sexta-feira, 27 de agosto de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Feito um pateta ao desabrigo do caos

Aparecido Raimundo de Souza 

TRIMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!
Acordei bruscamente assombrado e pulei da cama com o barulho infernal da sirene do despertador, quando ela partia para o quarto grito da campainha de alarme, numa sequência enervante zoando nos meus ouvidos. Pensei fosse o telefone. Atendi o despertador. Em lugar “do alô, quem fala”, ou do “pi, pi, pi, pi” tradicional, zuniu dentro do meu cérebro o toc, toc, toc, toc do maquinário da geringonça. Que dia é hoje? Segunda-feira, terça, quarta, ou sábado? 

O que eu tinha para fazer agora pela manhã? Ir à algum lugar específico? Antes, tomar banho, cotonetear a cera dos ouvidos, raspar a barba, aparar as unhas dos dedões dos pés, cortar os cabelos? Mas que droga: eu não sou barbeiro! Ah, lembrei. Mandar o café para dentro da barriga, ler os jornais, levar meu gato para as suas necessidades fisiológicas na pracinha. Alto lá! Gato? Gato ou cachorro? Meu animalzinho de estimação é um gato ou um cachorro? Nunca dei muita atenção à este particular. Também não recordo tê-lo visto miando ou latindo. 

Que loucura! Pablo -, grito por ele - Pablitinho, cadê meu celular? Qual o número do meu telefone? E o do fixo da casa dos meus pais? Onde foi que deixei as chaves do meu carro? Meu Cristo, cadê meu pai? Eu tenho pai? Como se chama meu velho? Eduardo, Mauricio, Roberto, Wanderley? E mamãe? Como é o nome dela? Qual o patronímico de batismo da autora dos meus dias? Filomena, Anastácia, Rosinha, Penélope, Ana? Acho que é Ana! O que eu faço parado aqui dentro do elevador? Acabei de acordar e pular da cama. Maldito despertador! 

Não tomei banho, nem café, tampouco raspei o bigode. Não passei os olhos nos jornais, nem usei o sanitário... se ao menos tivesse um punhado de pombos, voando por ai, por certo eu estaria dando de comer à eles. Se não existem pombos nas redondezas do edifício, por que é que eu entrei no elevador e desci com o gato e trouxe um saco de arroz cozido? Acaso essas aves gostam de batatas fritas? Onde eu moro? Cadê meu prédio, meu apê, meu quarto, meus chinelos? Qual é a cor da minha geladeira? Tem algum jardim na minha varanda, com rosas vermelhas, lírios ou crisântemos? 

Alguém lembrou de botar portão com cerca elétrica e câmeras de segurança nas áreas comuns do condomínio? Não, isso tem lá em casa. Tem?! Na minha cama, com certeza, poderá ser encontrado outras tranqueiras, como lençol, travesseiro, colcha, edredom, garagem... por falar em garagem, onde foi que enfiei o meu carro? Será que deixei em frente a padaria? Toda esta celeuma está se desenrolando pelo fato de eu ter chegado muito depressa à doidice e devagar, quase parando, ao conceito lógico de tempo e espaço. Em vista desta descompensação hereditária, não aprendi a discernir o certo do errado. 

Sigo, pois, transvivendo a minha idiotia instável como uma montanha sisuda em face da ausência de fotografias em preto e branco no clic da minha máquina do tempo. Quem são estas pessoas reduzidas em 3X4 nos documentos da minha carteira de identidade e de trabalho? Minha cuca está realmente fundida. Doida, destrambelhada. Meu corpo, de repente, ficou pesado. Minhas pernas passaram a doer com mais intensidade. Os pensamentos nem toco neles. Completamente despropositados. Deixei meu molho de chaves com alguém. Molho? Chaves? 

Estou me sentindo preso. Ouvi alguém gritar que estou engaiolado. Mas por quê? Serei um passarinho estranho em ninho alheio, ou um bandido violentamente sanguinário e frio como uma pedra de gelo boiando num copo de vinho tinto? Uma vitima do destino? Por outra: matei alguém, roubei, estuprei alguma vagabunda dessas que ficam ai pelas esquinas fazendo vida? Arre! Vida não se faz, se vive. Oxalá, por qual motivo, razão ou circunstância, meus olhos estão vendo o sol nascer quadrado? 

