quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O Vaticano e a segregação de milhões de pessoas

Telmo Azevedo Fernandes

O Vaticano proibiu a entrada nesta cidade-estado a 5.400 milhões de pessoas. Isto porque segundo despacho oficial do Estado do Vaticano, a partir de 1 de outubro próximo qualquer pessoa que não esteja munida do certificado de vacinação Covid será impedida de entrar no território da sede da Santa Sé.

Como a proibição não abrange a possibilidade de participar na missa na Basílica de S. Pedro, – desde que se entre e saia imediatamente e apenas para esse efeito – podemos colocar de lado a possibilidade de o decreto atender a motivos estritamente sanitários. O caso parece, pois, uma manifestação pública de suposta virtude pelo atual ocupante da Cadeira de Pedro. Se 68% da população mundial não está hoje vacinada pelos mais variados motivos, que virtude é esta em que o Papa impede a entrada de mais de meio mundo no seu domínio territorial? Domínio esse outorgado em 1929 por Mussolini, que foi quem permitiu que a cidadela do Vaticano tivesse “fronteira”.

Seguindo o exemplo de Cristo que chamou a si os leprosos, a Igreja Católica sempre acolheu e foi próxima dos doentes. Por isso seria já de si uma enorme perplexidade que o atual Papa permitisse afastar do Vaticano os que sofrem de doenças infeciosas, através da lei e com fiscalização policial. Mas o Papa Francisco vai mesmo ainda mais longe na ignomínia e perversão da palavra de Deus ao excluir por decreto a possibilidade de uma pessoa saudável, mas sem vacina da Covid, se deslocar e permanecer até numa Praça de São Pedro deserta.

O Papa já antes tinha dito coisas pouco cristãs numa entrevista a um canal de televisão italiano. Pasme-se e atente-se à forma bruta e arrogante de Francisco quando afirma e cito novamente: “Eticamente todos devem tomar a vacina. Não é uma opção”. E mais uma vez, faz alusão ao “negacionismo” que apesar de nunca explicar em concreto de que se trata, reconhece que não consegue explicar a “negação suicida” (na expressão do Papa) de quem opta por não se vacinar.

Recentemente, o Papa Francisco fez outras declarações aos jornalistas aquando da sua viagem à Eslováquia que são no mínimo de mau gosto, e indiscutivelmente perversas e impróprias para um líder religioso que não queira ceder ao populismo e fomentar a divisão e tribalismo entre seres humanos. Disse Francisco e cito: “Mesmo no Colégio de Cardeais há alguns negacionistas da vacina. Mas um deles, por má sorte, está hospitalizado com o vírus” E acrescentou o Papa: “Essas são as ironias da vida.”

O atual Papado e chefia de Estado do Vaticano é exemplo da mais abjeta miséria moral da hierarquia da Igreja que deixou, aliás, de ser católica, universal.

O chefe de uma Igreja supostamente universal cauciona assim o estigma do “negacionismo” sobre pessoas que fazem a sua própria avaliação de risco, têm sentido crítico e dúvidas sobre o processo de vacinação. Curioso é que tenha sido o Papa na mesma ocasião a dizer asneiras grosseiras sobre o tema ao equivaler a vacina da Covid à do sarampo ou da poliomielite.

Agora, quando Francisco deixar a sua habitual mensagem urbi et orbi a partir dos seus aposentos no Vaticano, ficará patente a contradição com uma cidade que deixou de estar aberta ao mundo.

Felizmente para todos, o dogma da infalibilidade do Papa apenas se refere a questões de fé.

O meu vídeo de hoje, aqui:

Título, Texto e Vídeo: Telmo Azevedo Fernandes, Blasfémias, 22-9-2021

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