segunda-feira, 23 de agosto de 2021

[O cão tabagista conversou com…] Mário Florentino: “Em Portugal, claro que todo o debate de ideias está enviesado, mas isso vem de trás, da revolução de 74.”

Nome completo: Mário Alberto Arango Florentino

Nome de Guerra: Mário A. Florentino (ou Mário Arango, ou MAF, consoante as guerras)

Onde e quando nasceu?

Em Lisboa, no dia 13 de maio de 1969.

Onde estudou?

Na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

O que cursou?

A licenciatura que tirei inicialmente foi Economia, mas depois fiz vários outros cursos. Na realidade, sou uma espécie de colecionador de cursos, gosto de estar sempre a estudar. Ainda no tempo da licenciatura, tirei também muitas cadeiras de Gestão de Empresas, e depois, no último ano, fiz parte de um MBA, em Antuérpia, na Bélgica, ao abrigo do programa Erasmus. Mais tarde, fiz um mestrado em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas, no Instituto Superior Técnico. Passado uns anos, fiz um outro mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, com a especialidade em Política Comparada. Nestes dois mestrados, fiz só a parte letiva, não fiz a tese, pelo que não tenho o título de Mestre. Depois fiz ainda uma outra pós-graduação, em Gestão de Empresas de Telecomunicações e Tecnologias de Informação. Enfim, já tirei muitos cursos, o próximo terá de ser um doutoramento, vamos a ver quando consigo. Falta decidir em que área do conhecimento, porque tenho interesses muito diversos. 

Onde passou a infância e juventude?

Passei a infância e juventude em Lisboa, nos Anjos e no Lumiar. Durante as férias, passava grandes temporadas numa aldeia na Galiza, chamada Ermida, que fica no concelho de Covelo, na província de Pontevedra. Os meus avós tinham lá uma casa, que ainda é da família, e eu e os meus irmãos passávamos lá todos os anos, pelo menos, um mês, às vezes dois. Na adolescência, comecei a ir também por vezes ao Algarve com a família, normalmente ficávamos na praia de Monte Gordo.


"Com os meus pais e meus irmãos; eu sou o 1º à esquerda"

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?

Tive uma infância feliz, sem grandes sobressaltos. Recordo com saudade as férias de Verão, sempre divertidas, eram os melhores momentos, sempre com grupos de amigos, jogávamos muito futebol de rua, com duas pedras a fazer de balizas. Recordo as longas viagens que fazíamos no início de agosto, de Lisboa para a Galiza. O carro do meu pai não era muito grande, mas cabíamos todos, ele e a minha mãe, e nós, os quatro irmãos, e uma gata, mais a bagagem para férias de um mês.

"A Ermida, aldeia dos meus avós, na Galiza, onde ainda temos casa de família"

Parte dessa bagagem era colocada em cima do tejadilho do carro. Ainda não havia autoestrada até ao Porto, fazíamos o caminho pela Estrada Nacional e levávamos horas, com longas filas de trânsito. Como saíamos tarde de Lisboa, tínhamos que dormir a meio do caminho, normalmente na zona da Cúria, e no dia seguinte arrancávamos de novo, para chegar à Galiza de noite. Durava dois dias uma viagem que hoje fazemos em cinco horas. Era uma aventura. Mas era muito divertido, apesar de andarmos sempre à bulha, eu e os meus irmãos.

Quando começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar logo a seguir ao término da licenciatura, em 1992. Fui fazer um estágio na União de Bancos Portugueses, um banco que já não existe. Mas estive lá apenas cinco meses, depois concorri a um lugar de economista no Instituto das Comunicações de Portugal, que agora se chama ANACOM, e é o regulador das comunicações, e é onde fiz grande parte da minha carreira, e onde hoje em dia trabalho. Mas pelo meio estive noutros sítios.

Atualmente reside em Lisboa?

Sim. Na realidade, regressei no ano passado à minha cidade natal. Tenho vivido sempre na linha de Cascais. Em São Domingos de Rana, Estoril e na Parede.

Tinha vontade de voltar a Lisboa há muitos anos e em 2020, mesmo antes da pandemia, vim morar em Benfica.

Em 1980/81, baseado pela Varig, morei na Parede, quase encostado à Madorna. Adorei.

