terça-feira, 27 de julho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Punctum saliens

Aparecido Raimundo de Souza

O DOUTOR EPAMINONDAS CACHECOL
, advogado, conversa com a filha de seu sócio de escritório, a linda e encantadora Rebeca Bazzoco, sentada bem descontraidamente à sua frente. A jovem usa um vestido azul claro muito curto e justo, que lhe mostra, as belas formas do corpo escultural. Maquinalmente, sem se aperceber, ela cruza e descruza as pernas e, ao fazê-lo, deixa entrever a calcinha branca e minúscula, ao fundo, contrastando com o pecado que, além de inebriar o ambiente, deixa o homem desacomodado, a ponto de um ataque de nervos.
— Rebeca — insiste o causídico meio fora de órbita, tentando não sair do contexto e da seriedade que tem diante de si. — Eu não entendi direito este papo da sua lua de mel. Você falou, falou, mas algo ficou suspenso no ar...
— O que o senhor não entendeu, doutor Epaminondas?
— Seu problema com o Marcelo.

— Não foi um problema, doutor... foi um fato...
— Mas vocês não estavam numa boa? Não correu tudo às mil maravilhas? Percebi que antes de saírem para a viagem de lua de mel, vocês pareciam querer se devorar na frente dos convidados. Estavam num pega me larga, não me solta, nem desgruda, que deixou todo mundo comentando. Eu mesmo me arrepiei com tanta euforia. Em face disto, achei estranho, uma semana depois do enlace, seu pai me ligar e pedir para eu vir às carreiras para a nossa assessoria. Agora, que aqui estamos, você me joga uma granada sem pino no colo e me pede para anular o seu casamento. Assim, do nada?
— Pois é, doutor. Para o senhor ver como são as coisas...
— OK. Vamos repassar. Creio que alguma coisa não foi dita às claras. O que aconteceu no enfim sós? O rapaz não era o amor da sua vida?

— O senhor acabou de colocar bem a frase: era.
— Não me diga que na exultação e na alacridade do vamos ver... o Marcelo...?!
— O que tem o Marcelo?
— Você sabe a que me refiro, mocinha.
—Não, não sei. Ao que o senhor se refere, exatamente?
— Não me diga que ele desfastiou na hora agá?
— Não.
— Você não estava disposta a manter relações naquela noite?
— Pelo contrário, doutor. Eu subia pelas paredes. Chamava urubu de meu ‘loro’. Desculpa o termo. Havia acabado de sair da minha vidinha pacata, do meu quarto, da minha casa, do seio dos meus pais... sabe como é...

—... Entendo! Naturalmente ele bebeu demais e apagou o sonho da primeira noite juntos?
— Não foi isto, doutor. Ele se excedeu um pouquinho sim, mas estava em forma. Saímos aqui da festa, como o senhor mesmo viu, e rumamos diretamente para o hotel. Meu pai, seu sócio foi quem nos levou de carro.
— Estou lembrado. Então me diga, Rebeca, para que eu entenda o motivo, a razão e a circunstância. Por que pretende anular o casamento, se tudo correu às mil maravilhas?
— O senhor não iria me dar razão. Só quero anular e pronto. Tirar, de vez, o Marcelo da minha vida.
— Minha querida, veja bem. Para que eu possa invalidar o seu pedido ao juiz, é preciso levar ao meritíssimo, um fato concreto e incontestável. Se o casamento, por exemplo, não tivesse se consumado...

— Nossa, doutor Epaminondas, a droga se consumou. E como se consumou! Chegamos a quebrar a cama...
Risos:
— Quebraram a cama?
— Sim. O Marcelo precisou, na hora em que pedimos para fechar a conta, pagar pela peça avariada...
— Então, minha flor, se a ‘farra’ foi boa, mil perdões pela forma como coloquei... se tudo saiu aos contentos, a ponto de vocês dois destruírem o leito nupcial, juro que não estou entendendo bulhufas...
— Doutor, não gostaria de tocar neste particular. É deprimente e vexatório. Me permita, porém, contar, resumidamente, uma historinha. Isto ajudará a desanuviar os fatos. Antes do casamento, eu e o Marcelo, nunca transamos.

Fez uma pequena pausa, como se tomasse fôlego e prossegue:
— O senhor sabia? Lógico que não. Ninguém sabia. Nem meu pai. Só a minha mãe. O que estou sinalizando é que não me entreguei à ele completamente. Durante nosso tempo de namoro, nunca dormimos juntos. O tempo todo, acredite o senhor ou não, ficamos somente nas preliminares, ou seja, nos beijinhos e abraços. Queria honrar a família, notadamente a minha mãe que trocou as alianças com papai e só foram para o desfrute do bem bom, depois de tudo sacramentado. Quero que o senhor saiba que casei virgem e, embora não pareça, continuo com o diploma de moça recatada sem ser rasgado.
— Como assim? Vocês não partiram para os júbilos dos apaixonados?
— Sim doutor Epaminondas, partimos... a ‘farra’, como o senhor disse, foi boa... na nossa primeira noite, realmente, a coisa quase pegou fogo como o senhor acabou de colocar. Nem dormimos. Quero dizer, eu dormi. Para o senhor ter ideia fiquei com a...

