domingo, 11 de julho de 2021

[O cão tabagista conversou com…] Ernani Matos: “hoje não teria mais estrutura física e disposição para encarar um voo de 12, 14 horas…”

Nome completo: Ernani Fernando Matos Cardoso

Nome de Guerra: Ernani Matos

Onde e quando nasceu?

24 de março de 1959, Rio de Janeiro - RJ

Onde estudou?

Escola Municipal México e Colégio Brasil, ambos em Botafogo.

Onde passou a infância e juventude?

Nascido em 1959, em casa mesmo, com parteira, em uma área simples de Copacabana, no topo da ladeira dos Tabajaras, onde morei até os 10 anos de idade. Nessa época, a família mudou-se para um pequeno apartamento no Leblon, onde residi até completar 22 anos.

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?

Minha infância foi normal para os tempos em que a vivi, brincando todo o tempo fora de casa, futebol, bola de gude, praia etc.

Estudava em escola pública, em Botafogo, e sempre ia de ônibus sozinho, mas os tempos eram outros.

Como brincava o dia inteiro e fora de casa, estava sujeito a acidentes. E no período de um ano, que eu me lembre, minha mãe teve que me levar ao hospital umas cinco ou seis vezes: duas vezes com cortes na cabeça e pregos, e corte com vidro nos pés, mas nunca fraturei um membro.

Entendo, tudo no devido padrão infância feliz… 😉

E ficou brincando e aprontando até que idade?

Meu período de ‘Curtindo a vida adoidado’ (Ferris Bueller's Day Off) foi até os meus 14 anos, pois após a escola – estudava na parte da manhã – almoçava e levava o almoço para o meu pai, que possuía uma loja de material de construção em Jacarepaguá, e trabalhava com ele até o horário de fechamento da empresa, fazendo a parte contábil, pagamentos, atendimento no balcão e outras coisas. 

Hummm… que segredo guardam as… ‘outras coisas’?

Minhas outras tarefas na loja, era descarregar e carregar todo tipo de material de construção, até onde o meu porte físico franzino permitia. Ao completar 17 anos, assumi a direção de um pequeno caminhão para entregas nas redondezas da loja.

Então, começou a trabalhar aos 14 anos, né?

Trabalhei dos 14 aos 21 anos na loja da família.

E depois desse período de ajudar o seu pai na loja, para onde transferiu a sua mão de obra?

Com 19 anos, acompanhando duas amigas ao escritório da Varig na Avenida Rio Branco, para se inscreverem na seleção para Comissária de voo, fui incentivado pelas amigas e pela funcionária que recebia as inscrições a me inscrever também, fato que jamais tinha sido a minha intenção. Meu processo seletivo durou cerca de dois anos e meio, sendo chamado para testes psicotécnicos de três em três meses, sendo todo o processo seletivo finalizado e o início do curso de aluno comissário em março de 1982.

Fez o curso de Comissário no prédio da sede?
Apesar de ter feito todo o procedimento de seleção para a Varig, a minha turma foi avisada no primeiro dia de aula que seríamos admitidos na Cruzeiro do Sul. O curso foi ministrado em uma área industrial no Caju, área portuária do Rio de Janeiro.

Lembra do seu primeiro voo?

Meu primeiro voo, juntamente com a colega de turma, Elizabeth Martins, e tendo como instrutor, Edvaldo (Didi), foi o SC 484, Rio/SP/Cuiabá/Porto Velho/Rio Branco/Manaus. (Acho que as escalas eram essas e nessa ordem, mas não tenho absoluta certeza).

Chegou vivo a Manaus? 😊
Tinha 22 anos, era meu primeiro voo como tripulante e como passageiro, estava excitado e muito apreensivo.

Ao chegar em Manaus, recebi a diária pelos cinco dias que durava o voo, que era maior que o salário que eu recebia antes.

Tudo sendo novidade, não tive tempo e nem condições de estar cansado.

Quanto tempo ficou voando SC?

Início do curso de comissário em março de 1982, com duração de três meses. Voei até setembro de 1984 na Cruzeiro, quando me transferi para a Varig em 2 de outubro de 1984.

E na Varig, como foi o seu primeiro voo?

Como dito, voei na Cruzeiro até setembro de 1984, e nessa época o DAC já tinha autorizado tripulantes de uma empresa a operarem aviões da outra, e até tripulações mistas, por esse motivo não tenho na memória o meu primeiro voo sob a bandeira Varig.

