terça-feira, 28 de setembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Três por quatro

Aparecido Raimundo de Souza 

O REPÓRTER se prepara para entrevistar as candidatas ao concurso “MISS BONECA MAIS LINDA DO BRASIL”, que acabaram de chegar ao hotel fazenda, vindas das mais variadas capitais. E aquela loirinha de cabelos longos e olhos verdes claros, sem sombra de dúvidas, foi a que mais lhe chamou a atenção, logo que ela desceu do panorâmico Double decker. Não só pela beleza inigualável, como pela altura e pelo sorriso lindo e pelo porte elegante de andar com circunspeção estudada. Vibrou quando soube, pela produção, que a beldade era a mais cotada para levar o prêmio dentro de uma lista de trinta participantes. 

A princípio, o jornalista a achou, não só bonita e interessante igualmente sublime e excelsa, a ponto de cochichar com seus próprios botões que, se fosse um dos jurados, certamente seu voto seria para ela. Entretanto, no decorrer de uma conversa prévia, que teve com ela, apesar dos seus cabelos esvoaçarem de maneira cadenciada, alheios à vontade do vento, os dentes muito brancos, os lábios pecaminosos, explodindo sensualidade e, a voz, como se animada por um contentamento indizível, sua opinião foi se modificando literalmente. 

Sentados de frente para a piscina olímpica, longe dos gritos e arruídos, tomando água de coco, o ar pleno de primavera inebriando um dia encantadoramente promissor, o bate papo teve início.
— Oi, linda. Vamos lá? Deixe me apresentar. Meu nome é Hércules Toledo Pizza. Sou repórter da “Revista Espia Vê Tudo”. Estou aqui para lhe entrevistar juntamente com as suas coleguinhas concorrentes ao título “Miss Boneca Mais Linda do Brasil”. Podemos começar?
— Sim.
— Pronto. Gravador ligado. Seu nome?

— O meu? Ypsilona Canuda da Costa. Ypsilona com ípsilon.
— Idade?
— A minha? Acho que 18... não, 19...
— Local de nascimento?
— O meu? Berço da maternidade Dona Carmelita Umbigosa. Fica ao lado da prefeitura.
— OK. Qual seu estado?
— Aquele que queria ser um automóvel.
— Automóvel? Seja mais clara.
— Moço eu nasci naquele estado que queria ser um JEEP...

— Entendi... Aracaju?
— Não, seu burro. Desculpe. Sergipe.
— Entendi. Sergipe. Peso?
— O meu? 56. Mas sempre sobe um pouco. Agora, por exemplo, estou com 57.
— Altura?
— A minha? 1.72. Mas de uns dias pra cá, diminuí...
— Diminuiu?
— É.
— Como assim?
— Estiquei encolhendo.

— Apelido?
— O meu? Letra morta.
— ?!
— Seguinte, moço. Meu pai sempre disse que o ípsilon do Ypsilona, com ípsilon, do meu nome, não se usa há muito. Logo, o treco do apelido pegou. Irado, né?
— Qual a sua maior qualidade?
— A minha? Gostar de coisas perigosas.
— Do tipo?
— Tipo? Que tipo?
— Do que você gosta que considera perigoso?
— Ah... outro dia acendi um cigarro...
— Você fuma...?
— Não. Detesto refrigerante. É que eu estava sentada em cima de um latão cheio de gasolina no posto onde meu irmão trabalha como frentista.
— Meu Deus! Que horror! Que mais?
— Assim que cheguei do meu estado que queria ser carro, digo, de Sergipe, a produção da “Miss Boneca” nos trouxe, a todas, pra uma seção de fotos num prédio lá no centro de São Paulo. No intervalo eu me dependurei de cabeça pra baixo. Acho que era o Terraço Miralia, Zirália ou algo do gênero.

— Terraço Itália. Mas deixa pra lá. Por que agiu assim?
— Quem, eu? Pra que fiz isso? Ah, tá. Queria ver como seria enxergar as coisas bem lá do alto, mas de cabeça pra baixo.
— E você não teve medo de cair?
— Quem, eu? Não. O prédio é bem seguro. Tem até um restaurante lá em cima, no topo.
— Qual seu maior defeito?
— O meu? Achar que sou doida.
— E é?
— Quem, eu? Não!

— Qual a característica mais importante em um homem?
— Que? Num homem?
— Sim.
— Você diz um homem, homem ou...?
— Homem cabra macho.
— O fato dele carregar uma ripa escondida.
— Ripa?
— Por certo.
— Não alcancei seu posicionamento.
— Eu explico: minha irmã, a Brenda, tem um namorado, marido dela, que toda noite pega ela de jeito e senta a ripa.

— Ah! Eles fazem sexo?
— Não, ele dá uma surra nela, de ripa. Ripa, moço. O mesmo que pau...
— Surra de pau?
— Foi o que eu disse. Ela adora surra de ripa, ou de pau. Meu cunhado bate nela até a coitadinha sangrar. O senhor já tomou surra desse tipo?
— Desculpa. Sou eu que pergunto por aqui. E numa mulher?
— O que é que tem uma mulher?
— Qual a característica mais importante?
— Saber endurecer a ripa, sem precisar assoprar...
— Assoprar? Como assim?

