sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Costa não está bem

Costa e outros responsáveis políticos do Governo e do PS interiorizaram uma ideia de impunidade, de que são os ‘donos disto tudo’, que podem dizer tudo, fazer tudo, e os outros têm de se agachar perante o seu poder.

José António Saraiva

Eu via e não acreditava. António Costa, muito exaltado, muito inflamado, muito suado, vociferava contra o encerramento da refinaria da Galp em Matosinhos, dizendo que era «difícil imaginar tanto disparate, tanta asneira, tanta irresponsabilidade, tanta falta de solidariedade, como aquela de que a Galp deu provas em Matosinhos». 

E ia mais longe dizendo esperar um castigo exemplar «para servir de lição» a outras empresas que queiram fazer o mesmo.

Houve quem dissesse que parecia Hugo Chávez; a mim fez-me lembrar Vasco Gonçalves em Almada no Verão Quente de 1975.

A mesma exaltação, a mesma arrogância, a mesma hostilidade à iniciativa privada.

Pensei: ‘António Costa não está bem!’

Confesso que já tinha ficado chocado há uns meses ao ouvir os ataques feitos por Pedro Nuno Santos à anterior administração da TAP e depois aos acionistas da Groundforce. 

Mas de Nuno Santos já esperamos tudo, após ter ameaçado com voz grossa os banqueiros alemães.

Agora António Costa é primeiro-ministro de um país da União Europeia, é o principal representante do Governo de um país democrático, que supostamente respeita a iniciativa privada e a sua autonomia.

Como poderia estar a falar daquela maneira?

Como podia atacar tão violentamente uma empresa?

Como podia negar-lhe a possibilidade de fazer as suas opções estratégicas?

Mais: como podia ter-se esquecido do que dissera há poucos meses, em maio, quando, embora lamentando os despedimentos, apontou o encerramento da refinaria como «um enorme contributo para a redução de CO2», elogiando implicitamente a administração da empresa pela sua sensibilidade às questões ambientais.

Agora, António Costa chamava ‘irresponsável’ e ‘insensível’ à mesma administração.

Seria isto normal? 

Julgo que o poder subiu doentiamente à cabeça de António Costa.

Há vários casos assim. 

E talvez a pandemia tenha contribuído para isso.

A facilidade com que o Governo dava ordens e toda a gente obedecia sem protestar, mesmo quando as ordens eram tão severas como a proibição de as pessoas saírem de casa, talvez tenha dado ao primeiro-ministro (e a outros governantes) essa ideia de ‘posso, quero e mando’.

O Governo manda, as pessoas obedecem, ponto final. 

Costa e outros responsáveis políticos do Governo e do PS interiorizaram uma ideia de impunidade, de que são os ‘donos disto tudo’, que podem dizer tudo, fazer tudo, e os outros têm de se agachar perante o seu poder. 

Exemplos destes de arrogância por parte de ministros e do primeiro-ministro têm sido inúmeros nos últimos meses.

Isso também explica o facto de António Costa andar por todo o país, feito vendilhão de feira, a fazer descabeladamente promessas a toda a gente, sem se aperceber da anormalidade da situação. 

Costa acha perfeitamente normal vestir de manhã o fato e a gravata e ir despachar para S. Bento – e à tarde despir o casaco, tirar a gravata, subir para cima de um palco e gritar, atacar os adversários, prometer mundos e fundos. 

Assinar contratos com as câmaras municipais que ultrapassam em muito as verbas de que o Governo dispõe para o efeito.

E pior do que tudo, fazer promessas com dinheiros da bazuca como se estivesse a oferecer dinheiro do seu bolso. 

Como se o dinheiro fosse seu.

Trata-se de outro sinal de que Costa não está bem.

Como é possível não ver que, como primeiro-ministro e em pleno período eleitoral, não deveria fazer propaganda a favor de um partido com base em dinheiros públicos? 

Dir-se-á que foi sempre assim.

Que o partido que está no poder faz sempre isso.

Não me lembro.

Não me lembro de ver um primeiro-ministro em campanha eleitoral para as autárquicas a fazer tantas promessas para o futuro, tão abertamente, tão descaradamente.

Um primeiro-ministro que em vez de se limitar a falar da obra feita, de elogiar os autarcas pelo seu trabalho, promete uma linha de comboio aqui, uma maternidade ali, um centro de saúde acolá.

Tudo, repito, com dinheiro que não é dele.

Que não lhe pertence. 

Criticou-se a ministra da Saúde por ir a uma ação de campanha com o carro do Estado.

Ora, Costa faz muito pior: usa o dinheiro do Estado para fazer campanha eleitoral a favor de um partido político. 

Usar a ‘bazuca’ para propagandear os candidatos do PS.

Só uma pessoa perturbada pode não ver a perversidade da situação. 

Título e Texto: José António Saraiva, Nascer do SOL, 24-9-2021

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