Que giro. O mundo é mesmo uma aldeia. A minha casa na Parede, onde morei até ao ano passado, na Rua Carlos Paião, fica mesmo perto, no Alto da Parede, entre o Murtal, o Penedo e a Madorna, precisamente.

Você morava nesse endereço em 1980?

Não. Em 1980 ainda morava em casa de meus pais. Morei no Alto da Parede recentemente, entre 2015 e 2020.

Dentre os seus “interesses muito diversos” está o da Política?

Sim, claro que sim. Como disse, estudei ciência e teoria política, no Instituto de Estudos Políticos da UCP. Interessa-me tanto do ponto de vista mais acadêmico, a filosofia política, como do ponto de vista do fenômeno político,

Acompanho e sigo a atualidade social e política, gosto do debate de ideias e de seguir e analisar a vida partidária e das instituições públicas.

Você acha que nos dias atuais, gramscianos no esplendor, existe “debate de ideias”?

Pois. Isso é uma pergunta difícil, dava "azo para mangas". Poderíamos ficar aqui um dia inteiro a conversar só sobre essa questão. Ou vários dias. Por um lado, a grande massa da população não se interessa nada por política, muito menos por discutir ideias. Mas, por outro lado, isto são tempos novos, não só pelo fenômeno das redes sociais, que permite que muita gente que antes não participava no debate agora tenha voz. E, pelo menos em Portugal, há muita gente que agora é comentador político nos jornais ou na TV, que começou primeiro nos blogues, nos anos 90, e agora nas redes sociais. E ao escreverem nestas redes, depois tornaram-se conhecidos do grande público e entram no debate público mais alargado.

Em Portugal, claro que todo o debate de ideias está enviesado, mas isso vem de trás, da revolução de 74.  E está enviesado porque toda a gente pensa como socialista, no sentido que a lógica é sempre a do Estado, está enraizada nas pessoas comuns a lógica de que o Estado é que importa, é que faz avançar a sociedade.

É uma cultura precisamente oposta à tradição anglo-saxônica onde o foco do povo é limitar o Estado, não deixar que o Estado interfira na sociedade, no dia a dia das pessoas.

Em Portugal aconteceu um fenômeno interessante há cerca de dois, três anos, que foi o surgimento deste novo partido que é a Iniciativa Liberal.

Num país com uma cultura tão estatista e socialista, este partido é uma pedrada no charco, uma lufada de ar fresco. E depois, tem outra vantagem, é um partido de ideias e não de pessoas. Ao contrário, por exemplo, do Chega, centrado na figura do seu líder.

E como todas as pessoas estão um pouco fartas dos partidos tradicionais, daquela cultura partidária de caciquismo e de favores, sempre os mesmos, sempre as mesmas guerrinhas pessoais que já ninguém aguenta, este partido IL faz a diferença, porque obriga a pensar. Daí o seu sucesso nas camadas jovens urbanas. Já conseguiu um primeiro deputado, e prevejo que continue a subir. E assim desejo.

Na realidade, penso que também contribuí um pouco para o surgimento do pensamento liberal clássico em Portugal, quando em 2002 fui um dos fundadores de uma associação chamada "Causa Liberal". As ideias desse grupo de amigos que criou a Causa Liberal no início do século são as mesmas do IL, e em 2019 começaram finalmente a ser conhecidas dos portugueses.

Ao contrário, por exemplo, do Chega, centrado na figura do seu líder.Mas… o PS não é centrado na figura do seu líder? Assim como o PCP, o PSD, o BE?

Sim, o PS claro que sim. E esses outros também. O PSD talvez menos. É um partido com características muito próprias. Não existe tanto "clubismo" no PSD como no PS, nada que se pareça, pelo menos neste momento.

O PCP e o BE, claro que sim. E o meu ponto foi mesmo dizer que o IL é que faz a diferença, daí eu dizer que foi, e é, uma lufada de ar fresco.

Outro sinal, que levo muito em conta, a IL não é tão atacada pela esquerda e extrema-esquerda e pelos militantes destas travestidos de jornalistas, como é o Chega ou o Ventura…

Interessante essa pergunta. São fenômenos muito distintos, eu acho. O Chega é atacado com toda a violência porque teve uma ascensão meteórica, e, atualmente, algumas sondagens até colocam o Chega em terceiro lugar, à frente de BE e PCP.

