segunda-feira, 26 de julho de 2021

[O cão tabagista conversou com…] – 100ª! – Lourenço Bray: “Temos um problema de independência dos media em Portugal, agravado com a penúria financeira e perda de relevância…”

Nome completo: Lourenço Farrajota Cristina Bray

Nome de Guerra:  Lourenço, mas na playstation e outras plataformas de gaming online é aguia77

Onde e quando nasceu?

Bruxelas, Bélgica, 1977.

Onde estudou?

Instituto Superior de Economia e Gestão, curso de Matemática Aplicada à Economia e Gestão.

Onde passou a infância e juventude?

Passei a infância numa pequena aldeia a 12km a sul de Torres Vedras, as Carreiras [foto abaixo], vindo de Bruxelas com 5 anos. Depois, com 9 ou 10 anos fui para Torres Vedras onde fiquei até ir para a universidade.

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?

Na infância, salientaria mesmo a transição de vida de uma grande metrópole europeia, num país rico e desenvolvido como a Bélgica em 1981, para um contexto de aldeia no Portugal rural pós-revolucionário. Nem falava português. Tinha apenas 4 ou 5 e anos e recordo-me com grande nitidez da mudança, da viagem, das primeiras interações com miúdos da minha idade, de ouvir português e não entender nada. Felizmente tinha um amigo, o Marco, filho de emigrados em França regressados à aldeia, que sabia falar francês e foi intérprete.

Foram sempre todos muito amistosos e ainda hoje os considero amigos e sigo-os - vantagens de plataformas como o facebook. Nem me recordo de aprender português, em poucas semanas ou meses estava a falar. E com pronúncia local, para desespero do meu pai que me corrigia. Foi um período muito feliz. A vida na aldeia nessa época era algo mágico.

Depois há uma série de acontecimentos, como na biografia de toda a gente… Por exemplo, a morte do meu primeiro cão, o Garoto, algo trágica, abatido pelo meu próprio pai. Era um cão muito mau, muito perigoso, já me tinha atacado uma vez e arrancado uma unha de um dedo, embora eu tenha sido palerma ao fazer-lhe uma festa enquanto comia.

Adorava o cão, toda gente tinha medo ele. Um dia atacou uma vizinha, felizmente sem gravidade, mas teria de ser abatido e o meu pai recusou-se a levá-lo a um matadouro ou ao veterinário e fez o serviço ele próprio. Ainda me lembro de o ver com o corpo do cão num lençol, nos braços.

Enfim, tenho mais memórias, penso que as crianças registam “cenas” assim.

A juventude teve muitas memórias, saliento ter saído de Torres Vedras para Lisboa e, portanto, começado a viver sozinho. Também salientaria a primeira vez que beijei uma rapariga, foi muito tarde, porque sou uma pessoa das que vai para cursos de matemática, faz parte.

Vai frequentar que faculdade?

ISEG, Instituto Superior de Economia e Gestão, curso de matemática aplicada à economia e gestão. Era uma universidade bastante simpática no centro de Lisboa, convenientemente perto dos bares da 24 de julho e do Bairro Alto.

Escolhi o curso porque me parecia muito difícil, apareceu num artigo qualquer de uma revista que o colocava nos três mais difíceis do país a par de engenharia aeroespacial no técnico e outro que não me recordo. Confirmo que era difícil. Nunca tinha tido uma só negativa na vida e logo no primeiro exame a uma das cadeiras tive 3 em 20. Fiquei em choque.

“uma pessoa das que vai para cursos de matemática”: qu’est-ce que ça veut dire?! 😉

Como dizer… Apesar de ser um bocado marrão na adolescência e de colecionar selos e fósseis, não é que as raparigas não fossem uma prioridade para mim... eu é que talvez não fosse uma prioridade para as raparigas. Ou, pelo menos, para as de quem eu gostava mais. Evoluí muito. Com o meu primeiro salário comprei um telescópio para me dedicar à astronomia amadora e agora, vinte anos depois, estou a fazer ultramaratonas, a partir o tornozelo num skate park e em vias de comprar um pequeno descapotável de dois lugares em segunda mão. Estarei a ficar cada vez menos uma pessoa que foi para cursos de matemática? Talvez.

