terça-feira, 7 de setembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] A pergunta que não podia ficar entalada

Aparecido Raimundo de Souza 

NA VÉSPERA DO GRANDE desastre do majestoso transatlântico Princesa Assanhada, embarcação quase do tamanho de três campos do Maracanã, além dos oito mil passageiros que nele viajavam, fazia parte dos embarcados, o famoso mágico da pacata cidade de Camamu, na Bahia, Patrinio Ossada, conhecido pelo nome artístico de Mister Chute no Saco. Melhor que seu parceiro Mister M, Mister Chute no Saco não perdia, em nada, para o senhor de todos os segredos e o príncipe negro dos mais intrincados sortilégios. Mister Chute no Saco, igualmente, encantava seu público pelas principais capitais por onde passava em contratos milionários fechados pelo escritório de seu empresário.

Em face das suas constantes aparições nos mais diversos canais de televisão, Mister Chute no Saco foi especialmente convidado para uma série de shows em alto mar, num luxuoso paraíso flutuante de trezentos e sessenta e dois metros de comprimento, sessenta e seis de largura e setenta e dois de altura. Equivalente a um prédio de vinte andares, com restaurantes de alta gastronomia, tobogã de trinta metros e toda sorte de divertimentos possíveis e imagináveis. A partir de então, nas noites que durariam trinta dias, Mister Chute no Saco propiciaria a um público elegante e seleto, uma série de espetáculos diferentes, juntamente em companhia das seis moças lindas e dos oito rapazes que o acompanhavam. Entretanto, para desespero e fúria do inconfundível ilusionista, havia, à bordo, o Lutino, um louro chato pra cachorro, que incrivelmente dava às caras quando as apresentações do artista começavam. Bastava Mister Chute no Saco pegar um lenço e o papagaio se antecipava.

— Esta é mais velha que a minha avó’. E entregava o jogo. — ‘Lá vem um amontoado de buquês de rosas vermelhas que ele jogará para os que o assistem neste exato momento’.

Dito e feito. Ramalhetes de rosas vermelhas surgiam do nada, sem que os presentes tivessem tempo de imaginar de onde vieram. A plateia iludida, evidentemente, ovacionava, com efusividade e entusiasmo descomedidos. O truque seguinte, se constituía em tirar, de uma jaula, um gorila meio abichado, onde uma das ajudantes, antes da fera aparecer, entrava sorrindo e os espectadores, em delírio (ao som infernal da criatura balançado a pequena prisão, guarnecida com barras de ferro, envolta em algum desvão escondido do cenário), se borravam de medo.

Lutino, como sempre, não deixava por menos. Alegre e satisfeito, gritava.
— Agora ele vai tirar de dentro da imensa gaiola a moça abraçada ao primata. Senhoras e senhores, não se desesperem. Não tenham receio. O carlequim é falso. Nada mais que o Pedrão Farofeiro, um dos garçons aqui do nosso barquinho vestido com as roupas de King Kong...
De fato, pouco tempo depois, sem que o auditório atinasse de onde, lá vinha, atonado à horripilante fera, estardalhaçando a plateia, grudado no corpo da bela assistente, que fingia se debater, aterrorizada e aos berros, para não ser devorada ou algo parecido pela fúria do bugio incontrolável.

Mesmo quadro se repetia no truque da levitação e do cigarro atravessando a moeda, bem ainda de quando Mister Chute no Saco voava, como um pássaro, por sobre as cabeças dos espectadores pelos quatro cantos do auditório. As intromissões de Lutino quebravam a atmosfera fantástica do evento, matava as surpresas dos truques seguintes e desnudava a realeza milimetricamente articulada e arquitetada pelo artista. Tais incômodos estava deixando Mister Chute no Saco metido numa saia justa, literalmente pê da vida. Em vista dos constantes estorvos, seu desejo se constituía num só. Dar um sumiço no miserento do papagaio, de uma vez por todas. Carecia, evidentemente, agir com muita precisão e cautela, astúcia e sagacidade, além de conservar a cabeça fria, sem dar nas vistas, uma vez que descobrira, por acaso, ser a ave pertencente ao comandante do navio, um cearense criador de caso chamado Renato Ortigão.