O IL é um partido diferente do Chega em tudo, só se fala dos dois em conjunto porque apareceram mais ou menos ao mesmo tempo e são dois partidos, se quisermos, da área da Direita ou Centro-direita, fenômeno que não acontecia em Portugal há décadas. A esquerda sempre esteve dividida, ao passo que na direita só havia PSD e CDS, e muitas vezes juntos, na AD.

Mas atenção que, no início da IL, antes de ter elegido o deputado, era também atacada por jornalistas e comentadores de uma forma agressiva e ridícula. Mais que atacada, era desprezada. Diziam tratar-se de uns "miúdos mimados" e coisas parecidas.

Depois, quando apareceu o Chega, alguns comentadores "mainstream" até começaram a elogiar a IL ao fazer a comparação entre os dois, o que faz sentido para um eleitorado moderado, claro. Mas por outro lado, na esquerda e extrema-esquerda, há muitos comentadores, como o Francisco Louçã e o Pacheco Pereira, que revelam um ódio quase visceral ao IL, inventam mentiras só para atacar. Um pouco como fazem com o Chega.

Enfim, faz parte da sua lógica de estar na política. Mas o IL não responde a esses ataques, e faz muito bem. Continua o seu caminho sereno e moderado, divulgando as ideias liberais de que tanto Portugal precisa.

Quem o Pacheco Pereira NÃO odeia?

Pois 😄 enfim, também não sejamos mauzinhos... Ele é um tipo interessante, claro. O que é curioso é o percurso dele, que veio dos grupos maoístas (MRPP), depois foi dirigente destacado, deputado, e eurodeputado do PSD (ainda é militante, acho), e agora tem de novo ideias próximas da extrema-esquerda radical. A última vez que li coisas escritas por ele, parece-me mais um militante do BE, ou ainda mais à esquerda. Não faz mal mudar de opinião, mas o que acho estranho nele é dizer agora exatamente o oposto do que dizia há uns anos. Eu gostava muito do Pacheco Pereira há uns 10 ou 15 anos, tinha um blog muito bom, chamado Abrupto, que eu visitava todos os dias e era crítico feroz do Governo PS da altura. O que ele escrevia lá, eu concordava. Hoje diz o oposto com a mesma convicção de antes... tudo bem, mas penso que perde credibilidade.

A esquerda e a extrema-esquerda odeiam tudo o que as rodeia. Essa gente não vive de valores, jamais!, mas de e com rancores.

Certo. Eu tenho muitos amigos de esquerda, talvez até mais do que de direita. O que reparo nos amigos de esquerda - e isto tanto acontece nas pessoas comuns como nas elites - é que as pessoas de esquerda acham-se superiores, não aceitam quem é de direita, ser de direita é como ser criminoso.

Na prática, têm falta de cultura democrática, não aceitam o debate de ideias, não admitem quem pensa de forma diferente. Se alguém tem opinião diferente, liberal por exemplo, respondem: "isso é de direita" ou "isso é fascista", e corta-se aí o debate, como se fosse proibido ser de direita.

Nos amigos ou nas elites de direita não vejo isso. Aceita-se a opinião distinta e discute-se de igual para igual. Este desequilíbrio é fruto da revolução de 74/75, e está enraizado na cultura política até hoje.

Está a demorar muito tempo até se conseguir sair desse desequilíbrio, mas finalmente está a acontecer um pouco, com estes novos partidos. Isso é bom para a democracia.

O povo português é de esquerda?

Não, não considero isso. Enfim, como disse atrás, de um ponto de vista "cultural", sim, é um pouco, como resultado da revolução do 25 de Abril de 1974. Mas, politicamente, não me parece que seja de esquerda, nem de direita. Haverá um equilíbrio entre direita e esquerda semelhante à maioria dos países da Europa Ocidental, e os estudos de política comparada comprovam isso. Portanto não deverá estar muito longe dos 50% para cada lado, sendo que no meio há um eleitorado chamado do "centro", que umas vezes vota à esquerda e outras à direita.