Quando começou a trabalhar?

O meu primeiro emprego foi nas vindimas, para comprar um fato de surf e um smoking para ir a um baile.

Na universidade, trabalhava aos fins de semana numa quinta de casamentos, a Quinta do Espanhol, vestido com uma fantasia medieval. Era divertido e pagava-me os copos.

Mas trabalhar a sério foi ainda durante o meu último ano de curso pelo meu professor de estratégia empresarial, o professor Luís Nazaré, para trabalhar com ele na ANACOM. Foi no fim de uma aula em que fiz uma apresentação sobre o futuro dos media. Foi um convite importante porque na altura eu estava desmotivado com perspectivas como trabalhar em banca, seguros, consultoras de IT e, na verdade, gostava mesmo de estratégia empresarial, a área em que mais tarde acabei por trabalhar mais e trabalho ainda.

Era um aluno médio naquele contexto, tinha colegas brilhantes, por isso o convite daquele professor surpreendeu-me. Eu ainda disse humildemente “ó professor, olhe que a turma tem aqui colegas com notas muito melhores que as minhas” e ele apertou-me o ombro que até magoou e disse “nunca duvide do seu valor! Apareça lá na próxima segunda feira!”

E o que aconteceu quando você apareceu?

Começou a minha experiência não apenas com a administração pública e sector público, mas com o que são grandes organizações, adultos no local de trabalho etc. Iria fazer um estágio a correr muitos departamentos, mas começaram a levantar questões, o que é normal, aquilo furava um pouco os procedimentos burocráticos e as vontades de cada diretor. Lá arranjaram um sítio para mim onde até me dei bem e fui muito bem tratado, mas não era o que tinha em mente. Praticamente nunca mais vi o presidente.

Não me queixo, é igual em todo lado e em qualquer organização, embora haja graus diferentes. Um jovem é um pouco idealista na universidade e, além disso, dá-se mais com pessoas da sua idade.

No mundo do trabalho, de repente, somos os mais novos e todos são mais adultos e crescidos. Então imaginamos que são mais sensatos, maduros, competentes e por aí afora e que as empresas e organizações são eficientes, racionais etc. e chegamos a qualquer sítio real e costuma ser um choque. Só varia o grau. Ao fim de uns dois anos acabei por decidir que me queria dedicar à escrita ou outra coisa qualquer.

Especificamente, em que área/setor/empresa/repartição… aconteceu esse estágio?

Era regulação de mercados, no caso, telecomunicações, e eu fui para o gabinete de comunicação. Na altura estavam a migrar um website de uma plataforma para outra e o meu trabalho durante meses foi verificar se faltavam vírgulas ou números nos textos que migravam ou que eram publicados. A culpa não era das pessoas, de quem gostei muito, aliás. Aquele trabalho tinha de ser feito.

Eu já tinha servido à mesa e feito vindimas, não sou esquisito. Mas vinha de um curso de matemática onde tinha estudado coisas mais elevadas, digamos assim, e foi um pouco um choque. Mais tarde transferiram-me para um departamento mais ligado à minha área.

Depois, então, vai se dedicar à escrita, certo?

Profissionalmente, acabei por ser convidado para trabalhar em branding numa empresa chamada Mybrand, pelo lado dos estudos de mercado e estatística e adorei a experiência. Aprendi imenso e fui para uma área mais próxima das minhas competências, mais holística. Não era só matemática, tinha análise cultural, social, económica, tinha psicologia, cultura geral, gestão, tinha criatividade…

Mas antes disso, ainda fiquei sete anos nesse regulador de mercado. Rapidamente percebi que para mim não era muito relevante a fonte de rendimentos. Podemos ter qualquer emprego, desde que com dignidade e tempo para explorar outras dimensões pessoais. Não depender do que se gosta de fazer também dá liberdade criativa. Quando é preciso viver do que se gosta de fazer também entram outras coisas chatas.

