terça-feira, 13 de julho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Caixinha de música

Aparecido Raimundo de Souza

ERA UMA CAIXINHA DE MÚSICA comum, com uma bailarina vestidinha de azul marinho dançando sobre um pequeno palco giratório ao som de Lisboa Antiga. Esta peça rara ficava no quarto dos meus avós, pais da minha mãe, numa parte do guarda-roupas, onde a vovó Nazinha entulhava um amontoado de produtos de beleza, além de vestidos, sapatos e outras quinquilharias.

Havia também, neste compartimento, um espelho ovalado com pequenas gavetas logo abaixo, todas elas repletadas de  bugigangas. Numa se destacavam grampos de prender cabelos, tesouras de uso corrente para cortar unhas, alicates, lixas, pentes e bobes de cores variadas. Na outra, vovô Nhô Chico, acondicionava dinheiro em notas e moedas, bem ainda as chaves do carro, documentos pessoais e lenços, entre uma dezena de pertences de uso geral.

Sempre que vovó Nazinha se aprontava para sair (ela ia à cidade fosse somente para acompanhar vovô, ou, em começo de mês, fazer compras na venda do seu Manuel, pagar contas no banco e, depois passar na dona Valquíria do brechó, para ver as novidades), invariavelmente se postava diante daquele espelho e perdia um bom tempo enfeitando o rosto e mexendo nos fios de cabelos que lhe caiam, em cascata, até a altura dos ombros. Eu amava de coração este momento. Nesta hora, a vovó abria a pequena caixinha de música.

A bela ‘dançadeira’, ato contínuo, logo se punha brejeira, em movimentos cadenciados, com seu vestidinho azul marinho, os sapatinhos brancos, os cabelos em desalinho, acompanhando o som calmo da melodia inconfundível que inebriava a alma. Ao ouvir os compassos daquela relíquia (que não sei por qual razão me faziam viajar em sonhos), eu largava o que estivesse fazendo no quintal e, de mansinho, pé ante pé, parava na soleira da porta para espiar pelo comprido da fresta entreaberta.

Sentava, quieto, num cantinho entre o corredor e o quarto e me deixava sem noção, ao desnorteio do nada, à escutar as sequências das notas que, docemente, se achegavam e me tocavam os ouvidos ternamente e, depois, inundavam meu ‘eu’ interior. Uma espécie de magia se propagava pelo ar. Este condão oculto de felicidade estendia a sua presença e se amplificava por todo o resto da casa. Invadia o quintal imenso, logo à frente os pastos e, tudo dava a impressão de entrar em harmonia vertiginosa com a linha melódica que vinha da pequena caixinha.

A clássica e exímia solista, a bem da verdade, possuia espírito incansável e irrequieto: embora magra e alta, não parecia se importar em nunca parar de bailar. Seus gestos leves e precisos (cadenciados e dentro do ritmo suave do espírito musical, como uma pluma), envolviam meus olhos numa sequência de pequenas quimeras que explodiam como fogos de artifício. À medida em que o encadeamento dos acordes se propagavam e seguiam em frente, de repente transbordavam às paredes do quarto, saiam pela porta, passavam por mim e se esvaiam por todas as dependências do resto da construção gigantesca.

Encostado à porta, inerte, eu me punha inebriado, extasiado, embriagado completamente fora de mim. Saia do chão. Literalmente. Voava mais longe e alto. Imaginava uma orquestra invisível, ao comando da batuta de um maestro igualmente maravilhado, vestido todo de preto, um lenço branco no bolso do paletó. Meu Deus! Que tempo bom! Tempo que não volta... uma quadra distante, esquecida, onde tudo se fazia lindo e perfeito, cabal, inteiro, completo e divinal. Impenetrável, inacessível, secreto e confidencial, tal como meus infindos pensamentos de moleque mal desabrochado para as intempéries da vida adulta.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, ES, 13-7-2021

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