Agora, embora eu considere que a divisão entre esquerda e direita continue a ser válida, até de um ponto de vista académico, há uma outra divisão que me interessa mais, que é entre liberalismo e autoritarismo, e os portugueses em geral não estão habituados a esta dimensão. Mas ela é mais importante até. Por exemplo, partidos como o BE e o PCP são partidos que defendem regimes autoritários e recusam a democracia liberal e o pluralismo político. O PSD e o PS são partidos democráticos e liberais, embora - e isso é o que me preocupa, e deveria preocupar todos - o PS esteja numa fase com tendências algo autoritárias. E não é só pela proximidade ao BE e ao PCP, porque precisa do apoio desses partidos para aprovar as leis no parlamento, e por isso faz cedências, demasiadas cedências, que atrasam o desenvolvimento do país. Mas o próprio PS, pelos seus dirigentes atuais e figuras principais, revela uma arrogância e sobranceria com tiques de autoritarismo.

Do outro lado, do lado do liberalismo - que é o oposto do autoritarismo - temos a Iniciativa Liberal. O partido IL é o partido que mais se aproxima do modelo prevalecente nas democracias liberais ocidentais, que é também defendido pelo PS, PSD e CDS. É por isso muito curioso, e só compreensível no âmbito da luta político-partidária, ver pessoas próximas do PS chamarem de "radicais" ou "fascistas" ao IL. O IL é o partido que mais se aproxima, neste momento, dos ideais de liberdade do 25 de Abril. Claro que falo dos ideais puros de liberdade que foram apenas implementados após o 25 de novembro, e nada têm a ver com o PREC, um período em que se pretendeu implementar uma "ditadura do proletariado" que nada tinha a ver com democracia liberal.

O que foi o PREC?

Bem, essa pergunta dava para uma entrevista inteira... Quem saberia explicar melhor que eu seria precisamente o Pacheco Pereira, que o viveu 😊. Mas vou tentar resumir para quem nunca tenha ouvido falar. O Período Revolucionário Em Curso, PREC, foi o período que se seguiu à revolução do 25 de Abril em 1974, e antes de se instaurar a democracia de tipo ocidental em Portugal, em 1976. Nesse período, e simplificado um pouco, havia duas tendências, por um lado os que queriam criar a chamada ditadura do proletariado (dizia-se até que Portugal seria "a Cuba da Europa") - agora até se falou muito nisso a propósito da morte recente do Tenente-Coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

"Um livro sobre o PREC, com o famoso
cartoon do João Abel Manta"

E do outro lado estavam os que defendiam a instauração de uma democracia pluralista de tipo ocidental. Nestes estavam os militares do chamado "Grupo dos Nove", e também os partidos moderados, PS, PSD, CDS, portanto, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Do outro lado, estava o Partido Comunista de Álvaro Cunhal, que pretendia uma aproximação ao regime soviético.

Estas duas forças estiveram em confronto durante esse período, e houve momentos em que se viveu quase à beira de uma guerra civil, com vários golpes e contragolpes, e muita violência, como ataques às sedes dos partidos de um e de outro lado. No fim, e para resumir uma história longa, deu-se o 25 de Novembro, que foi uma tentativa de golpe falhado da ala comunista, acabando por vencer o lado democrático, liderado pelo Ramalho Eanes e pelo Jaime Neves.

A partir do 25 de Novembro de 1975, ficaram finalmente criadas as condições para os militares abandonarem o poder, e serem realizadas as primeiras eleições livres, que aconteceram em 25 de Abril de 1976. Foi assim que surgiu a democracia representativa de tipo ocidental.

Mas aquele período do PREC foi muito complicado, com os radicais a praticarem vários atos violentos e as populações com medo que Portugal se tornasse um satélite do regime soviético. O que esteve perto de acontecer, e muita gente não conhece essa história. Nas escolas ensina-se o 25 de Abril, mas ignora-se totalmente o 25 de Novembro... Por isso as gerações mais novas não conhecem.

Como avalia o atual Governo de Portugal?

O atual Governo é muito fraco. Não tem um rumo, uma estratégia, não quer reformar o país, não tem ambição. E, pior do que isso, não governa para o bem do país, mas apenas para manter o poder, e satisfazer as suas clientelas. O PS atual tem uma cultura de "assalto ao poder", o seu grande objetivo é submeter a sociedade ao poder do partido, e para isso coloca os seus fiéis nos lugares-chave das instituições do poder.

E não é apenas na Administração Pública e nos organismos do Estado, é também nos Tribunais, e nas instituições independentes. Isto impede o regular funcionamento dos "checks and balances" necessários ao bom funcionamento do regime democrático.