Por exemplo, descobri que uma coisa é escrever posts espontaneamente, outra é massacrar a cabeça horas a fio, meses a, mesmo quando não nos apetece, O meu estilo definha. Não sei, não tinha energia, vitalidade para algo assim. Quando me pediam contos ou tinha autoconsciência de estar a escrever um romance, ficava mau.

Agora estou a tentar a publicação de um blogue/página que mantive uns cinco ou seis anos sobre a minha filha, o Diário de Um Pai Solteiro. Quando nasceu a minha filha perdi qualquer desejo de ser escritor. Ainda adoro escrever e escrevo todos os dias. Mas, francamente, passei a gostar mais de correr, fotografar, tocar piano.

Se bem entendi, você está tentando publicar o que postou nesse blogue, certo?

Sim, estou. Aguardo respostas nesse departamento, vamos ver como corre.

Que mal lhe pergunte, sei/sabemos que é muito bom correr, fotografar, tocar piano, bandolim…, mas de onde vêm os ‘recursos’ para pagar as contas de luz, internet, gás, supermercado…?


Sou consultor de branding. Trabalho para uma pequena agência que ajudei a fundar, a Brand Practice, com dois colegas que são designers gráficos. Faço projetos de identidade: estratégia de marca, criação de nomes, estudos de mercado e por aí fora. Vim parar a esta área por convite, para estudos de mercado ligados ao marketing, e gosto bastante.

Como vai a cidade de Lisboa?

Teve melhores dias. Para mim, estes confinamentos foram um ponto de viragem na minha relação com a cidade, e vou sair para viver perto da serra e do mar. É uma tendência global, vimos outras grandes cidades a passar pelo mesmo.

Na zona onde procurei casa, por exemplo, todos os agentes dizem que houve um aumento de procura de casas rurais. Isto pode ser por muitos motivos, para alguns pode ser por medo da covid-19, para outros, como é o meu caso, pelo receio das medidas e do estado sinistro a que chegámos.

Quero que a minha filha cresça num contexto mais natural e saudável, também porque se é para fecharem a escola todos os invernos, ao menos que tenha natureza ao pé. Também se nota menos a presença da polícia ou de pessoas de máscara.

Como tem enfrentado a peste chinesa?

Com grande preocupação pelo caminho que isto levou. Percebi as decisões no início quando as pessoas apanharam um grande susto, mas rapidamente a cura criou um problema maior do que a doença. Não entendo.

As previsões falharam todas e continuam a levar a sério os mesmos especialistas. Percebo medidas positivas como vacinas para quem queira, mais camas, mais médicos, o que for preciso. Não entendo as medidas passivas de ficar fechado em casa e deixar de viver. Isto para mim logo em abril de 2020 parecia-me tão absurdo como se o Reino Unido ao ser atacado pela Alemanha nazi em 1940 reagisse vivendo debaixo de terra ou fora do limite dos bombardeiros alemães, em vez de unir toda a economia num gigantesco esforço de guerra.

Em vez do Keep Calm and Carry on, temos constantes mensagens de terror em que é o próprio Estado a aterrorizar os cidadãos. É incompreensível.

Permita-me aplaudir, de pé, a frase “As previsões falharam todas e continuam a levar a sério os mesmos especialistas.” No alvo!

Quase dois anos depois, com confinamentos, restrições, proibições, injeções, vacinas (com uma, duas, três doses), máscaras (de todo o tipo), multas e prisões… NADA MELHOROU! Pelo contrário! E exatamente os mesmíssimos que não souberam enfrentar a peste continuam no comando! Lamentável!

