sexta-feira, 30 de julho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] A Rosa

Aparecido Raimundo de Souza 

A MENINA DE VESTIDINHO AMARELO e botinhas pretas se levantou de perto de sua mãe, onde estava sentada no sofá e se dirigiu até o centro da sala, onde uma mesinha em formato de coração estava repleta de xícaras usadas pelas pessoas que, em pé, conversavam animadamente entre si. Ao lado das xícaras, numa bandeja de prata, uma garrafa de café. 

Ao contínuo da garrafa de café, jazia, esquecido, um vasinho simples, destoado de todos aqueles apetrechos colocados ao seu redor. A pequena criança carregava, nas mãos, uma rosa vermelha e, ao ver o recipiente sem nada, depositou nele, delicadamente a flor que trouxera consigo. 

A mãe achou bonito aquela cena infantil e questionou, com seus botões, o por que da sua filhinha de cinco anos ter se dado ao trabalho de praticar tão belo propósito? Os oito homens, em pé, distados, da mesa, apenas alguns passos, sequer perceberam o que a criança na sua inocência acabara de fazer. 

Todavia, ainda que tivessem visto, em face da distância ser curta demais, não manifestariam, como, de fato não exprimiram, nenhum gesto de delicadeza ou de admiração. Afeição, então, não fazia parte das suas vidas corridas. Eles, na verdade, não tinham tempo para pequenos mimos de cortesia, de calor humano. 

Aquela postura bucólica e, ao mesmo tempo despretensiosa de uma criaturinha que se fazia ali, em acompanhando os pais, era a filha de um dos oito cavalheiros e, claro, marido da mulher que ocupava um lugar no enorme sofá cantonado. Rosa colocada no vaso, a graciosa correu de retorno para junto da mãe e se acomodou ao lado dela, silenciosa. 

Neste momento, veio da cozinha uma funcionária com as suas alegrias e ademanes expostos, retirou a bandeja com as xícaras e a garrafa de café. Ninguém notou o seu sorriso, nem a ausência da garrafa de café. A serviçal voltou a sumir por breves minutos e, então, pela segunda vez, se fez presente, desta feita, com um pano nas mãos. 

Limpou cuidadosamente a mesa com o devido esmero. Terminado este procedimento, passou a mão no jarrinho com a rosa. Como da primeira vez, saiu de cena usando a porta pela qual ingressara no ambiente. A gracinha de vestidinho amarelo e botinhas pretas, ficou amuada chupando o dedinho polegar, como se o mundo, ao seu redor, tivesse caído sobre a sua cabeça. 

Seus olhinhos ternos, de repente de encheram de lágrimas e faltou pouco, muito pouco mesmo, para que ela não se debulhasse inteiramente num choro mais comprido e convulso. A este desespero súbito e inesperado da pobrezinha, igualmente ninguém se deu conta. 

Somente a sua mãe, que a abraçou, consternada. Os cavalheiros seguiram conversando e rindo. Acenderam novos cigarros. Nenhum deles se deu ao trabalho da preocupação com o que acontecera. Tudo, naquele ambiente voltou a se fazer solitário e, pior mergulhado num marasmo denso e sepulcral, como se nada ali, respirasse vida 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Tóquio, no Japão. 30-7-2021

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