Vimos isso nos episódios da não renovação do mandato da anterior Procuradora Geral da República, na nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal, e muitos outros casos. Segundo uma notícia recente do jornal Expresso, quase 70% das nomeações para altos cargos do Estado foram baseadas em regras viciadas. Tem havido, com este governo, uma diminuição da qualidade da democracia, e isso é visível em vários indicadores, como o da corrupção, falta de transparência etc. 

Mas pior ainda é não haver perspectivas de melhoria das condições econômicas. Nos últimos vinte anos, a maioria com governos socialistas, estamos a perder lugares no ranking do PIB per capita da União Europeia, estamos a ser ultrapassados por vários países e, se continuarmos assim, ficaremos em breve no último lugar. O governo não tem uma estratégia para mudar isto. O Plano de Recuperação e Resiliência, ao apostar tudo no Estado e não nas empresas, não me parece que vá mudar este estado de coisas. Um investidor não tem razões para investir em Portugal, neste momento. Portanto, avalio mal o atual Governo. 

Ainda voltando ao PS, há um ponto que gostava de frisar. Este partido está ferido moralmente perante os portugueses. Um partido decente, qualquer partido decente numa democracia ocidental teria feito um mea-culpa, e uma condenação forte e veemente do governo Sócrates e da sua conduta como PM e como líder do partido. Se tivesse feito essa condenação, os portugueses poderiam voltar a confiar no PS. Mas, pior, não só não o fez, como hoje temos no governo vários ministros e secretários de estado que estiveram nesse governo de Sócrates. Isto é absolutamente inacreditável. 

Ao não o fazer esse corte, é natural pensar-se que as práticas são as mesmas das desse governo. Por exemplo, a falta de transparência, a tentativa de controlo dos media, que é crescente e preocupante. Assim, não há forma de o povo confiar nos seus governantes. Depois, claro, abre-se a porta aos “populismos”. E, note-se, não falo dos processos jurídicos contra Sócrates, esses serão julgados na Justiça, no Tribunal. Falo naturalmente do comportamento político eticamente condenável.

Mas as sondagens apontam o PS com ampla maioria…

Sim, claro. Mas isso é muito curioso. Como é que um partido que teve o Governo de Sócrates, e que praticou tudo aquilo que se conhece, levando o país à beira da bancarrota, consegue depois ganhar eleições? Isso dava uma interessante tese de doutoramento em ciência política, explicar esse paradoxo 😊. Em todo o caso, isso não é rigoroso, porque o PS de Costa não ganhou as eleições de 2015, foi o PSD com Passos Coelho (e apesar da Troika) que ficou em primeiro lugar. Mas como não teve maioria absoluta, não pode governar, e o PS aliou-se à extrema-esquerda para formar aquilo que se chamou de "geringonça" (aliança do PS com o PCP e o BE). Depois, nas eleições de 2019, já como Rui Rio na liderança do PSD, aí o PS ficou à frente.

Mas voltando à pergunta, como é que as sondagens dão ampla maioria ao PS neste momento? Eu explico por duas razões. A primeira, a total ausência da oposição. Rui Rio não faz oposição, elogia mais o Governo do que critica.

A segunda razão tem a ver com o momento atual de pandemia. António Costa, muito no início, até era contra o confinamento, só foi convencido pelo Marcelo. Mas rapidamente mudou a sua posição. E mudou por quê? Esta situação de pandemia, e falta de segurança leva ao medo das populações. E esse medo é excelente para quem está no poder. Quem está no poder adora que as pessoas tenham medo, pois é uma forma de reforçar esse poder e controlar as pessoas.

E repare, ainda esta semana há um episódio curioso. O Governo criou um Despacho onde se define os alimentos que não se podem vender nos bares das escolas. Isto é típico de uma ditadura, chega-se ao ponto de detalhar quais os tipos de bolachas, com pepitas de chocolate, ou com cobertura disto ou daquilo, que são proibidos. Então o Governo tem de fazer de "paizinho" e decidir o que se pode ou não comer nas escolas? As famílias não são responsáveis para decidir por si? Mas isto é apenas um exemplo de centenas que eu poderia dar em que o Governo decide interferir com a liberdade das pessoas.

