sábado, 22 de maio de 2021

[O cão tabagista conversou com…] Aurorinha Vingança: “Ver uma mulher do Norte zangada é caso para fugir com o rabinho entre as pernas.”

Nome completo: Aurora Alexandra Faria Rodrigues

Nome de Guerra: Aurorinha Vingança ou Vingancinha mais nova

Onde e quando nasceu?

Nasci em 27 de novembro de 1977, no hospital São João de Deus de Vila Nova de Famalicão. A minha mãe deu à luz a sua sexta cria (euzinha).

Onde estudou?

Ora bem, eu amo a escola, gosto da escola desde o primeiro dia.

Fiz o ensino primário na Escola da Ribeira, uma linda escola da aldeia, minha professora primária, Dona Margarida, me fez querer ser como ela. Como eu a admirava, linda que ela era, sempre chique, de blusa aos folhos e fumava SG gigante (até isso eu achava maravilhoso). Além de tudo, era uma pessoa de um coração maravilhoso, num tempo em que todas as professoras tinham uma palmatória, a minha era um oásis.

Depois da escola primária fui estudar para a Vila ao lado da aldeia, fiquei cinco anos no chamado Ciclo da Vila das Aves, como só tinha até ao 9º ano, o ensino secundário foi feito na escola Didáxis - Cooperativa de Ensino, onde um dia seria professora também.

Com 17 anos fui para a universidade, tirar o curso de professores do ensino básico na variante de matemática e ciências. Foram os cinco melhores anos da minha vida lá no interior de Portugal, onde o tempo se divide por nove meses de inverno e três de inferno, na mítica cidade de Bragança.

Onde passou a infância e juventude?

A minha infância e juventude, até ir para a universidade, foi passada na minha aldeia, e foi a típica criação da aldeia, com muita brincadeira, felicidade. Foram tempos incríveis.

Aos dezessete anos fui para Bragança, todo o final de semana vinha para casa, fui sempre menina da mamã e as saudades apertavam, mas amei e amo Bragança.

Sou minhota de nascimento e transmontana de coração.

Por que “Vingança”? Você era uma espécie de “Chucky”? 😊

Que nada, sou uma santa 😂😂. Estes nomes de guerra vêm dos apelidos que as pessoas na aldeia são conhecidas. O meu pai era o senhor António Vingança, dono de uma mercearia, daquelas bem antigas, que abriu para se vingar do antigo patrão. Logo passou a ser conhecido por “Vingança”.

Aqui na aldeia todos tinham um nome associado a um feito. Tem os “caga na saquinha”, os “27”, os “rojões”, os “tomates de couro”, os “papa pestanas”… toda a gente tem um apelido ligado a um feito dos seus antepassados.

Depois d’ocê chegou mais alguém?

Não, fui a última e já vim tarde. A minha diferença de idades para os outros é grande. Sempre fui uma espécie de filha única, mas com cinco irmãos.

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?

Primeiro, fui sempre muito feliz e muito protegida. A minha infância me marcou a entrada para a escola, o quanto eu sonhava ser que nem a minha professora, e o nascimento do meu sobrinho mais velho que é uma espécie de irmão.

Minha juventude foi marcada pelas amizades que fiz com os meus três melhores amigos, os irmãos que eu escolhi, e com a morte, devido a um cancro no pâncreas, do meu irmão mais velho.

A morte do meu irmão marcou-me muito, principalmente assistir ao sofrimento dos meus pais que nunca mais foram os mesmos. Aliás, uma das coisas que mais me orgulho é dos meus pais: não tendo nada nos deram tudo.

Pessoas boas, a minha mãe ainda é viva, mantém uma enorme lucidez aos 85 anos. É a verdadeira mulher do Norte.

Minha avó, que morava numa aldeia, Cadavão, em Vila Nova de Gaia, hoje um bairro periférico, também tinha um apelido: o de Ti Amélia Saqueiro. Porque, se bem me lembro da minha mãe contar, meu avô – que não conheci – teria usado a serapilheira de sacos de batatas para fazer umas calças… 

E o que têm as verdadeiras mulheres do Norte que as outras (do Centro??) não têm?

Se perceber de antemão que está a conviver com uma mulher do Norte, terá mais hipóteses de sobreviver!
Andamos de mãos nas ancas, com um olhar penetrante e quase… ameaçador, para quem não nos conhece. 

Somos seguras de nós mesmas e enfrentamos o mundo com a certeza de que podemos derrubar tudo aquilo que se atravessar no nosso caminho.

Apesar do nosso caráter forte, nós coramos e ficamos envergonhadas com alguma facilidade. 

Não gostamos de ser o centro das atenções e muito menos de dar confiança a desconhecidos. Somos por natureza, muito generosas e preocupadas com tudo à nossa volta. Especialmente quando se trata de família. É ver-nos toda a hora a preparar e oferecer comida e a aconselhar mais um casaquinho por causa do frio! 