O doutor Epaminondas Cachecol quase salta da sua poltrona:
— Conclua, por favor?
— Esqueça, doutor. Desculpe...
— Preciso saber de mais detalhes. Se abra... deixe de rodeios...
— Pois bem. Vou me abrir. Fiquei com ela, o senhor sabe, a coitadinha aqui, a perereca, em frangalhos...
O advogado desta feita, cai numa estrondosa gargalhada:
— Em frangalhos?
— Sem falar que depois passou a doer muito, doutor. Me ardeu a fenda que faz ‘virar os olhinhos’, como se eu tivesse feito alguma coisa ilegal antes da entrega. O cenário mudou logo em seguida para um sangramento. Marcelo me machucou toda por dentro...

— Então, minha linda... o casamento...
Rebeca o interrompe, muito séria:
— Doutor Epaminondas Cachecol, me escuta. Ele usou o dedo. O dedo... eu era moça, esqueceu? Entretanto, segundo as leis, não houve o coito. Se não houve o coito... fique sabendo, meu caro doutor, que só liberei a maçã, repetindo o que falei anteriormente, só liberei a fruta depois de me ver casada. Papel passado, tudo certinho, como manda o figurino, no preto e no branco.
— Sei com é...
— Mas isto tudo não importa agora. Meu recato não me adiantou de nada. Foi ‘pras cucuias’. Tomei no... tomei no traseiro, literalmente. Quero que o senhor me anule esta porcaria de casamento e fim de papo.

— Que loucura. Vocês, jovens, são difíceis de se lidar. No meu tempo, para se dar um beijo na testa ou para pegar na mão da pretendida, um verdadeiro Deus nos acuda.
— Doutor, os tempos mudaram. Estamos em outro século. Deu para perceber?
— Rebeca, pelo amor de Deus, me ouça. Se não me der uma boa razão, não poderei fazer nada, absolutamente nada por você. Para começo de conversa, não tenho como ingressar com a anulação.
— E por que não?
— O casamento se consumou. Você mesma acabou de afirmar que quebraram a cama, você sangrou, etc., etc., e coisa e tal...
— Foi mesmo! Quebramos...

— Acredito. No dia da festa do casamento eu vi em seus modos, uma preliminar do fogo que emanava de vocês dois...
— Pois então, doutor. Aquele fogo acabou. Faltou lenha...
Mais risos, agora de ambos os lados.
— Não acha que foi muito rápido?
— O que eu realmente acho, ou o que deixe de achar, nesta altura do campeonato, não tem nada a ver.
— De certa forma você está coberta de razão. Todavia, insisto: preciso saber de detalhes.
— Doutor, é uma coisa sem importância...
— Tão sem importância que, ao que tudo indica, acabou com seu casamento. Cada minuto, juro à você, entendo menos.

— Está bem... se insiste tanto... vou abrir o jogo. Meu marido, numa briga, ha muito tempo, se meteu numa confusão. Matou um cara. Foi preso. Ficou engaiolado um bocado de tempo. No presídio, por azar, topou com o irmão do infeliz, que ele mandou para a cidade dos pés juntos. Os dois entraram em vias de fato. Marcelo, por ser mais forte, venceu a contenda. A noite, enquanto dormia, os colegas do peçonhento que levou a pior, se juntaram e lhe cortaram um membro...
— Como, um membro? Que membro, Rebeca? O Marcelo é um varão perfeito. Um sujeito que tem tudo em cima e nos conformes para que uma mulher linda e... apetitosa, como você —, me perdoa pela forma como lhe descrevo —, ‘apetitosa’, contudo, não estou mentindo. É a mais pura verdade. Ele tem tudo que você precisa para ser feliz.

Sem mais motivos para esconder a sua desdita, Rebeca revela a verdade nua e crua ao amigo e sócio de seu pai:
— É ai que o senhor se engana, doutor. Meu marido tem, realmente de tudo. É bonito, elegante, se veste bem, fala em tom moderado, é charmoso... as mulheres dão em cima dele... nem me respeitam. Lembrando, igualmente, que o Marcelo não é um qualquer. Tem muita grana, uma mansão maravilhosa, possui vários carros, é dono de sítios e fazendas, comprou recente um helicóptero... enfim, pode me dar tudo o que uma esposa realmente deseja... entretanto...
— Entretanto...?!
— Meu pai santíssimo, doutor... como tocar neste assunto? Estou morrendo de vergonha.
— Termine, Rebeca. Somos amigos... seja lá o que for, entenderei e respeitarei...
— A ele falta, meu caro doutor Epaminondas Cachecol, a ele, meu lindo e apetitoso marido, falta a ferramenta do trabalho.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do aeroporto doutor Leite Lopes, Ribeirão Preto, São Paulo, 27-7-2021

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