Só que muitos portugueses gostam mesmo que mandem neles, que interfiram, que quem está no poder faça de "paizinho" que decida por eles. Era assim no tempo do Salazar e continua a ser assim com o atual Governo.

E essa medida das escolas é obviamente inconstitucional, como são inconstitucionais as muitas medidas absurdas que o governo tomou no âmbito da pandemia. Qual a lógica de ser obrigatório um certificado Covid para jantar num restaurante ao fim de semana, e durante a semana não? Então o vírus só circula no fim de semana? E poderia dar muitos outros exemplos.

Mas numa pandemia o Governo abusa do seu poder, porque as pessoas têm medo. Só que, como dizia o grande filósofo Isaiah Berlim "liberdade é liberdade, não é igualdade, ou equidade, ou justiça, ou cultura, ou felicidade humana, ou uma consciência tranquila". Liberdade é liberdade, ponto final. E nestes tempos difíceis, de pandemia, as democracias liberais deviam ter muito cuidado com a liberdade que estão dispostas a perder em nome de outras coisas.

São tempos muito estranhos e difíceis. Mas em tempos destes, e ainda com a pandemia ativa, é natural que as pessoas não arrisquem e votem em quem já conhecem. Ainda mais quando a oposição (entendida como o maior partido) desapareceu.

E o Presidente da República?

O Presidente Marcelo. Bom, aqui tenho de dividir a resposta em duas partes. Por um lado, a pessoa Marcelo Rebelo de Sousa. Por outro lado, a sua atuação enquanto PR. Eu admiro muito o Professor Marcelo, acho-o uma pessoa brilhante, teve uma carreira política brilhante. Na realidade, ele é também um pouco responsável por eu ter este “bichinho” da análise política, pois nos anos 80 o Professor Marcelo tinha um programa semanal na rádio TSF, onde comentava a atualidade, e atribuía notas aos atores políticos de então, como se estivesse a dar notas na faculdade (de 0 a 20).  Ele realmente era brilhante como comentador, depois passou para a TV, e foi assim que ganhou popularidade que lhe permitiu ser eleito PR. E é também um excelente professor, dizem todos os seus alunos. Resumindo, é uma pessoa muito inteligente e com grandes qualidades, justificando a enorme popularidade que tem, dentro e fora do país. É um fenômeno.

Quanto à sua atuação enquanto Presidente. Votei nele na primeira eleição, e já não votei na segunda. Creio que tem sido um mau PR essencialmente porque está demasiado colado ao Governo. Em certas situações tem sido até um “bombeiro” do governo, sempre pronto a ajudar e dar uma mãozinha quando o governo está em dificuldades. Ao apoiar todas as políticas do governo, que são más políticas e que conduzem a um empobrecimento e uma degradação da qualidade da democracia, está a ser um mau PR.

Pode dizer-se que, apesar de tudo, ele tem vetado algumas medidas, e noutros casos, tem feito o seu “magistério de influência”, falando com o Governo e influenciando as decisões. Sim, isso é verdade, mas em meu entender foi muito pouco, tem sido muito pouco face ao que eu, e muitos eleitores, esperávamos dele. E é imperdoável ter sido conivente com a não recondução da anterior PGR, com a nomeação do Mário Centeno para o BdP, com outras nomeações semelhantes. Por exemplo, agora, não exigir a demissão do ministro Cabrita, envolvido em tantas polémicas.

Marcelo terá agora, no segundo mandato, que mudar a sua atuação, para poder sair com a mesma popularidade com que entrou. E ele tem mostrado alguns sinais disso, alguns sinais de insatisfação. Vamos ver como se sairá nessa tarefa, num contexto de pandemia.

O grande problema que ele enfrenta agora é não existir oposição. Falei sobre a desgraça que tem sido este governo, mas infelizmente a oposição não está melhor. O PSD, o maior partido da oposição, simplesmente demitiu-se desse papel. Alguém imagina um partido da oposição que faz mais elogios que críticas ao Governo? Não, nunca se viu tal coisa. Pois, é o que o PSD tem feito com o atual líder, Rui Rio. Ele tem a estratégia de ser o mais semelhante possível ao PS, convencido que só assim ganha eleições, roubando-lhe o eleitorado.