— Iiiiiiiiii!!! Preciso mesmo explicar esse negócio?
— Deixa pra lá. O que mais aprecia em seus amigos?
— Quem? Eu? O que mais aprecio em meus amigos? O que eles mais apreciam em mim!
— Legal. E o que eles mais apreciam em você?
— O que eu mais aprecio neles.
— Sua atividade favorita?
— Qual? A minha? Plantar bananeiras.
— Você frequenta alguma academia?
— Quem, eu? Não!
— E como aprendeu a plantar bananeiras? Com as amigas da escola?

— Não. Foi com meu avô Meireles. O pai do meu pai tem um sítio bem grande, e, nos finais de semana, ele me ensinava a plantar e a lidar com a terra.
— Qual a sua maior felicidade?
— A minha? Pra mim é como uma coisa gostosa que a gente come. E quando você come o que gosta, você se sente feliz. Chupar picolé, por exemplo... depois lamber o palitinho... engolir o caldinho...
— Entendi. E nessa linha, o que seria a maior das tragédias?
— Cair da Montanha...
— Como? Cair da montanha? Você é chegada em praticar alpinismo?

— Quem, eu? Se eu sou chegada em quê?
— Em alpinismo. Pratica esse esporte?
— Que diabo é isso?
— Deixa pra lá. Voltemos à montanha. Você já escalou alguma?
— Quem, eu? Não!
— Continuo sem entender. Você disse que a maior tragédia seria...
— Moço, Montanha é o nome da égua preferida do meu avô. Eu adoro subir nela e andar montada por toda parte, escalando, escalando...

— Ah! Caiu a ficha. Pois bem, vamos em frente. Quem você gostaria de ser se não fosse você mesma?
— Quem, eu? Acho que a Mulher Maravilha.
— E por quê?
— Porque adoro quando ela dá aquelas voltinhas.
— Qual foi a sua viagem preferida?
— A minha? Ter ido à lua.
— Não me diga! Você já foi à lua?
— Quem, eu? Já.
— E como foi?

— Fui com meu primo Juju.
— Seu primo Juju?
— É moço.
— Conta aí. Deve ter sido uma experiência bastante interessante.
— Foi assim. Lá no celeiro do meu avô. À noite, depois do jantar, Juju me convidou pra dar uma volta. Aceitei. Fomos até o celeiro. Lá ele me agarrou, me beijou, me deu uns amassos, sabe como? Uns agarros básicos... depois me jogou no chão, levantou minha saia, arriou a...
—... Calma, calma, Ypsilona. Vamos mudar de assunto. Pulemos esses detalhezinhos. Por favor. Suas cores preferidas?
— As minhas? São duas. O azul e aquela outra que quando acontece alguma coisa muito gostosa...
— Você quer dizer excitante?
— Na mosca. Quando acontece isso aí, que você falou, a gente fica e não só fica, vê tudo vermelho piscando.
— Uma flor?
— Mamãe!
— Flor, flor. Margarida, orquídea, jasmim...

— Então, moço. Mamãe. Ela é uma rosa.

— Um animal?
— Onça pintada.
— Nossa! Você gosta de bichos? Interessante! Acaso já viu alguma onça pintada?
— Quando eu era pequena, papai vivia me botando medo de uma onça pintada que um amigo dele, o Montarroio pintou no muro do nosso vizinho que ficava do outro lado da rua. Bem em frente à nossa entrada. Aliás, era entrada e saída ao mesmo tempo. Se eu fizesse algo errado, se desobedecesse, ele me botava sentada na varanda, à noite, de cara pra tal onça pintada. Era cruel...

— Imagino... quais são seus autores preferidos?
— Os meus? Gilberto Gil e Chico Buarque.
— Autores, autores. Não cantores.
— Pois então. Gilberto Gil é um grande autor. O Chico também.
— Tá legal. Diga, então, o nome de uma música do Chico que você gosta?
— Quem, eu? Mulheres de antenas.
— Não conheço. Canta um pedacinho.
— “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de antenas, sofrem por seus maridos...”.

— Não são antenas, querida. O correto é Atenas.
— Então, foi o que eu disse. Antenas.
— Qual superpoder gostaria de ter?
— Quem, eu? Um, deixa ver! Voar como o Tarzan.
— Pera lá, Ypsilona. O Tarzan não voa.
— Claro que voa cara. De galho em galho.
— Como gostaria de morrer?
— Quem, eu? Morrendo...
— Eu sei, mas como?
— Deixando de viver.

— Como deixando de viver?
— Uai... morrendo!
— Qual seu maior pecado?
— O meu? Gostar da minha amiga, a Simone Lantejoulas.
— Você gosta da sua amiga Simone Lantejoulas?
— Gosto. E muito. Sou vidrada nela. Vidradérrima.
— E eu posso saber por quê?
— Pode. Ela é ele. E ele, é ela.
— Ela o quê? Como? Repita, por favor.
— Ela, a Simone Lantejoulas é ele, e, ao mesmo tempo, é ela e vice-versa. Deu pra entender?

— Sinceramente? Não!
— Moço, ela é duas. Uma numa só, duplamente repetida.
O jornalista ficou estático como imagem de pedra.
— Olha minha linda. Foi um imenso prazer. Obrigado pela sua atenção — disse, por fim, o Hércules Toledo Pizza, cenho franzido, dando a entrevista por encerrada. Pronto, gravador desligado. Beijos, abraços. Sorte. Tenha um bom dia. Por favor, mande vir, para cá, a sua outra coleguinha. Aquela coisinha gostosa de biquini branco...

E Ypsilona, na maior ingenuidade:
— Moço, aquela de biquini branco é o Mário, digo, a Nancy.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 28-9-2021

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