Na Varig, (re)começou no Electra?

Meu recomeço foi em rota nacional mesmo, somente após um ano voei fixo por um mês na ponte aérea.

Voei por quatro anos na Nacional, dois anos como Chefe de Equipe.

Em 1987, ano do fatídico acidente de Abidjan, estava fixo no B-707 fazendo essa rota mesmo.

Logo depois, passei a voar o B-767, que na época era uma espécie de mini-rai, até que veio a promoção para o DC10 e B747, e meu primeiro voo para Los Angeles.

Quais os pernoites de que mais gostava?

Porto, para visita a parentes e gastronomia, Nova Iorque e Los Angeles.

Como passava o tempo no pernoite?

No Porto, chegando ao hotel, banho tomado e direto no "comboio" para a cidade natal de meus pais.

Hotel Ipanema Park, Porto

Nos EUA, em todas as cidades que pernoitei, batendo pernas e compras.

Na Europa, sempre passeando, de preferência a pé, para conhecer as redondezas.

Rosane, esposa, voo para Paris, 1992

Passou por algum perrengue na sua carreira?

O maior sufoco dentro de um avião: duas horas antes de pousar em Nova Iorque, eu na executiva, carrinhos do café da manhã montados, a aeronave pegou uma pressão descendente, com uma perda de 300 pés de altitude, fazendo com que quem e o que estava solto na cabine, fossem lançados ao ar.

Após o atendimento aos passageiros machucados, pousamos e o avião cercado de bombeiros e ambulâncias.

Depois do atendimento e remoção de sete passageiros e um comissário para o hospital, levamos duas horas acompanhando o desembarque e entrevista dos passageiros às autoridades locais. O comissário teve a clavícula deslocada e braço engessado.

Qual é a cidade natal de seus pais?

Felgueiras de Resende, Viseu. 

Igreja matriz de Felgueiras, Resende, Viseu

Seus pais estão vivos?

Infelizmente não, mas as saudades mantêm os dois muito vivos em minha vida.

Acompanha a atualidade portuguesa?

Somente através de sites portugueses na internet, Portugal Infinito e Olhares Sobre Resende.

Mas tenho que seguir mais o noticiário sobre Portugal, pois desde janeiro de 2021 me tornei também cidadão português.

Parabéns! 😊

Voltando à carreira de Comissário de Voo… também recebeu telegrama em agosto de 2006?

Infelizmente recebi o telegrama em agosto de 2006, e por ironia do destino, estava na sede da ABI no Centro, em uma reunião, se não me falha a memória, patrocinada pelo sindicato. Todos com quem falei tinham recebido o telegrama, aí liguei para casa e fui informado da chegada dessa triste notícia.

Por que essa grande empresa brasileira pôde desaparecer?

Na minha visão foram vários os motivos para o encerramento da Varig.

Alto custo operacional, interesses políticos externos, falta de percepção das mudanças no mercado e, principalmente, pelo fato de a Varig não ter um dono, que deixaria a empresa para seus herdeiros, ocasionando disputas de egos nas diretorias anteriores, cada uma querendo ter mais poder do que outras.

Não entendi “pelo fato de a Varig não ter um dono, que deixaria a empresa para seus herdeiros, ocasionando disputas de egos nas diretorias anteriores, cada uma querendo ter mais poder do que outras.” O que quis dizer?

Se a Varig tivesse um dono, alguém com 50% mais uma ação, e soubesse que ao se retirar, passaria o comando da empresa aos seus descendentes, as administrações anteriores, não teriam feito tantos atos falhos na direção da empresa.

Eram conflitos constantes entre presidentes e a FRB, diretores atropelando outras diretorias, presidentes fazendo casamentos hollywoodianos de seus filhos, diretores sendo acusados de desvios, e outras mazelas que colocavam a Varig no mesmo nível de uma empresa estatal da época.

Abraçou alguma atividade depois?

Posso me considerar uma pessoa de sorte, pois no encerramento das atividades na Varig, de imediato, fui trabalhar na empresa de meu irmão, onde editávamos uma revista sobre produção musical. Inicialmente, fiquei cuidando da informática da empresa e ajudando os outros setores no que podia. 

Como gostava de fotografia, fiz um rápido curso e passei a ser o fotógrafo da revista, fazendo cobertura de eventos e assumindo o setor de distribuição da revista.

