sexta-feira, 23 de julho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Como feto sem cérebro

Aparecido Raimundo de Souza

HAVIA ALGO ERRADO NO AR. Alguma coisa nova que eu não estava sabendo distinguir, apesar de toda a minha vivência atrelada à experiência de vida. Afinal de contas, são mais de seis décadas. Mais de seis décadas. Não nasci ontem e, via igual, não sou moleque de escola, nem estou tão velho e gagá, que não consiga perceber ou distinguir quando uma novidade paira ao lado —, ou grosso modo —, tenta, de todas as formas possíveis e imagináveis, me atropelar os passos vividos, ou a serem dados em direção além. Eu percebia a novidade. Ela me cercava de todas as formas, de todas as maneiras, como se quisesse obstaculizar os meus caminhos já transcorridos. Mostrar que estava ali, viva e pulsante.

Era real e palpável a coisa e, como tal, bailava com toda a sua força e desenvoltura, com toda a sua energia, bem diante dos meus olhos. Todavia, por algum motivo inexplicável, apesar de bem desperto, as vistas arregaladas, todos os sentidos afinadamente apurados, concentrados no presente, apesar dos pés no chão, alguma coisa não me deixava enxergar com a nitidez devida. Aliás, eu via, mas com os medos e os receios de um neófito mergulhado em inexata compreensão. Dito de maneira mais clara. Como se alguém invisível e não devidamente materializado não me deixasse investigar os desdobramentos do meu próprio cotidiano e tivesse me colocado uma venda diante do meu rosto.

Podia quase pegar, apertar, tocar, sentir o cheiro, mas a coisa, ou sei lá o que, literalmente, se diluía, se desmanchava, se esvanecia. Sucumbia, a bem da verdade. Caia por terra, como água ligeira escorrendo pelos vãos dos dedos, como borra de café num ralo de pia. Nesta luta, ‘pelejativa’ para discernir, pelo menos o óbvio, separar o joio do trigo, me quedei em lembranças. Me deixei envolver por devaneios e quimeras adormecidas. Me deixei levar pelos sonhos. Ah, os sonhos! A magia dos mimos aflorava, e se expandia. Criava asas e voava como um pássaro voraz em busca de infinitos imensuráveis. Todo meu ser estava aberto às alegrias, à sentimentos bons, à condescendências que faziam a alma sorrir de alegria e se contagiar pela emoção.

Eu estava em festa constante, como se comemorasse os quinze anos com toda a pompa de um garoto que acabava de conquistar o mundo ao seu redor. Apesar disto, a barreira continuava inerte, difícil se ser transposta. Insistia, pesava, atrapalhava, não arredava pé. E o ‘algo estranho’, o obscuro, o esquisito ali, ao lado, no desespero, quase a gritar, ‘estou aqui, estou aqui... por que não me enxerga? Por que não me vê?!’. Decidi abrir todos os sentidos numa última tentativa de comunicação. Almejava a aproximação imediata com alguma coisa que me situasse no tempo e no espaço. Procurei deixar os pensamentos quietos, as ideias ordenadas, os afazeres do dia a dia acomodados num cantinho oculto dentro de mim.

Eu tinha um desvão dissimulado (aliás, todos nós temos um compartimento secreto, impenetrável), onde entulhava de tudo, um pouco. Uma espécie de lugar abscôndito que ninguém sabia onde é ou como se fazia para chegar. Somente eu tinha a chave, unicamente eu sabia o segredo do cadeado para ser aberto e, claro, como ascender transpondo as suas dimensões. Entretanto, nem assim eu atinei com o que me rodeava. Talvez fosse algo tão excelente, tão puro, tão divino que, por um breve instante, pensei com meus botões: ‘Quem sabe eu não mereça, talvez eu não seja agraciado, porque falta algo que me complete. Talvez eu não seja merecedor desta felicidade, talvez..’. então, num instante de lucidez, o fim da picada doeu deveras.

Percebi, que realmente, faltava uma parte. Um parcela do quinhão que formava o todo, ou o TUDO. Carecia, urgentemente, do condão encantado que entrelaçava sonho e realidade, realidade e sonho. O fio de Ariadne, não se fazia presente. Existia a beleza e o encantamento, a formosura e a delicadeza, mas faltava o complemento de um simples barbante, igual o de Teseu para chegar até sua amada. Traduzindo em miúdos: faltava o oxigênio para a vida, o combustível para a minha vida seguir adiante. Faltava, igualmente, o calor maior para o coração se sentir aquecido e pleno. Estava ausente o simples. Faltava o simples, assim como o corriqueiro. Como o interruptor, para ligar à luz, o beijo terno e envolvente para os lábios se abrirem na linguagem da materialização do amor.

Não dispunha da nota musical com a entonação exata, ou o timbre correto, o carinho para inebriar o silêncio denso e pesado que atormentava inquieto, rabugento, doente, pernicioso e desagradável o meu Tudo agora, ou o meu agora Tudo. Faltava, bem ainda, a parte gostosa da maçã, a tampa do tamanho da panela. Faltava a cortina da janela aberta em carícias plenas para um jardim florido... faltava o empenho que traria consigo o afago para o abraço da imensidão. Meu Deus! Estava ausente, a foto para completar o quadro no oco  das minhas lembranças, talvez, quem sabe, porque não existisse o viço da realeza na sua melhor forma de expressão. Faltava, em conclusão, a magnificência do TUDO. Nada existia sem o TUDO, assim como o TUDO, não existia sem o NADA.

O ‘algo estranho’ que me envolvia... o ‘algo raro’, que me amplexava, que me fazia tremer, que punha o meu coração à beira de um quase colapso e, eu não percebia (apesar de vivo, e em gozo de plena saúde física e mental), juro, eu não percebia, alias, não me dava conta de que estava Morto. Faltava, pois, a vida. Em outras palavras: eu estava ausente de TUDO. Eu era, por assim dizer, o cadáver ambulante. Aquele corpo inerte que, certa vez, Plutarco tentou colocar em pé. ‘Faltava algo dentro — teria comentado ele — depois de tentar experimentos de várias formas e posições’. Eu estava sem ar, sem cor, sem os batimentos cardíacos. Sem o sangue correndo nas veias.

Me achava desfalecido, inoperante, estático, sem o vigor das forças físicas. Distante, completamente divorciado dos movimentos da plenitude. Por assim, sem a inteireza do referto, sem a massa bruta do abundante, despregado bruscamente daquilo que nos é vital e indispensável, a plenitude não se criava, não se afundava em raízes sulcando a terra firme. Em campo paralelo, tampouco conseguimos viver à bel prazer. Menos ainda, resistir aos percalços e dar a volta por cima, condignamente. Pior, em todo este processo: enxergar, divisar ou vislumbrar com lucidez, um palmo à frente. Eu me tornara, nesta aventura, um fraco, um desvalido, um sem noção, um bocó, a ponto de entregar os pontos e adjetivar assim, sem mais nem menos, concluindo, que me transformei no reflexo devorador do N A D A.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 23-7-2021

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