, os acuros do porta-voz Dirceu, na sua barulhenta cadeira de rodas.

Desta feita, o emissário retornou ligeiro e entregou à Eparminondazinho o que ela escrevera com uma emoção diferente e uma tremura nunca vista em suas mãos. Ao findar a aula, ele mesmo resolveu seguir por um caminho diferente. Levantou, catou as suas coisas e, antes de deixar o recinto, se dirigiu à jovenzinha. Sem pensar duas vezes, lhe atirou o bilhetinho. Saiu correndo, estabanado, o coração quase a lhe saltar do peito. Luluzinha, ato contínuo leu, devorou cada palavrinha com um misto de satisfação a lhe inundar o sembrante:
...Se seu amor é ‘eloquente?’.
o meu ha muito pegou fogo...
Você é o meu melhor presente
Em breve farei de seu pai, meu sogro!...

Luluzinha leu e releu e se sentiu imensamente feliz. Mais que feliz. Amada, admirada, querida. Pretendia dizer algo ao moleque, mas não o fez porque ele chegou ligeiro, atirou o papel no colo dela, e, no mesmo pique, saiu em desabalada carreira. Aline e Sandrinha, duas bisbilhoteiras que sentavam lá nos fundos, marcavam em cima. E não foi igual neste dia. Não deram espaço de Luluzinha raciocinar. A mocinha só teve tempo de esconder o papel.
—- E ai, ta rolando um clima —-, perguntou, de chofre a Aline?

Luluzinha se fez de boba.
—- Rolando? Rolando um clima? Que clima, Aline?
—- Você sabe. Não se faça de besta...
—- Não estou me fazendo...
—- Então está fazendo a nós —, berrou a Sandrinha. Pensa que já não sacamos que rodopia, à solta, no ar, uma paquera entre você e o Eparminondazinho?
—- Eparminondazinho, aquele chato? —- desdenhou fingindo não ter entendido onde ambas queriam chegar.

—- Chato de verdade, amiga — voltou à carga a Aline? Cadê o bilhetinho que ele acabou de jogar pra você?
—- Não era nenhum bilhetinho...
—- O que, então —-, completou Sandrinha? Um sorvete de chocolate?
—- Desde quando eu tenho que dar satisfações à vocês, uma dupla de mal amadas?
—- Somos amigas ou não?
—- Neste caso, acho que se enganaram. As minhas melhores amigas, sou eu mesma e a minha querida sombra...
Sem dar mais trela às fofoqueiras, Luluzinha virou as costas e foi embora.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 24-9-2021

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