Ver uma mulher do Norte zangada é caso para fugir com o rabinho entre as pernas. A nossa timidez e generosidade desaparecem nos instantes que estamos zangadas e viramos máquinas de guerra.

Eu tenho o maior orgulho em ser uma mulher do norte. Somos as mulheres do Berço da Nação!

Quando começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar em 1999, como professora do primeiro ciclo, sou professora até hoje. Não consigo separar a Aurora da professora Aurora. Amo aquilo que faço e tenho o maior orgulho dos meus alunos que chamo de meus meninos. Mantenho amizade com a maioria, até hoje. 

22 anos na mesma escola?

Não, fiquei na mesma escola 15 anos, era uma escola particular. Hoje sou contratada do Estado, todos os anos estou num agrupamento de escolas diferente. Eu até gosto, aumento conhecimento e amigos.

Este ano estou em Braga, o ano passado na Trofa... Gosto de ir semeando aqui e ali.

O que acha da ‘palmatória’?

Sou totalmente contra, nunca tive problemas de disciplina na sala de aula. Já tive alunos difíceis, mas quando os mudamos é uma sensação única de dever cumprido.

Na sua peroração a respeito da mulher do Norte, não pressenti discurso feminista. Essa percepção está correta ou eu ficando velho (de mais)?

Feminista jamais, somos educadas para ser mulheres a sério, daquelas que encaram uma luta, mas somos femininas, maternais. E somos também muito matriarcas, a família é o nosso maior patrimônio. A Família é o centro de tudo.


Certíssimo! Esta sua resposta deixa entrever sua provável militância política no LIVRE ou no BE (Bloco de Esquerda). Am I right? 😁

Cruzes, credo, meu amigo, jamais em tempo algum! Eu já não gosto da "sinistra", acho que os ideais são demasiado irreais, mas o Bloco e o Livre têm mesmo ideias e ideais que não entram na minha compreensão.

Neste momento reconheço que não existe um partido político que mereça a atenção. Sou de direita, mas me sinto desolada com esta direita. São aquilo que chamo de direitinha, sempre politicamente corretos, sempre do sistema.

Noutras palavras, a Direita consentida (pela Esquerda)…

… uma direitinha pequenina que aceita tudo, que se verga a tudo... Tirando um ou outro, mas até esses já os apanhei em falso.

Nas eleições, você vai votar ou se abstém?

Vou votar, para ter o direito de reclamar... Devia ser obrigatório.

O que pensa do sistema eleitoral português (o eleitor vota no partido, não no candidato)?

Vota no partido sim, só assim se explica algumas vitórias nas eleições.

Qual a sua opinião sobre o atual governo (e presidente) de Portugal?

Péssimos, ruim mesmo, aproveitaram a pandemia para fazer o que queriam. E como os portugueses são mansos acataram tudo.

Encontras nas redes sociais grupos de apoio a esta gente. Que todos os dias mente, que todos os dias faz de nós parvos. Isto é, um desgoverno.

O presidente dos afetos é um desgosto total, um hipocondríaco, um louco, mas o português comum ama ele. Eu o chamo de marselfies. A sua frase mais famosa é “temos de apurar”.

Qual a cidade do Norte mais bonita?

Sou muito suspeita, para mim a mais linda cidade é Bragança, capital do reino Encantado de Miguel Torga. Cidade de gente boa, segura, e a gastronomia é única, bem como o vinho. Como eu gosto de um bom vinho.

Conhece o Brasil?

Tenho imensos amigos brasileiros, o brasileiro é um português com açúcar 😂😂.

Gosto da fé e da alegria dos brasileiros, até no mau conseguem tirar algo bom.

Nós cá, a nação do fado, somos mais tristes, pessimistas.

Nunca fui ao Brasil, mas pretendo ir um dia.

Se Deus quiser, e ele há de querer!

Conhecia a  revista Cão?

Sou muito fã da irreverência do Cão. Em português de Portugal o Cão é um fixe. Acutilante, com um humor refinado, gosto muito mesmo do cão.

Acompanha a atualidade brasileira?

Não tem como não acompanhar. A TV a cabo portuguesa nos contempla com a Globo e a Record, todo dia vejo o Cidade em Alerta, fã do Bacchi.

Agora a sério, acompanho e tento fazê-lo por órgão de comunicação daí, caso contrário as notícias e a atualidade já não é a mesma 😉.

Sobre a comunicação social lusa, comentário que deixei por aí, já faz tempo:

"Se os militantes travestidos de ‘jornalistas’ tivessem, vis-à-vis dos governantes portugueses, dez por cento da valentia que arrogam contra Jair Bolsonaro, outros estariam governando Portugal. Com toda a certeza!"

Você curte futebol?

Claro que sim, completamente portista. Viva o Porto, carago!!


Então, foi difícil conversar com nóis?

Foi muito bom, gostei imenso, aliás senti-me honrada.

Uma pergunta que não foi feita?