Só que as pessoas, entre o original (o PS) e a cópia (o PSD), preferem naturalmente o original. É a pior estratégia possível para um partido da oposição, e isso tem-se refletido nas sondagens, com o PSD sempre a descer. Espero que, na sequência das eleições autárquicas de setembro, o PSD troque de líder, para passarmos a ter alguma oposição em Portugal. Que tanto precisamos.

Conhece o Brasil?

Não. Infelizmente ainda não conheço. Tenho viajado muito, mas com grande pena minha ainda não tive oportunidade de conhecer esse grande país. Mas vou fazê-lo, claro. Sempre quis conhecer o Brasil, até porque os meus pais conheceram e a minha mãe sempre me contou maravilhas do Brasil.

Acompanha a atualidade brasileira?

Também não. Deveria acompanhar mais. Só acompanho pelas poucas notícias que vão passando na comunicação social portuguesa, o que é muito pouco.

Curte futebol?

Sim, gosto de ver. Não acompanho muito. Em criança e jovem, sim, seguia tudo, era adepto do Benfica, claro. Seguia os jogos todos, conhecia todos os jogadores. Depois, em adulto, deixei de ligar. Na televisão raramente vejo um jogo, exceto aqueles mais importantes, quando joga a seleção ou quando o Benfica vai a uma final. Mas gosto de ir ver um jogo ao estádio, de vez em quando. Ao estádio da Luz, claro. Ainda por cima agora moro perto.

No Brasil, seria Vascaíno, confere? 😊

Vascaíno é adepto do Vasco da Gama? Sim, será isso. Não acompanho o futebol brasileiro, mas se você diz, confere 😊. Nós, benfiquistas, dizemos que "quem não é do Benfica, não é bom pai de família". Por isso, eu disse "era do Benfica, claro".

Conhece algum (ou alguns) dos já ‘entrevistados’ por nós?

Sim, conheço o Lourenço Bray. Somos amigos, ele foi meu colega na Anacom, conhecemo-nos aí e ficámos amigos. Atualmente partilhamos os mesmos interesses, nomeadamente políticos, ele também é um liberal clássico.

E o José Brás, conheço apenas por ser amigo dele no Facebook, e fiquei a conhecer melhor na entrevista. As redes sociais têm esta coisa curiosa. Ao fim de alguns anos conhecemos melhor uma pessoa que nunca vimos pessoalmente, mas com quem interagimos todos os dias nas redes, do que outra pessoa que conhecemos na "vida real" há anos.

Conhecia o Cão?

Não, por acaso não conhecia. Tenho estado a ver agora, e acho muito interessante. Parabéns por esta iniciativa de entrevistar pessoas comuns.

Mário, tocou no ponto fraco, ou forte: “entrevistar pessoas comuns”. Ou, como disse José Brás: “falar com as pessoas”. Sim, ouvir as pessoas que, na maioria das vezes, têm mais a dizer (e ensinar) do que os manjados comentaristas e “especialistas”. Muito obrigado!

O vírus chinês, mutante que só ele, anda pelo planeta, vai fazer dois anos. Mesmo com vacinas, confinamentos, multas e prisões, continua tudo na mesma, se não pior…
No Brasil, para tranquilidade da população, tá tudo bem explicado: a culpa e responsabilidade pelos lamentáveis internamentos e falecimentos, são única e exclusivamente do presidente da República. Ponto. E em Portugal?

Pois. Em Portugal é diferente. O Primeiro-ministro e o Presidente estão muito alinhados no tema Pandemia, e os resultados têm sido relativamente bons. Só tivemos um período de grande stress do sistema de saúde, a seguir ao Natal, janeiro e fevereiro. Em geral, o programa de vacinação tem corrido bem, e creio que Portugal é dos países do mundo com maior percentagem de vacinados neste momento.

Eu não queria alongar-me muito neste tema, porque não sou médico nem epidemiologista, e critico todos os que falam na comunicação social e nas redes sociais como se fossem especialistas, não o sendo.

Mas queria fazer só duas observações. Sou crítico do papel da comunicação social aqui, porque é de uma total falta de transparência, além disso há um exagero na propaganda do medo. Todos os especialistas que vão à TV apelar ao medo, e às desgraças que aí vêm, têm horas de tempo de antena. Se, por acaso, há algum que vem dizer o contrário, que não é necessário máscaras na rua, ou algo do género, então nunca mais aparece e cortam-lhe a voz. Não há debate algum, não se discutem as medidas. E, nuns momentos, as decisões são exclusivamente técnicas, quando dá jeito, e noutras alturas já não podem ser técnicas, e têm de ser exclusivamente políticas, quando isso interessa. Perde-se um pouco a credibilidade.