Após dois anos na empresa, abrimos o Jornal Nosso Bairro Jacarepaguá, que me ensinou, e muito, sobre o mercado editorial.

A vida seguia tranquila, mas com muito trabalho, até o início da pandemia, que obrigou a quarentena das pessoas, e consequentemente o fechamento do comércio e retração do mercado, ocasionando uma abrupta interrupção no mercado publicitário.

A revista e o jornal permanecem apenas online, sem a parte impressa, antecipando assim a minha merecida aposentadoria.

Saudades do voo?

Muitas saudades de alguns pernoites, de vários amigos, do salário e diárias, mas do voo propriamente dito, hoje não teria mais estrutura física e disposição para encarar uma viagem de 12, 14 horas, sem me alimentar ou dormir direito.

Como vai o Rio de Janeiro?
Continua lindo, mas ainda com as mazelas que lhe são inerentes, como a violência, e, consequência da pandemia, aumentou o número de pedintes nas ruas, a falta de cordialidade (que nunca foi muita) no trânsito.

Meu desejo, assim que minha esposa se aposentar, será a mudança para alguma cidade serrana, ainda não definida, para fugir do calor "infernal" do Rio.

Por que não Felgueiras de Resende??

A taxa cambial de Real para Euros torna impossível a transferência de domicílio para Portugal.

Verdade!

E o Brasil, como vai?

Sem entrar em juízo de valores, a situação do Brasil está extremamente polarizada, um lado defendendo o governo atual e o outro culpando-o de todas as mazelas.

A politização da pandemia, de ambos os lados, foi o maior causador de vítimas da Covid, pois o inimigo sempre foi o vírus e não os governos passados e nem o atual.

Mas as notícias que chegam, trazem uma esperança na recuperação da economia, e a valorização do Real. O Brasil continua com a esperança de ser o país do Futuro.

Periquitos que estavam numa gaiola de um pet shop no Freeway, posteriormente confirmado por uns urubus que encontrei na margem de, não sei se rio, córrego ou canal de esgoto, que corre transversalmente à Rua dos Aroazes, (que fica em Curicica, mas os moradores dizem “Barra da Tijuca”), me segredaram que você torce por um time de futebol carioca… em extinção. É verdade isso?

Notícias vindas de urubus, jamais serão verdadeiras, mas torço, até com muito ardor, pelo Clube de Regatas Vasco da Gama, o time com a mais bela história do futebol mundial, passando por um período difícil, mas com o apoio de sua imensa torcida, verdadeira e não terceirizada, conquistará o lugar que é seu por direito.

Ernani, a sério, como você viu a demissão do técnico Ricardo Sá Pinto e a recente lacração LGBTYZQEOC4?

Era um bom técnico, nada excepcional, mas veio dirigir um dos piores times do Vasco que eu vi jogar, não dava para fazer milagres.

Quanto à homenagem à bandeira da diversidade e respeito, o Vasco, como sempre, pulou na frente ao abraçar essa campanha, como foi feito anos atrás contra o racismo, e ser o primeiro time brasileiro a admitir um negro em seus quadros, apesar de eu ainda crer em respeito à pessoa, sem diferenciar cor, opção sexual, condição social e outras.

E qual o seu time em Portugal? FC Porto, né? 😊

Claro, como descendente de tripeiros, não podia torcer para outro.

O voto auditável/impresso vai passar?

Considero o voto auditável, a medida mais importante para sanear o Brasil, mas tenho muito medo dele não passar, principalmente com o empenho pessoal de alguns ministros do STF.

Já tem candidato presidencial em 2022?

Well, Jair Messias Bolsonaro, of course. 😉

Para quando uma visita a Portugal?

Estamos, minha esposa e eu, esperando essa pandemia mundial dar uma trégua, para irmos à Itália, Espanha e Portugal. Nesses dois últimos, visitaremos sobrinhas que residem nesses países. 

Já tomou a ‘vacina’?

Sim, já devidamente imunizado com as duas doses da Astrazeneca.

Uma pergunta que não foi feita?

Sobre a minha breve, mas muito construtiva passagem como conselheiro da ACVAR (Associação dos Comissários da Varig), que me demonstrou a máxima “quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela”, e, principalmente, que eu não sou um ser político.

A derradeira mensagem:

Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.

(Bob Marley)

Obrigado, Ernani! 😉

Conversas anteriores: 

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