A ciência se deixou penetrar por um enxame de políticos que de há muito completa as listas de assalariados dos “centros de pesquisa” ‘daquelas’ universidades…

Permita-me só discordar, eu acho que algumas coisas melhoraram e tenho a sensação de que as vacinas estão a resultar. Se não for verdade, então é um embuste de uma dimensão que eu próprio não seria capaz de conceber. Até acho que deveríamos era estar optimistas e de parabéns por ter criado vacinas em tempo recorde. E virar a página! E não voltar a cometer estes erros do passado.

Sobre o que fazer, há dias mandaram-me um belo ensaio do Soljenitsyn que vive o pesadelo dos gulags soviéticos. A primeira coisa e mais fundamental é não participar na mentira, é o que ele diz. A verdade é essencial. Por exemplo, os médias podem replicar mentiras como a de que um “certificado digital facilita a circulação” ou de “especialistas preveem mais xis mortos se não fechar as escolas”, temos o dever de pensar criticamente e não acreditar em tudo o que os governantes e os media dizem

Eu acho extraordinário que na generalidade dos temas as pessoas tenham enorme desconfiança face ao discurso dos políticos em qualquer país no mundo, mas nisto... não. Mesma coisa nos médias.

Quando um presidente ou primeiro-ministro diz “vamos baixar impostos” só mesmo um eleitor muito ingénuo pode acreditar, e geralmente os media poderiam escrutinar. Mas nisto, de repente, muitos media passaram a acreditar e a repetir ipsis verbis o que as autoridades veiculam sem qualquer filtro crítico, vendo as autoridades com um e apenas um vector.

Vendo a multiplicidade de opiniões de “especialistas”, há uns de meia tigela que nem sequer são da área e outros com créditos altamente firmados têm opiniões consideradas “negacionistas”.

As oposições também se uniram numa espécie de esforço patriótico. Na verdade, é muito arriscado para um político não alinhar na narrativa oficial, são imediatamente trucidados. 

O que fazer? Talvez endurecer ativismo mais organizado, mas também com os pés mais assentes na terra.

Às vezes acho que só parece haver dois extremos. O ativismo mais ativo, digamos assim, contra as medidas tem partido de grupos que também têm opiniões que os descredibilizam por vezes, como aquelas coisas do 5G, do chip, conspirações etc.

Certo. Falando em mídia e primeiro-ministro:
Por que, de repente, “os media passaram a acreditar e a repetir ipsis verbis o que as autoridades veiculam sem qualquer filtro crítico”?

Temos um problema de independência dos media em Portugal, agravado com a penúria financeira e perda de relevância que os faz depender cada vez mais dos apoios do Estado, seja em subsídios, como os 15 milhões que o ministro lhes deu, ou em legislação, como o recente diploma que supostamente serve para nos proteger de desinformação nas redes sociais.

Em vários países vemos o mesmo alinhamento: os media ajudam os governos que protegerem o seu mercado da ameaça dos social media como fontes de informação. Mas penso que o motivo principal é fruto do negócio dos media: em qualquer tema adoptam tendencialmente uma postura sensacionalista, não consubstanciada em análises racionais e ponderadas. Têm de concorrer por audiências e cliques e nada gera mais atenção do que medo, morte, doença, catástrofe etc.

Dado que os Governos precisavam do medo para alterar os comportamentos das pessoas e torná-las receptivas a aceitar confinamentos e outras medidas, os media acabaram por fazer a maior parte do trabalho nesse aspecto. A diferença é que desta vez adoptaram essa postura com um sentido de missão, de responsabilidade social e não apenas de negócio.

Depois, temos mais fatores, como uma polarização ideológica que se reflete mais nos media que, em geral, são alinhados à esquerda e muito hostis a figuras polémicas como Trump ou Bolsonaro.

