terça-feira, 21 de setembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Complicações do primeiro dia

Aparecido Raimundo de Souza

SEGUNDA-FEIRA.
Estreia do trabalho da Cida, no consultório do Doutor Gaspar, ginecologista. Pelo celular, a sua voz se faz ouvir. Ele pede à ela, que vá até a sua sala e apanhe um rolo de papel sanitário que esqueceu sobre a mesa. Procurando de todas as maneiras possíveis ser gentil e prestativa, Cida se levanta da cadeira onde está sentada, na recepção, pede licença às duas pessoas que esperam pelo especialista e entra, quase que aos tropeções, na ampla peça onde fica seu chefe.
— Cida — grita o homem de dentro do banheiro. Por favor, tem gente aí fora me esperando...

A jovem dá uma rápida olhadela sobre a mesa indicada e não atina com o que o clínico precisa.
— Cida — , volta a berrar o homem. Cadê você?
— Doutor Gaspar, não estou conseguindo encontrar...
— Não é possível. Veja nas gavetas...
Ela obedece. Necessita ser solícita e gentil. Afinal, emprego, nesses dias complicados está cada vez mais penoso. O galeno, contudo, parece apressado. De maneira ríspida e feroz volta à atacar.
— Encontrou, sua lesma? Dá para ser mais rápida?

— Não, doutor. Acho que estou sem sorte, hoje. Desculpe, é meu primeiro dia. O senhor tem certeza de que não colocou em outro lugar? Talvez na estante!...
— Recordo ter esquecido aí em cima da mesa, dentro de uma sacola, com o nome do supermercado, assim que cheguei hoje de manhã. Olhou perto do computador?
— Acho que o senhor se enganou...
— Vasculhou as gavetas?
— Uma por uma. Posso mexer na estante?
— Deveria ter feito sem eu precisar mandar, sua incompetente. Depressa. Estou ficando com as pernas dormentes.

Cida fecha as gavetas e passa para a tal estante. Escancara tudo o que tem direito e nada. Nenhum rolo de papel sanitário à vista.
— E aí, Cida? Pelo amor de Deus! É para hoje?
Toca o interfone.
— Atende, Cida.
Ela obedece.
— Pois não?
— Cadê a garota da recepção?
— Sou eu. Quem é a senhora?
— Como, quem sou eu? Você falou comigo não tem dois minutos.

— Aguarde meu retorno, por gentileza.
— Que fim levou o doutor? Você disse que ele falaria comigo em quinze minutos, no máximo vinte. Estou aqui, sentada, faz bem uma meia hora. Talvez mais. Que é que está havendo?
— Querida —, perdão —, senhora, não consigo atinar com o papel.
— Papel? Que papel? Você pegou o meu prontuário no arquivo. Passou, inclusive, ao doutor. Que história é essa, agora, de que não encontra o papel?!
A outra paciente pega o telefone e entra na linha, mais furiosa que a primeira.

— Hei você, me dê notícias do Doutor Gaspar. Cheguei antes da hora marcada. Você sabe disso e, até agora, nada.
Cida entra em pânico. Tenta, contudo, manter a calma e a serenidade.
— Por favor, senhora. Tenha um pouco mais de paciência. O Doutor Gaspar logo atenderá vocês.
— Que diabo ele está fazendo? Você nos disse, ainda a pouco, que não havia ninguém ai dentro. Por que a demora?
— O seu Gaspar... digo o doutor Gaspar... está no banheiro, senhora.

— Acaso, logo hoje, resolveu cagar um feixe de pregos? Olhe as horas...
O irrequieto doutor Gaspar, nessa altura e falando com alguém numa ligação, troveja emputecido da vida. Acomodado no vaso do banheiro volta à encrespar com a Cida. Apavorada, a pobre desliga o interfone.
— Senhorita, poderia me dizer o que está se passando? Cadê o papel? Até quando vai me deixar aqui plantado, esperando pela sua boa vontade?
— Doutor, me ouça. Não consigo achar o tal rolo de papel higiênico. O senhor não quer que eu vá ao supermercado?
O asclépio, encolerizado e perdendo as estribeiras.
— Não, Cida, tem papel aí...

— Doutor, o senhor pode até ter trazido. Só que não o encontro.
— Diabos, eu comprei um rolo. Não estou maluco ainda, a ponto de não saber o que faço. Será que você é tão imbecil que não enxergou a porcaria do papel sanitário?
— Doutor, pelo amor de Deus, vasculhei tudo.
— Olhe com mais atenção: na minha mesa, ao lado do computador, ou nas gavetas, quem sabe na estante. Tem de estar em algum canto ai dentro..
O comunicador interno volta a dar sinais de impaciência.
— Pois não?

— Devolva o dinheiro que paguei pela consulta. Vou agora mesmo no consultório de outro ginecologista.
— Senhora, por favor, o doutor...
—... Já sei, já sei, está cagando. Vai ver o infeliz deu descarga e desceu pelo encanamento junto com a merda.
Cida se põe a chorar convulsivamente. Um tremor repentino toma conta de suas mãos. Deixa cair o telefone. Uma das mulheres que estavam na recepção, aguardando, invade o aposento, com a voz alterada. No encalço dela, a outra, igualmente braba e soltando uma série de impropérios.

Cida se descontrola.
— Não podem entrar aqui. Por favor, queiram aguardar até serem chamadas...
O doutor Gaspar, justo nesse momento, assoma na entrada do banheiro, telefone celular no ouvido, as calças arriadas e com tudo à mostra, literalmente.
— Cida, ô Cida, que diabos está acontecendo?
As duas pacientes se assustam e se escandalizam com o esculápio, a bunda e tudo o que tem direito de fora, o rosto da criatura vermelha como um tomate estragado.
— Veja, o Doutor Gaspar está com as partes pudentes à solta. Que falta de respeito... é o cúmulo do absurdo...
A outra mulher, vociferada, descarrega o veredito, soltando fogo pelas ventas.

— Vai ver estava dando um trato nessa ai. E agora finge estar no telefone. Vou agorinha mesmo reclamar no Conselho de Medicina. Que pouca vergonha!
Ambas, em contínuo, sacam seus aparelhos celulares e filmam o boquiaberto doutor Gaspar, que tenta se desculpar sem sucesso.
Cida, em meio desse furdunço cerrado se vê a um fio para desabar de vez. Aos prantos, os nervos em frangalhos, opta pela única chance que tem de sair viva daquele recinto. Sente que, se não cair fora, imediatamente, terá um chilique. Sai, então, desembestada, passando pelas duas, como um furacão, quase as derrubando. Sem ao menos lembrar de pegar a bolsa com seus pertences, deixa o doutor com os fundilhos sujos. Vasa feito um foguete e corre, espavorida, em socorro dos elevadores.

No corredor, tremendo e quase a ponto de ter, realmente, um piti, aperta os botões de ambos, feito uma destrambelhada. Antes que uma das cabines atenda aquele andar, ela resolve não esperar pela chegada. Mete as fuças e desce, correndo, pelas escadas de serviço, como se fugisse de algum ladrão que estivesse em seu encalço. Pulando os degraus, de dois em dois, no saguão frenteia com o porteiro, que a mede da cabeça aos pés, os olhos de puro espanto.
— Moça, a saída é por ali. Cadê o seu crachá? Moça, moça...
Sem responder à indagação do sujeito, Cida salta de qualquer jeito, por cima da roleta e deixa o edifício ganhando a calçada movimentada.

Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 21-9-2021

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