Este particular contribuía, sobremaneira, para deixar o artífice de pés e mãos atados, ou seja, Mister Chute no Saco, se via metido num tremendo beco sem saída. Não poderia simplesmente dar um fim trágico ao bicho. Se fazia necessário arranjar uma maneira simples, porém, que se tornasse eficaz e que, de uma vez para sempre, mandasse o maldito verdinho para os quintos do inferno. Somente agindo assim, Mister Chute no Saco deixaria de pensar naquela ideia tresloucada de que, em cada novo entretenimento, parecia subir um morro deveras íngreme, como se tivesse preso dentro de um pesadelo com o freio da sua indignação totalmente puxado.

Numa das rodadas, o louro começou a vomitar mais que nos dias passados.
— Olhem, Mister Chute no Saco está com as calças rasgadas.
No domingo, no truque da mulher cortada em dois, a ave extrapolou...
— ‘Vige’, galera! Reparem como as mãos de Mister Chute no Saco tremem quando segura a serra elétrica. Será que ele vai errar o alvo? Coitada da Partner! Não gostaria de estar na pele da infeliz... ela vai virar picadinho...
Mister Chute no Saco, definitivamente, chegara ao limite. Não aguentava mais a pressão. Carecia fazer algo, ou a sua própria equipe deixaria de confiar nas suas tiradas mais perigosas, notadamente nas manobras que exigiam atenção e concentração redobradas ou algo, uma capengada, por mais pequena que fosse, poderia falhar e colocar a sua enorme reputação ao rés do fracasso.

Uma semana à frente, por volta das quatro horas da manhã, uma estrondosa explosão, possivelmente numa das caldeiras, sacudiu o navio do rosto à popa.. Em consequência deste ocorrido inesperado, muitas pessoas foram pegas desprevenidas. Uma quantidade significativa dos passageiros, levado pela hora do acontecido, veio à óbito, em decorrência de muitos afoitados acordarem sobressaltados e, em busca da própria salvação, pularem à deriva, em meio ao mar escuro, e revolto, além de infinitamente gelado. Outras tantas, por se acharem recolhidas em suas cabines, dormindo, sucumbiram sem socorro. O belo e elegante navio, não levou muito tempo, depois da infausta avaria que o tirou da rota programada. Menos de duas horas, entrou definitivamente em submersão.

Embalado, pois, neste tom agourento, em questão de um abrir e fechar de olhos, o requintado flutuante sumiu definitivamente em meio às águas, atrelado a uma série de ruidos e explosões. Final da tragédia, uma infindável leva de pessoas conseguiram se manter respirando em diversas baleeiras salva-vidas, ainda assim, aos trancos e barrancos. A maioria delas, superlotadas e pior, sem uma direção a ser seguida com a devida segurança. No meio destas almas penadas sem saberem como lutar pela sobrevivência, acomodados, igualmente num único pedaço do que restou do navio, que por sorte, boiava, o ilusionista Mister Chute no Saco e Lutino se viram frenteados.

Ao redor deles, tendo o oceano imenso como cenário e testemunha, um encarava o outro com fúria descomedida deixando entrever um ódio mortal jamais visto e sentido. Talvez um sentimento mais forte e medonho que o estrago deixado pelo afundamento da elegante embarcação. Em silêncio pesado e constrangedor, ambos ficaram à deriva, sem dizer uma palavra por vários dias. Após duas semanas sem a troca de olhares de cólera e enfurecimento, Lutino resolveu abrir a guarda. Curioso, como sempre, perguntou à Mister Chute no Saco:
— Pois bem, meu caro senhor Patrinio Ossada. Desta vez eu me rendo. Desisto. Entrego os pontos. Pelo amor de Deus, me responda: Mata de uma vez por todas, o meu indiscreto assombramento: Onde foi que o senhor escondeu o navio??!!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Osasco, interior de São Paulo. 7-9-2021

Colunas anteriores: 
Lâmina de corte profundo 
Criaturas de um dia 
Feito um pateta ao desabrigo do caos 
Efeito colateral 
O terceiro testículo Quem sai aos seus não degenera 

Um comentário:

  1. Assunto intrigante e bem esclarecedor, pois o mistério do mister chute no saco não foi revelado tão como as manobras secretas do mister M. A leitura ficou divertida e interessante para se divertir.

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