Rapidamente se gerou uma divisão esquerda-direita no que respeita a ideologia covid-19 com o epicentro nos EUA, mas também no Brasil, parece-me. Por exemplo, era completamente proibido e negacionista falar na tese do laboratório de Wuhan porque foi Trump a especular sobre isso.

Obviamente que há excepções, conheço algumas pessoas de esquerda que estão contra o estado atual de coisas e pessoas de direita que gostam dos confinamentos e de usar máscara, mas em geral é o que é.

Em Portugal tem sido a Iniciativa Liberal e o Chega os mais críticos das medidas e não há partido mais hostilizado pelos media do que o Chega.

A que se deve essa hostilidade?

Não sei, múltiplas possibilidades que já entram quase no domínio da psicologia, mas não só. Gostaria de perceber. Penso que uma parte da questão pode prender-se com aquele ressentimento e hostilidade que as pessoas às vezes podem nutrir pelo outro, por exemplo, os “jovens”. Isso é muito comum no discurso moralista que também se vê noutros temas eternos, os clássicos “esta nova geração não tem valores”, “o mundo está perdido”, “não respeitam ninguém” etc. e que é patente ao longo da história da humanidade, até filósofos gregos se queixavam disso.

Mas aqui de facto chegou às crianças e isso já me custa mais perceber. Das imagens que retenho é o absurdo de esplanadas cheias de gente a conviver sem máscara e a beber cervejas, mesmo ao lado de um parque infantil coberto de fitas da polícia. E mesmo agora, o primeiro reflexo dos burocratas no Algarve foi fechar as escolas só porque “tinham de fazer alguma coisa”.

Depois há a questão do que acontece ao rendimento das pessoas em virtude do pânico e dos confinamentos.

Antes de avaliar a opinião da covid-19 de alguém, gosto sempre de saber que profissão e se o rendimento dele está garantido. Costuma ter uma estranha correlação alguém gostar de fecho de restaurantes e o facto de não trabalhar na restauração, por exemplo, ou de não ser motorista da Uber e achar muito bem trabalho a partir de casa.

Pode ter a certeza de que se os políticos e jornalistas deixassem de receber dinheiro na conta com as medidas que defendem, a covid-19 desaparecia praticamente em 24h.

Não tenho dúvidas disso. Muito bem. Me referia à hostilidade da mídia ao partido ‘Chega!’ Por que será?

Em grande parte, a mídia é dominada por um pensamento tendencialmente à esquerda, progressista, politicamente correta e está muito traumatizada com fenômenos como Donald Trump, Bolsonaro ou Boris Johnson. Ri-me muito com um título qualquer de um jornal português que dizia “O impopular Boris Johnson vence com maioria absoluta”. É fascinante, eles nem se apercebem.

Claro que há coisas no Chega de que se pode não gostar. É subjetivo, eu pessoalmente abomino o discurso anti-imigração ou anti-ciganos. Não que não possam existir problemas, que certamente existem, a questão é fazer disso um tema e cavalgá-lo de forma populista, com ódio. E o André Ventura também é uma personagem que irrita facilmente quem não gostar dele. Aliás, essa é a principal qualidade que vejo no André Ventura, como via no Donald Trump: irritar os mídia e mostrar quão entrincheirados estão em ideologia na forma de ver a realidade. Estão convencidos que são do bem, que são excelentes pessoas e quem pensa diferente é malévolo. Dão um tom moral completamente diferente às mesmas coisas. Ainda agora o democrata Joe Biden bombardeou a Síria e o Iraque e zero capas de jornais com “Biden é uma ameaça à paz mundial” ou algo assim, no tempo do Trump era todos os dias, aliás vaticinaram a 3ª guerra mundial com a sua eleição.

Pelo que se lê no Diário de Notícias, Público, Expresso… não há governo mais competente do que o governo de Portugal. A culpa (única) do número de casos, ou aumentos dos, é da população, do Natal, da Páscoa, dos aniversários, casamentos, batizados etc. é isso mesmo?