A outra crítica que eu faço é não haver prestação de contas (como alguém pedia num artigo de opinião recente do Observador). Estamos há quase dois anos com medidas intrusivas e restritivas das liberdades mais básicas - ok, admito que necessárias por uma razão de saúde pública - mas com implicações fortíssimas em termos da vida diária das pessoas, da economia, das escolas, etc. E há que fazer um balanço, porque outros países seguiram outras medidas. Quais os impactos? os resultados foram bons ou maus? As escolas estarem fechadas foi bom ou mau? Portugal foi dos países europeus onde as escolas estiveram fechadas mais tempo. Qual o impacto disso no futuro dessas crianças? Isto devia ser avaliado, já é tempo, ao fim de quase dois anos.

Mas não se faz, porque não interessa ao Governo. Isto para não falar no impacto na saúde de todas as outras doenças que não Covid, que é brutal, mas também não se fala nisso. E no impacto a médio prazo na saúde mental, que será ainda mais preocupante.

Acredita em Deus?

Sim, acredito. Na verdade, tive uma educação na Igreja Católica muito rigorosa, a minha mãe foi a minha catequista, o que agradeço muito, era muito boa catequista, e ia à missa todos os domingos, etc.

Em adulto, afastei-me um pouco, e mais tarde, há uns dez anos, quando aconteceu uma doença grave a uma pessoa próxima, aproximei-me de novo. Depois, fiz um percurso que muita gente faz em certa idade, que foi a procura de outras explicações, outras abordagens, perceber o sentido da vida, procurar a minha essência, o meu interior. Fiz alguns retiros de meditação, ligados a espiritualidades, mas não religiosos.

Creio que estamos todos sempre a procurar o sentido da vida. As explicações para o que nos acontece.

No Brasil são mais avançados do que aqui em muitas coisas. Por exemplo, uma abordagem interessante é a das "Constelações Familiares", que no Brasil já é aplicada, no Direito, nos Tribunais, e parece-me que pode ser útil. Aqui ainda não é.

Mas, sim, definitivamente acredito em Deus, acredito que há algo superior, que está a um outro nível. E acredito que cada um de nós é também um ser divino, e devemos procurar esse divino em nós próprios.

Fernando Pessoa, que era um místico, e também astrólogo (um excelente astrólogo mesmo) escreveu esta frase "o que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima". Eu acredito que todos temos um pouco de divino.

Uma pergunta que não foi feita?

Duas. E respondo, posso? 😀

"Quantos filhos tem?"
Tenho três, que são o meu orgulho, um rapaz e duas meninas.

E "quais os seus hobbies?"
Tenho vários, mas o mais recente é a pintura, hobbie que partilho com a Célia, minha namorada. Aproveitamos o confinamento para pintar. Tenho quadros alusivos a Lisboa, Fernando Pessoa, e muitos outros. A pintura é também uma excelente forma de terapia.

A derradeira mensagem:

Nestes tempos difíceis que vivemos, não só pela pandemia, mas sobretudo pelas mudanças políticas e a ascensão dos radicalismos e extremismos em todo o mundo, devemos ter muito cuidado em não recuar no nosso modo de vida democrático e na defesa intransigente das liberdades individuais (democracia e liberdade não são a mesma coisa, embora sejam muitas vezes confundidas).

Neste sentido, aconselhava os leitores a lerem os autores da tradição liberal clássica, como John Locke, Stuart Mill, Adam Smith, Alexis de Tocqueville, Friedrich Von Hayek, Milton Friedman ou Ludvick Von Mises. Está lá o essencial sobre as liberdades.

Se quiserem ler apenas um livro leiam "O Caminho da Servidão", do Hayek, um livro pequeno, mas essencial.

E, já agora, para finalizar, aconselho também os livros (a publicar em breve) sobre a Filosofia Viva, do meu amigo José Prudêncio, que está a criar em Lisboa uma nova Filosofia para a Europa.

Obrigado, Mário! 😉

Conversas anteriores: 

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