Fizeste todas as que achavas pertinentes.

A derradeira mensagem:

A vida é para ser vivida, aproveitar sempre todos os momentos. Ser feliz e fazer os outros felizes.

Obrigado, Aurora! 😉

Conversas anteriores: 

20 comentários:

  1. Muito simpática a Aurora. Parabéns!!!

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  2. Gostei muito da entrevista, parece uma pessoa extraordinária, muito culta e ótima maneira de se comunicar.

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    1. Sou uma simples professora , mae e esposa . Um abraço e muito obrigada pelo comentário.

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  3. Saudades de ouvir este português com sotaque.

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  4. Aurora Vingancinha,
    Agradeço e a parabenizo pela simpatia em responder aos comentaristas.

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    1. Um grande abraço Jim e quando vier às Terras de Cabral , venha almoçar cá em casa ,😉❤️

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  5. Espontaneidade e sinceridade cativam o público carente.
    cd

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  6. Muito boa a entrevista, culta e inteligente. Minha saudosa Dirce foi professora por 30 anos, sempre em sala de aula ( alfabetizadora)

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  7. Um abraço meu amigo , sua Dirce Está num lugar especial olhando por si

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  8. Aurora,
    Qual a sua opinião sobre o ranking das escolas?
    Obrigado!

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    1. #numaescolapertodesi ‼

      "Acho que já passou tempo suficiente para eu poder falar disto em público.

      Há mais de 10 anos, trabalhei com a Inspeção Geral de Educação num programa de avaliação de escolas. Conheci gente muito profissional com quem calcorreei dezenas e dezenas de escolas públicas em quase todos os distritos do Norte.

      Nunca me esquecerei da primeira escola que visitei, a pouco mais de 50 km do Porto. Uma criança que só tomava banho nos dias das aulas de Educação Física. Tinha vergonha e o professor mandava-a para o balneário 10 minutos mais cedo para ela se lavar. Quem levava a roupa suja da criança e lha trazia lavada e passada no dia seguinte era uma contínua da escola.

      Depois vieram outras histórias que fui amealhando. Meninos cuja única refeição quente era o almoço da cantina. Miúdos que à tarde levavam os restos do almoço escolar para casa para servirem de jantar para a família. Miúdos que ao fim de semana se alimentavam de bolachas Maria. Miúdos que aprenderam a gostar de ler na biblioteca da escola, que em casa nunca tinham visto um livro. Escolas que no inverno acabavam as aulas às 4 da tarde para que os pais das meninas não as vendessem por meia hora aos senhores dos Mercedes pretos parados à porta a coberto do escuro. Crianças alcoolizadas. Professores e funcionários à beira de uma exaustão horrível porque tinham de fazer de pais, mães, psicólogos, médicos, confidentes, assistentes sociais. Crianças que nunca tinham ido mais longe do que à vila lá da terra.

      A merda dos rankings, a cloaca dos rankings, a vergonha dos rankings serve para quê? Qual é o espanto em constatar sadicamente que os miúdos de casas sem pão ficam em último e os das fábricas de notas em primeiro? Ponham-me a jogar à bola com o Ronaldo e não é preciso vir nenhum ranking dizer-me que nunca lá chegarei.

      As escolas que se dão ao luxo de escolher à partida os seus alunos, que recebem os alunos que em casa comem e leem e viajam e falam inglês não têm grande trabalho a fazer. Todos nós, professores, sabemos que trabalhar com bons alunos é fácil. Difícil, desafiante (e apaixonante) é fazer dos fracos bons.

      O resultado de uma escola não se mede só pelas notas a Inglês e a Biologia. Há escolas em que o sucesso é alimentar e lavar os miúdos e isso não passa no radar dos filhosdaputa (pardon my French, mas o vernáculo é para ocasiões destas) dos rankings, cuja única função é apontar ainda mais a dedo aqueles que já são estigmatizados, excluídos, ridicularizados todos os dias, e fazer publicidade enganosa aos colégios "do topo".

      Conheço paizinhos com filhos problemáticos que acham que transformariam os seus filhos em génios se os inscrevessem de repente numa dessas escolas. Acreditam que há algo nessas escolas, uma varinha mágica impermeável ao resto, que fabrica génios. A ficha cai-lhes quando são os próprios colégios, em privado, a tirar-lhes o tapete. Nem sequer os admitem à entrevista. É bem feito.

      Honestidade intelectual: vão buscar um desses meninos que não comem nem tomam banho em casa, ponham-no numa das "top five" (mas ponham mesmo, não façam de conta), não lhes mudem nada nas condições de vida, e vejam se é isso que os manda para o MIT."

      João Veloso
      Meu amigo este texto de um colega é exatamente aquilo que eu penso sobre os ranking . Amo trabalhar como os mais pobres e ajuda - los a crescer . Para serem justos teriam de contemplar tanta coisa que provavelmente os últimos seriam os primeiros e os primeiros seriam os últimos.

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