segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Entenda de onde vem a tradição de dar doces no Dia de Cosme e Damião

Santos católicos estão associados a orixás da umbanda e candomblé

Beatriz Albuquerque

Quando falamos em São Cosme e São Damião lembramos, na hora, da tradição de distribuir doces para as crianças no dia 27 de setembro. Na família da jornalista Aline Monteiro, isso acontece há muitos anos. A mãe fez uma promessa a esses santos pela saúde dos filhos e, desde então, oferece guloseimas para os pequenos no mês de setembro. A promessa acabou e Aline ainda vai para rua dar continuidade à tradição que a mãe começou anos atrás.

"Hoje em dia já não é mais a promessa, mas a gente continua a tradição. Acredito que mais em agradecimento, à perpetuação, à repercussão da fé que continua. E claro, pedindo mais e mais saúde", conta Aline.

Mas você sabe como começou esse hábito? Ou até mesmo quem foram esses santos para quem tantas pessoas fazem promessas?

O professor Agnaldo Cuoco Portugal, do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB), explicou que, na religião católica, Cosme e Damião eram dois irmãos gêmeos, considerados curandeiros - médicos na comunidade onde viviam.

Para o catolicismo, não havia nenhuma ligação entre os irmãos e as crianças ou a distribuição de doces. Essa prática veio da associação que os escravos fizeram de Cosme e Damião a orixás da umbanda e do candomblé: os Ibejis, filhos gêmeos de Xangô e Iansã.

O professor explicou que, como havia muita repressão na época da escravidão no Brasil aos cultos africanos, os negros precisavam adorar suas divindades sempre associando a algum santo católico. E foi isso que aconteceu com são Cosme e são Damião.

"Naquela época, os escravos africanos não tinham a possibilidade de cultuar os seus orixás, as suas divindades livremente. Eles tinham que fazer essa associação com alguns santos católicos, pra não serem perseguidos. A tradição de dar doces tem a ver com esses dois orixás crianças que foram associados a Cosme e Damião", explica o professor.

Agnaldo Cuoco disse ainda que muitas dos nossos costumes hoje têm relação com a religião, que é um traço muito marcante no Brasil. Locais sagrados, festas e tradições estão sempre muito ligadas a uma história religiosa.

"A religião tem um papel de raiz, de fonte de vários elementos da cultura. Permite a você marcar o dia, por exemplo. Esse dia especial, que está ligado a tal coisa. Ou os lugares, tal lugar é especial, é um templo, é uma catedral, é um terreiro, é uma casa de santo. Então, a religião está ligada à cultura de diversas maneiras", resume o professor.

Em 1969, a religião católica alterou o dia de são Cosme e são Damião para o dia 26 de setembro para não chocar com a data que se celebra são Vicente de Paula. Mas, pela tradição, a maioria das pessoas ainda comemora no dia 27.

Título e Texto: Beatriz Albuquerque; Edição: Leila dos Santos, Nathália Mendes e Denise GriesingerAgência Brasil, 27-9-2021, 10h10 


São Cosme e Damião: A deliciosa tradição que segue viva no coração dos cariocas

Ainda com as restrições da pandemia, o Rio vai aos poucos resgatando um de seus costumes mais genuínos, o Dia de São Cosme e Damião

Altair Alves

O Dia de São Cosme e Damião, uma das datas mais doces do ano (péssimo trocadilho), acontece nesta segunda (27/09, embora o dia certo dos santos seja 26 de setembro) ainda cercada de incertezas por conta da pandemia da Covid-19. Em setembro passado, o que se viu foi uma tímida movimentação pelas ruas, com a adoção de medidas mais rígidas de isolamento naquela época. Já esse ano, com o avanço da vacinação, é bem provável que tenhamos um fluxo muito maior de mães, pais e filhos correndo em busca do tão sonhado saquinho de doce e mantendo acessa a chama dessa tradição que sobrevive em solo carioca de forma mais intensa, seja dos muitos que amam e de alguns malas que odeiam.

Mesmo com 99% da população adulta imunizada com a primeira dose, é preciso tomar certos cuidados, as crianças ainda não têm uma vacina aprovada pelos órgãos competentes que as previna do coronavírus, e alguns protocolos de segurança, como distanciamento e uso de máscara ainda são extremamente importantes, mas é pouco provável que não vejamos cenas de crianças com suspiros, doce de abóbora, maria mole, entre tantos outros quitutes típicos dessa época do ano.

Na Capital Fluminense, a distribuição do icônico saquinho de doce com a imagem dos santos ocorre com mais frequência nas Zonas Norte e Oeste, o subúrbio do Rio alimenta essa tradição que mesmo diante da crise sanitária insiste em se manter tão relevante, passando de pais para filhos e de filhos para netos. Aos mais velhos, que se veem impossibilitados de correrem atrás das guloseimas (como este que vos escreve), fica sempre aquele sentimento de “inveja” das crianças, mesmo com todas as dificuldades impostas.

Ainda existe a concorrência dos tempos modernos, onde os celulares, tablets e computadores, cada vez mais tecnológicos e com mais opções de entretenimento, ocupam boa parte do tempo dos pequenos. Diante desse cenário, onde equipamentos sofisticados e uma pandemia sem precedentes impedem a celebração do Dia de São Cosme e Damião em sua plenitude, podemos afirmar que comemorar o dia dos santos, seja indo em busca de doces ou demonstrando sua devoção, é um ato de resistência.

História da dupla de santos e origem da distribuição de doces

Irmãos gêmeos, médicos, que atendiam a população sem cobrar qualquer tipo de pagamento, Cosme e Damião são santos com devoções bem antigas e que furam a bolha da Igreja Católica, muito em função da tradição da entrega de doces para as crianças.

São Cosme e Damião morreram por volta de 300 a.C. e, por terem exercido a medicina sem cobrar por isso, viraram santos. Eles davam balas para as crianças doentes, com o intuito de amenizar o sofrimento. Daí, surgiu a tradição das religiões de matrizes africanas de distribuir de doces, celebrando a alegria e a inocência das crianças.

Para os católicos, São Cosme e São Damião são os padroeiros dos farmacêuticos. Já em religiões de matrizes africanas, algumas imagens de Cosme e Damião têm uma terceira criança menor entre os gêmeos. Trata-se do Doum. Várias lendas explicam que eles eram trigêmeos, e que com a morte de Doum, os outros irmãos se tornaram médicos para curar a todas as crianças, sempre de forma gratuita. Doum é considerado o protetor das crianças até sete anos de idade. Cosme, Damião e Doum representam os três.

Viva São Cosme e Damião!

Título e Texto: Altair Alves, Diário do Rio, 27-9-2021

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