Sim. Isso é uma mudança de paradigma, a meu ver. Em vez de vermos um vírus ou doenças ou tragédias como algo que infelizmente aconteceu e com que temos de lidar, algures deu-se a mudança e passou a ser visto como algo moral, até porque eles acreditam que os assintomáticos são uma força relevante na transmissão da doença quando não há estudos que o demonstrem, pelo contrário.

Houve campanhas dos media e da DGS que tornaram isto muito explícito, seja em reportagens sobre o “sentimento de culpa” de filhos que infectaram os pais e os mataram, seja em outdoors na rua com pessoas moribundas em ventilação com frases como “uma janela aberta poderia ter evitado isto” etc. É surreal.

Imagine, ao longo da história quantos milhares de milhões de pessoas não infectaram alguém sem querer? Claro que há limites, uma pessoa com tuberculose em fase contagiosa por exemplo já tinha limitações para não contagiar outros.

Mas agora até fazem acreditar às crianças que elas podem matar os pais e os avós, como se fosse alguma coisa razoável. E agora querem vaciná-las. É absolutamente surreal. E eu não sou contra as vacinas, bem pelo contrário.

Já foi vacinado?

Primeira dose, falta a segunda. Já tinha viagem marcada há muito tempo e não queria arriscar a lotaria dos testes a lixar-me os planos. Hesitei bastante, mas na altura ainda não havia a pressão que há agora com os restaurantes e hotéis.

Depois de investigar, nesta fase percebi que não havia um risco significativo, pelo menos não maior do que a própria covid-19 para a minha faixa etária - que já considerava irrelevante. Vi mais como um procedimento burocrático. Mas está cada vez mais a deixar de ser e é vergonhosa a pressão.

Eu nunca irei a um hotel ou restaurante ou espetáculo em que tenha de mostrar um certificado ou teste. Vi o contexto de viagens mais lógico para algo assim - discordo, mas é mais lógico porque já se controlam as fronteiras com passaportes e vistos e outras burocracias. Ou seja, são pontos em que os cidadãos são sujeitos a condições que podem até ser muito arbitrárias, mas são o direito daquele país ou região de nos aceitar lá.

Se um país ou uma região autónoma impõe condições draconianas como Austrália e Nova Zelândia posso discordar, mas estão no direito deles: cadastro, emprego, país de origem, se transporta animais de estimação ou não etc.

Conhecia o “Cão”?

Eu acho que já o tinha visto há muito tempo, é uma referência nos blogues, mas não o conhecia. Entretanto já estive (visitando).

Torres Vedras tem assim pronúncia diferente?

Tem, mas é difícil colocar por escrito. É como um alentejano muito rápido e tem uma entoação cantada, irónica, em suspenso. Tem expressões como “ó quê?” Que se usam em frases como “Tás parvo ó quê?” Ou “tás a anhar ó quê?”. Outras são “na vês ó…” Nunca me apercebi disso até me terem dito, em Lisboa, que eu tinha pronúncia de Torres Vedras.

Tem opinião sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)?

Tenho: quase nunca uso, só quando obrigado por questões profissionais. Posso usar algumas coisas inconscientemente. Acho uma aberração. “Conceção”, “receção”, “espetador”… O óptico dos olhos que passou a ótico que na realidade significa próprio do “ouvido”, portanto criando confusão.

Temos Egito, mas também temos egípcios. Enfim, só mesmo burocratas doidos é que se lembrariam de esquartejar uma língua dessa forma, num gabinete.

É também não reconhecer a legitimidade de todas as línguas, como se houvesse uma forma correcta de escrever ou falar. E negar que podem evoluir organicamente.

Não sou conservador, mas irrita-me quando burocratas sem qualquer sensibilidade se unem num projecto utópico qualquer de uniformizar algo.

Conhece o Brasil?