Furtei a carteira de algum cidadão no meio da rua? Roubei balas de uma velhinha no ponto de ônibus? Passei uma rasteira na filha do meu vizinho de frente que é agente da policial federal? Mantive relações com uma porca? E o marido dela, um suíno com cara de Renavan Galheiros deixou? Por acaso, enquanto eu fustigava o animal, ela (a porca) chegou a grunhir? Afinal, quem sou eu? O que faço? Minhas chaves! Droga, onde colocaram a frigideira (que frigideira?) onde colocaram a garagem do meu carro? Cade o gato?. Cada momento é um passo em falso. 

Mesmo norte, cada minuto um avesso feito verso reverso. Por esta razão, estou comendo carne de mijo à enumeração tremulante de assombros histéricos. Qual o quê! Sou anjo exterminador. Não, de forma alguma. Anjo é coisa de Lula. A carne que eu devoro não é carne comum. É filé de ninfeta. De ninfeta? Não! De moça bonita? Não! De vadia? Não! Perereca não se come, não se viola, não se engole. Vixe! Isto é como maltrapilhar a prostituição. Que coisa! Não gosto de pecar... sou anjo decaído. Meu gato, os pombos... Um tal de José não sei das quantas, me ligou a noite passada, para ir fazer com ele um programa de índio. 

Na verdade, acompanhá-lo a um velório. Quem morreu? A democracia? Ela mesma! Entretanto, quem é José? O defunto? O que é um velório? O que é um programa de índio? Pior, o que venha a ser um defunto? Devo ir coberto de penas? Usar um repolho na cabeça e, nas mãos, carregar um arco e flecha pronto para ser usado? Mas usado contra quem? Tenho a impressão de que somente uma vela preta acesa resolveria o problema da Flordelis. Flordelis ou Flor de Lis?. Onde arranjar uma vela acesa, se os fósforos foram todos queimados e os que sobraram se encontram em processo de “saidinha da caixa” para se transformarem em isqueiros eternos junto com o ex que ela matou, o pastor de ovelhas desgarradas Anderson do Carmo? 

Meu problema, agora, é um só: saber da minha garagem e, claro, do carro que estava... que estava... que estava no meu bolso... como isto pode estar acontecendo comigo? Sinto que cai água do céu. Quem será que abriu a torneira lá em cima? Meu gato? São Pedro? São Gonçalo? São Jorge? Talvez ele, São Jorge, esteja dando banho em seu cavalo. Quando cai água do céu, o que se deve fazer? Entrar na casinha do cachorro, dar comida aos pombos, bater na porta da velhota pervertida do 403, me esconder na guarita do guarda que toma conta aqui do condomínio, ou gritar, urrar, botar a boca no trombone? 

Careço esperar um minuto e pensar: que loucura é esta que me esmaga? Não é torneira. Não existe torneira no céu. É chuva. Chuva molhada, lógico... chuva não sai de torneira, nem vem pelo cano. Ela entra, pelo cano. Ora, se entra pelo cano, terá alguma coisa a ver, ou melhor, alguma ligação com aquele miSInistro do STF, um tal de Marco Desmarcamo Aurélio Aurélia que dizem ser decano? Teria, ele, realmente, dado o cano? E a droga do meu carro? Onde coloquei a garagem das minhas chaves? Recebi uma carta de uma fã que mora em Londres. Londres fica na Bahia? 

Não! Em Florianópolis? Também não. Em Brasília? Nem uma coisa, nem outra. Londres fica em Londres, ora bolas! Brasília foi destruída pelas canetadas do Alebixandre de Morraes. Não tenho ninguém em Londres. Muito menos uma fã. Só tem fã quem é conhecido e eu sou um tremendo zero à esquerda. Resumindo a ópera, nem ao menos sei quem sou, ou o que faço, ou que apito toco. Apito? A carta (carta?) não importa. A carta dizia que... nossa, não é que não me lembro! Tudo segue por aqui, girando como num imenso carrossel dentro de um parque infantil desativado que se abandonou por conta própria. 

Meu impulso autodestrutivo, por seu turno, não cansa de promover confusões desordenadas, uma após outra, dentro da minha estupefação mal ajambrada. Enleado a este furdunço de tempo instável, percebo que só me castiga a memória, a porcaria das chaves. Chaves? Que chaves? Lembrei: as chaves do meu carro. Meu carro? Meu Deus! Meu querido carrinho sumiu. E a garagem?... a garagem deve ter ido de carona com o gato e a comida dos pombos! Será que a filha da mãe da garagem se sentou, faceira, no banco ao lado de meu motorista fantasma? 

Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 27-8-2021 

Colunas anteriores: 
Efeito colateral 
O terceiro testículo 
Quem sai aos seus não degenera
A Rosa
Punctum saliens
Como feto sem cérebro 
Lados opostos 
Tarja com caveira

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