domingo, 26 de setembro de 2021

A genealogia do fanatismo

João Maurício Brás

Cioran, num admirável texto, A genealogia do fanatismo, explica o que sucede quando animamos as nossas ideias com os nossos delírios e estas se transformam em crenças que têm de se concretizar no tempo. Desse modo, surgem as ideologias e as doutrinas e se consumam as farsas sangrentas. As tentativas de realizar o céu na terra têm centenas de milhões de mortes no seu currículo.

Os piores episódios da nossa história, excetuando as catástrofes nacionais e as epidemias e pestes incontroláveis, são o resultado de ideias para salvar o homem. “[...] forcas, masmorras e condenados só prosperam à sombra de uma fé, - dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre. O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade.

Somos injustos com os Neros e com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas os sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático”.

Cada época com os seus salvadores apresenta-se sempre como a solução final, a derradeira palavra, o viático para a salvação, neste caso na terra. Estes salvadores não perdoam a rejeição das suas verdades e das suas excitações.

A eventual intransigência de um inquisidor dominicano não é menor do que a de uma ativista feminista do século XXI, ou de um movimento antirracista, de um vegan ou de um defensor dos animais.

A salvação desceu do céu para a terra e secularizou-se. As utopias caracterizam-se sempre como distopias, o assustador admirável mundo novo cega ao século XXI com um potencial científico e tecnológico único, o que torna tudo mais aterrador. Autores como Michel Houellebecq, George Orwell, Aldous Huxley, H. G. Wells, Yevgeny Zamyatin, ou J. G. Ballard traçam retratos factuais deste tempo.

O sonho de um novo humano e novo mundo tem ressonâncias nazis e comunistas. Ora, nada fazer perante o avanço das transformações forçadas do neoprogressismo, faz-nos recordar como certos acontecimentos hediondos germinaram no meio da indiferença e do silêncio, mas também do aplauso.

Sem as pessoas comuns, o homem do café, mas também o professor, o médico, o juiz, o merceeiro, os totalitarismos não teriam subsistido. É o nosso silêncio, a indiferença, o comodismo, a ausência de pensamento crítico que permitem que se instale qualquer ideologia, seja ela qual for.

No totalitarismo ocidental tudo está legislado, desde o que podemos dizer, pensar, comer e como tudo fazer e dizer para tornar a sociedade melhor. Desde pormenores como proibir a expressão “melhores amigos” nas escolas, por não ser inclusiva, até impor livros escolares certificados pela sua pureza ideológica.

É ideal não haver referências a características masculinas e ou femininas, resquício de uma opressão masculina que terá inventado a mulher e o homem atribuindo-lhes determinados papéis.

No códigos penais do século XXI, ressurgem crimes de expressão e de pensamento. A nova caça às bruxas não é uma ficção, existe e destrói vidas. As leis mudaram, as pessoas podem ser despedidas, condenadas pelo que pensam e dizem se dissidirem da doutrina oficial.

Os oficiantes e apologistas da dogmática oficial negam essa acusação, tudo é afinal para o nosso bem, protestam que só incomodam os culpados e zelam pela normalidade e a sanidade mental de todos. Os passos dos sistemas totalitários voltam a soar, estão a cuidar de nós, a repor a justiça.

Escrevia Cioran que lhe bastava ouvir alguém falar sinceramente de ideal, de futuro, ouvi-lo dizer “nós” com um tom de segurança, invocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considerasse não só um perigo, mas um inimigo.

É essa a matéria de que são feitos os carrascos e os tiranos, que dividem a humanidade entre os puros e os ímpios.

(...)

Texto: João Maurício Brás, in “Os democratas que destruíram a Democracia”, páginas 21 a 24
Digitação: JP, 26-9-2021

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