Conheço mal o Brasil. Só estive em São Paulo algumas vezes, a trabalhar para a Heineken, e fui ao Rio de Janeiro uma tarde, para ter uma reunião na Oi e voltar. Foi muito estranho visitar aquele local tão exótico e nem sair do taxi.

Quero voltar, talvez volte para fazer uma ultramaratona que um amigo meu organiza, a Extremo Sul, que decorre na maior praia do mundo em Rio Grande.

O que conheço do Brasil é mais pela televisão e pela cultura e por amigos brasileiros. Em Portugal há uma forte ligação ao Brasil pelo que sempre fez parte da nossa cultura.

Acompanha a atualidade brasileira?

Acompanho a atualidade sim, pelo menos as linhas gerais, os grandes temas que têm eco internacional. Depois, o que sei é por amigos brasileiros que imigraram para Portugal.

Vai votar nas próximas eleições autárquicas?

Vou votar no Bruno Horta Soares, candidato da Iniciativa Liberal em Lisboa. Na verdade, agora que penso nisso, não sei se vou votar em Lisboa porque, entretanto, já mudei de casa e, portanto, se calhar, voto na área de Sintra.

Mas em Portugal nesta fase identifico-me mais com a Iniciativa Liberal, partido no qual me filiei para apoiar. É um partido recente e o que mais se adequa às minhas opiniões, e é um tipo de pensamento que faz muita falta em Portugal.

Qual a sua posição em relação às touradas?

Pessoalmente não gosto da tourada. O meu pai gostava bastante. Tive muitas discussões com ele sobre isso, lembro-me de sair da sala em protesto enquanto ele via a tourada. Mas após bastante reflexão sou contra qualquer proibição.

Primeiro, acho que é uma hipocrisia muito grande, eu como carne, eu sei o que os animais sofrem. Teria de examinar a minha própria consciência. Segundo, acho residual, talvez fosse mais significativo a nível de sofrimento animal comermos menos carne e de melhor qualidade do que ficarmos focados no sofrimento de alguns animais (que de resto têm vidas magníficas antes da tourada em si, muito melhores que qualquer animal de abate). Terceiro, irrita-me a urbanidade a ditar o que é correcto ou errado, há algo verdadeiramente deprimente nisso. E por último o valor cultural que efectivamente tem, sempre o reconheci, é algo bonito e único. Como disse, eu não gosto porque não consigo escamotear o sofrimento do animal, sinto-o sozinho numa arena e acossado e vejo a crueldade humana sublimada naquela encenação. Mas a crueldade humana é real e está em mim, nem que seja quando compro carne embalada no supermercado. Se calhar não gosto porque me faz ver quem eu sou na verdade.

A lei antipedofilia votada no Parlamento da Hungria, que proíbe propaganda LGBT e da homossexualidade junto dos menores de 18 anos, foi aprovada por 157 votos contra 1. Você concorda com a interferência do Parlamento Europeu no legislativo húngaro?

Não concordo com a interferência, mas também não concordo com uma mistura da “antipedofilia” com outros temas, isto porque acho que há um preconceito em ligar as coisas e a Hungria tem um governo que me parece homofóbico e populista. Teria de conhecer a fundo os diplomas, que não conheço. Em geral contudo sou absolutamente contra as escolas entrarem nesses domínios. E contra o Parlamento Europeu querer impor a sua ideologia específica aos estados. Acho que o Parlamento devia ficar-se por coisas mais económicas. Vejo a UE como uma mera união pragmática de moeda única, de resto deixe-se estar sossegada que é melhor.

Uma pergunta que não foi feita?

Acho que foram feitas todas as perguntas 😊

A derradeira mensagem:

Não tenho uma derradeira mensagem. Sinto que não estou em posição de dar uma mensagem a ninguém. Se calhar essa é a minha mensagem!

Vista do meu escritório, Amoreiras, Lisboa

Obrigado, Lourenço! 😉

Com esta, são


as conversas com o Cão.
Muito obrigado!


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